ANÁLISE DA MÚSICA: SÓ SEI DANÇAR COM VOCÊ - TULIPA RUIZ/TIÊ


Por: Djane Assunção - @mestre_djane | Escrito em 2016/ Atualizado em 2019

 *Esta análise também está na forma de vídeo postado no youtube | http://bit.ly/2Wdeb6h

Só Sei Dançar Com Você é a décima primeira faixa do álbum Efêmera lançado no ano de 2010 pela cantora paulista Tulipa Ruiz. Posteriormente a música passou a ser interpretada pela também paulista Tiê, que a colocou como segunda faixa do seu álbum A Coruja e o Coração de 2011.

De maneira geral, penso que Só Sei Dançar Com Você retrata situações características de um relacionamento amoroso. A letra narra fatos na perspectiva de uma das partes envolvidas nesta relação. Para isso, faz uma analogia entre os aspectos que cercam a paixão/amor com o ato de dançar (não iremos entrar nos méritos de grau de sentimento).

Ao descrever movimentos de dança, isto é, a movimentação do corpo obedecendo a um determinado ritmo musical, é possível inferir que há uma personagem recordando um acontecimento marcante em sua vida. A letra se baseia primordialmente na fala da personagem principal para um interlocutor.

Você me chamou pra dançar aquele dia, mas eu nunca sei rodar

Nesse primeiro trecho percebemos uma personagem insegura perante a situação que se encontra. A parte “você me chamou pra dançar aquele dia” demonstra que as atitudes iniciais que colocaram os personagens frente a frente foram tomadas pelo interlocutor. A aparente timidez da personagem locutora é refletida na sua negação descrita em “mas eu nunca sei rodar”.

Essencialmente, se faz necessário observar que os trechos da música atribuídos ao contexto de uma dança, são expostos através de uma sequência de ações que já ocorreram. Nesse caso, a fala da protagonista rememora uma série de acontecimentos.

Inicialmente os acontecimentos estão ligados a um momento específico de intimidade entre os envolvidos. Pode-se pensar esta sugestão através de diferentes prismas, em diversos níveis de intimidade amorosa. No entanto, sugiro imaginar como sendo o primeiro encontro. A partir desse momento o contexto geral da letra nos leva a pensar no amor de maneira mais ampla.

Cada vez que eu girava parecia que a minha perna sucumbia de agonia

Nesse trecho o sentimento de insegurança da protagonista fica ainda mais evidente. A frase “minha perna sucumbia de agonia” é autoexplicativa, bastando apenas saber que sucumbir significa ser vencido ou dominado.

Basicamente, fica nítido que a interação entre os personagens começou de maneira receosa, pois, o termo agonia traz a conotação de alguma forma de aflição ou sofrimento agudo, de origem física ou moral.

“Cada vez que eu girava”, para além do seu sentido literal, pode ser interpretado como um cenário de dúvidas, de incertezas sobre o que realmente sentia a protagonista.

Em cada passo que eu dava nessa dança, ia perdendo a esperança

Perceba que até aqui, os trechos analisados são voltados para um clímax nostálgico, ruim e atrelado ao desconforto e a negatividade. Isso fica evidente em “ia perdendo a esperança”.

Quanto mais envolvida, mais confusa a personagem se sentia. O relacionamento (a dança) manteve a continuidade, ainda que ela tenha estado cercada por indagações sobre estar realmente fazendo a coisa certa.


Você sacou a minha esquizofrenia e maneirou na condução

Aqui, fica aparente que a agonia anteriormente citada decorreu da pressão que a protagonista vivenciava por estar se envolvendo rápido demais. A aflição, e explícita incerteza, expostas nos trechos anteriores, comprova isso. Além do mais, a parte “sacou a minha esquizofrenia” vem para encerrar qualquer tipo de dúvidas.

Esquizofrenia é um distúrbio cerebral em que o indivíduo interpreta a realidade de maneira incomum.

No entanto, esses sentimentos são parcialmente suprimidos pela atitude do interlocutor, da pessoa que a protagonista tem apreço. É como se personagem principal reconhecesse ser uma pessoa extremamente propensa a vulnerabilidade emocional, e sua parceria, ao perceber tal fraqueza (esquizofrenia), evitou a pôr em momentos de constrangimento ou exigir a rápida tomada de decisões. Fundamentalmente a pessoa para quem a locutora se dirige buscou se adequar ao seu ritmo, como sugere a letra “maneirou na condução”.

Nessa parte, fica explícita a analogia que introduzimos ao contexto da canção. Percebemos isso quando sabemos que nas danças que necessitam de um casal para serem realizadas, um indivíduo é ensinado a conduzir, a “ter pegada”. Enquanto o outro é instruído a ser conduzido, a se deixar levar pelo ritmo imposto daquele que conduz.

Toda vez que eu errava "cê" dizia pra eu me soltar porque você me conduzia

Nessa parte, a personagem principal fala de aceitação e da paciência que seu interlocutor teve perante a sua situação de fragilidade. É como se ela explicasse que a sensatez para enxergar as dificuldades trouxe segurança para que o romance continuasse.

Do mesmo modo é a dança, se não houver harmonia e sensatez para execução dos passos, não existe possibilidade de a ação ser executada com perfeição, o que remeterá na ausência de uma legítima forma de expressão subjetiva ou dramática.

Mesmo sem jeito eu fui topando "essa parada" e no final achei tranquilo

Invertendo a ordem de apresentação da analogia, podemos dizer que como alguém que está aprendendo a dançar, a personagem protagonista deixa notório que aos poucos foi sabendo lidar com as dificuldades, mas que isso só foi possível porque ela passou a ter segurança na pessoa que a conduz, que a ensina a dançar (leia-se amar).

Observação - A parte “topando essa parada” pode ter sido posta na letra como um jogo de palavras e significados. Uma “topada” significa o ato ou efeito de bater involuntariamente com o pé de encontro a um obstáculo (situação comum a quem está aprendendo a dançar). A expressão “topar uma parada”, por sua vez, significa aceitar determinado desafio, como sugere a letra - o desafio de dançar ou o de amar.

Só sei dançar com você. Isso é o que o amor faz

Quando alguém está aprendendo a dançar, é normal se sentir confortável para arriscar os passos da dança somente com a pessoa que a ensina, ou que a guia.

Traduzindo para a análise, entendemos que somente o amor paciente e sincero pode proporcionar convicção para lidar com as situações que um relacionamento impõe. O amor verdadeiro faz com que as adversidades da vida sejam transpostas de maneira coerente. Confiança e proteção são conquistadas quando se dispõe a lutar as lutas do outro e a acreditar no seu potencial. Isso é o que o amor faz.

Como citar esse artigo: SILVA, João Djane Assunção da. ANÁLISE DA MÚSICA: SÓ SEI DANÇAR COM VOCÊ - TULIPA RUIZ/TIÊ. Abstracionando Pensamentos. João Pessoa, 2016. Disponível em: http://bit.ly/2HM4Ezl Acesso em: (dia), de (mês). (ano).

4 comentários:

  1. Tenho a mesma interpretação dessa música, acho que ela narra o amor e os fatos subsequentes são quando você passa a confiar e a relação vai ficando mais calma e serena.

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    1. Isso mesmo! O amadurecimento no relacionamento e a confiança proporcionada pelo sentimento de amor sincero ocasiona isso!

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  2. Ela é totalmente dependente desse amor 😣 assim como eu.

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    1. Eu diria, como nós! Também me identifico com essa letra, nesse sentido :(

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