ANÁLISE DA MÚSICA: DOM QUIXOTE - ENGENHEIROS DO HAWAII


Por: Djane Assunção - @mestre_djane | Escrito em 2015/ Atualizado em 2019

*Esta análise também está na forma de vídeo postado no youtube | http://bit.ly/2H86jzD

Dom Quixote é a sexta faixa do álbum Dançando no Campo Minado (2003), da banda gaúcha Engenheiros do Hawaii. Os compositores da canção foram Humberto Gessinger e Paulo Galvão.

A principal referência para análise da letra está em seu título, pois, Dom Quixote também é um livro do escritor espanhol Miguel de Cervantes, publicado originalmente em duas partes. A primeira surgiu em 1605 e a segunda em 1615. A obra obteve maior fama quando o livro foi traduzido para inglês e francês. [Baixe o livro em PDF] [Baixe o Audiolivro]

Para falar da obra de Cervantes, iremos contar principalmente com a ajuda do artigo publicado no site Cultura Genial, referência postada no final da análise. [1]

Dom Quixote é um clássico da literatura universal, originalmente intitulado “El ingenioso hidalgo Don Quixote de La Mancha”.

O livro conta as aventuras de Dom Quixote e seu fiel escudeiro, Sancho Pança. Dom quixote decidiu se tornar cavaleiro andante após ler famosos romances de cavalaria. A partir disso a vida do personagem transmuta entre a realidade e a fantasia, pois, ele passa a agir como se o seu mundo fosse o mesmo dos descritos nos livros. Quixote passa a vestir armadura e a montar cavalo, transformando obstáculos banais (como moinhos de vento ou ovelhas) em gigantes e exércitos de inimigos. É derrotado e espancado inúmeras vezes, sendo batizado de "Cavaleiro da Fraca Figura", mas sempre se recupera e insiste nos seus objetivos. Sua saga de cavaleiro também tem como propósito a luta para provar seu amor por Dulcineia de Toboso, uma mulher imaginária. [1]

Muito prazer, meu nome é otário vindo de outros tempos, mas sempre no horário

O primeiro trecho da letra traz um personagem se apresentando como “otário”, demonstrando em sua afirmação um sentimento de indiferença e dando a entender que ele se sente fora de contexto em relação a algo, como subtende a frase “vindo de outros tempos”.

Associando esse contexto com o ano de composição da música, entendemos que o incômodo intrínseco ao personagem se encontra nas relações sociais, políticas e econômicas que estão presentes na sociedade de sua época, em especial, o funcionamento do Sistema Capitalista. O trecho “sempre no horário” faz alusão justamente ao modo como se dão as relações capitalistas na sociedade.

Capitalismo - apesar de ser considerado um sistema econômico, o capitalismo estende-se aos campos políticos, sociais, culturais, éticos e muitos outros, compondo quase que a totalidade do espaço geográfico. Em resumo, os proprietários dos meios de produção (chamados de burgueses ou capitalistas) são a minoria da população e os não-proprietários (proletários ou trabalhadores - maioria) que vive dos salários pagos em troca de sua força de trabalho. Essa maioria oprimida é diariamente disciplinada através de imposições feita pelas relações de trabalho, isto é, o cumprimento de normas contratuais, rotinas padronizadas, necessidade de seguir horários pré-estabelecidos, entre outras características. [2]

Peixe fora d'água, borboletas no aquário

Aqui, o personagem da análise exemplifica sua descontextualização com o mundo. Ele está querendo dizer que as coisas não estão certas, estão fora da sua ordem natural. Assim como um peixe fora d’agua ou uma borboleta em um aquário, é o personagem, completamente deslocado no habitat que se encontra.

Fazendo um paralelo com as características do protagonista de Cervantes, podemos inferir que assim como Dom Quixote, o personagem da análise é atraído por valores como liberdade, espontaneidade, além de utopias para uma sociedade justa e igualitária. Quixote era fascinado pela glória, honra e coragem dos cavaleiros presentes nos romances que lia. Trocou o tédio da vida burguesa pelas aventuras da cavalaria. [1]

Muito prazer, meu nome é otário, na ponta dos cascos e fora do páreo, puro-sangue puxando carroça

Esse trecho basicamente dá continuidade ao anterior, ressaltando o sentimento de insatisfação e descontextualização com o sistema sociopolítico. Traz posições contrárias, como a metáfora de um cavalo puro-sangue fora do páreo e puxando carroça.

Puro Sangue - é uma das raças de cavalos mais velozes e uma das mais valiosas do mundo. Trata-se de uma raça misturada de equídeos diferentes que ainda conservam o registo genealógico das primeiras raças Inglesas e Irlandesas. [3]

Quando o personagem se autodeclara “otário”, também traz a ideia de que em uma sociedade com valores invertidos, as pessoas que seguem as normas morais e éticas são vistas como “otárias”, que ser honesto e acreditar na igualdade social é ir na contramão do pensamento dominante.

Um prazer cada vez mais raro, aerodinâmica num tanque de guerra, vaidades que a terra um dia há de comer

Nessa parte é como se o personagem da análise dissesse que em um mundo cada vez mais deturbado, mais corrompido, encontrar indivíduos que assumem o peso de acreditar no bem é algo cada vez mais escasso, cada vez mais raro. Quando ele diz “aerodinâmica num tanque de guerra”, ele está falando que a sociedade está se desprendendo dos valores fundamentais para o bem-estar social e prezando cada vez mais a desumanidade e o incentivo a apropriação de valores materiais, ou seja, “vaidades que a terra um dia há de comer”.

Nesse sentido, vamos destacar o quanto historicamente a humanidade vem usando o conhecimento para o mal, principalmente no desenvolvimento bélico.

O século XX foi bastante importante no quesito desenvolvimento da ciência e da tecnologia voltada para a guerra. Existiram vários conflitos, mas os mais significativos foram a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e a Guerra Fria (1947-1991).

Se pensarmos em relação ao século XXI e mais especificamente ao ano de lançamento do álbum Dançando no campo minado, podemos destacar duas guerras bem significativas, e que se o leitor se aprofundar, perceberá que tudo gira em torno do capital.

A guerra no Afeganistão - os atentados de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos da América (EUA), deram início à outra guerra no Afeganistão. Em outubro do mesmo ano, os EUA iniciaram o ataque ao país. O objetivo era encontrar Osama Bin Laden (tido como principal organizador do ataque). Batalhas, bombardeios, revolta, destruição e milhares de mortos marcaram este conflito. [4]

A guerra do Iraque - no ano de 2002, o então presidente dos EUA George W. Bush iniciou uma forte campanha contra as ações militares do governo iraquiano. Após denunciar a produção de armas químicas e biológicas no Iraque, os EUA conseguiram que uma delegação de inspetores das Nações Unidas investigasse o estoque de armamentos controlados pelo ditador Saddam Hussein. Em fevereiro de 2003, os delegados da ONU chegaram à conclusão que não havia nenhum tipo de arma de destruição em massa no Iraque. Contudo, contrariando a declaração do Conselho de Segurança da ONU, o presidente George W. Bush formou uma coalizão militar contra os iraquianos. No dia 20 de março de 2003, contando com o apoio de tropas britânicas, italianas, espanholas e australianas, os EUA deram início à guerra do Iraque com um intenso bombardeio. [5]

Períodos em que o homem está em guerra fazem o desenvolvimento ser maior e mais perceptível. Ainda que economias inicialmente sejam impulsionadas pelo setor bélico, outros setores, como a biologia, física, química, medicina também avançam, mesmo que à custa de milhares de vidas e destruição de cidades. [6]


Ás de Espadas fora do baralho, grandes negócios, pequeno empresário, muito prazer, me chamam de otário

Essa parte reitera a angústia do personagem com a maneira que a sociedade se desenvolve e os seus deslocamentos de posições (ás de espadas fora do baralho, grandes negócios, pequeno empresário).

Curiosidade - o significado do Ás de Espadas no baralho do tarô se enquadra perfeitamente ao contexto da nossa análise. A carta Ás de Espadas sugere que algo necessita se exteriorizar, seja um conceito, uma realidade desagradável, um momento de reflexão e bom senso, ou até mesmo a necessidade de fazer algo com clareza e transparência. O Ás de Espadas indica uma altura de acreditar em si próprio, não duvidar das suas capacidades, motivações ou intenções, pois, a prontidão para entrar em ação será crucial para a realização dos seus objetivos. [7]

Por amor às causas perdidas, tudo bem, até pode ser, que os dragões sejam moinhos de vento

Essa parte é a que mais se aproxima com Dom Quixote de Cervantes. Em suas abstrações Quixote enfrentava monstros imaginários que surgiam de objetos, em especial os moinhos de vento. Ele era crente na sua missão de livrar a sociedade do mal, desfazer as inúmeras injustiças do mundo. Por isso era considerado como um homem tolo e louco. [8]

A imagem de luta contra os moinhos de vento se tornou um símbolo para as causas impossíveis, para os idealistas e os sonhadores. Quixote, encarado por todos como um louco, pode ser apenas visto como um homem disposto a tudo para correr atrás dos seus sonhos. Apesar da impossibilidade de ser um verdadeiro cavaleiro andante, o protagonista da obra vive sua utopia, através da fantasia e das aventuras que cria para si mesmo. [1]

Essa parte frisa muito bem a necessidade de sonhar, mesmo reconhecendo que seus ideais são utópicos, isto é, por amor às causas perdidas. É preciso não temer, jamais desistir, e enfrentar as batalhas diárias mesmo que pareçam já perdidas. Vale ressaltar que os monstros que Dom Quixote enfrentava eram meros moinhos de vento.

Tudo bem, seja o que for, seja por amor às causas perdidas, por amor às causas perdidas. Muito prazer, ao seu dispor, se for por amor às causas perdidas, por amor às causas perdidas 

Por fim, ao focalizar as “causas perdidas”, o personagem da análise não acredita que realmente sejam causas perdidas, mas ele traz a discussão sobre o fato de que ações de honestidade e integridade, que visam o altruísmo e o bem-estar social, estão se tornando gradualmente raras. É justamente por esse motivo que ele se sente desconexo do mundo ao seu redor. Deslocado por estar em meio a um sistema social que o censura e o condena por defender valores em que ele acredita que tornariam o mundo um lugar bem melhor.

Da mesma forma é Dom Quixote de Cervantes. Os comportamentos aparentemente tresloucados do cavaleiro andante podem ser interpretados como uma forma de protesto, de crítica social, na busca de valores que parecem perdidos ou ultrapassados. [1]

Como citar esse artigo: SILVA, João Djane Assunção da. ANÁLISE DA MÚSICA: DOM QUIXOTE - ENGENHEIROS DO HAWAII. Abstracionando Pensamentos. João Pessoa, 2015. Disponível em: http://bit.ly/2SAZIyP Acesso em: (dia), de (mês). (ano).

Referências:

26 comentários:

  1. Que interpretação fantástica! Ainda trouxe um resumo de fatos históricos que infelizmente tem se multiplicado.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado Flávia, agradecido por ter gostado. Verdade, estamos indo de mal a pior :(

      Excluir
  2. voce vez um resumo sobre o livro dom quixote ou o q vc achou q era

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Bom, a análise é sobre a música da banda Engenheiros do Hawaii. O pequeno resumo do livro é apenas para fazer um paralelo com o significado que a letra nos repassa. Não entendi sua pergunta direito, mas bem, é isso.

      Excluir
  3. Uau! Parabéns,excelente interpretaçao,a melhor q li! Boas palavras, colocou de uma maneira bem clara, arrasou

    ResponderExcluir
  4. Estou completamente em choque.
    Sou uma grande fã do Gessinger, nenhuma música dele (por mais que pareça) é sem sentido. Sua interpretação foi maravilhosa, meus parabéns.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Também sou grande fã desde moleque. Obrigado pelas palavras. Fico feliz que tenha gostado 0/

      Excluir
  5. Parabéns!! Linda música, excelente interpretação mas... o álbum "Dançando no campo minado", se não estou enganado, é de 2003 e não de 2013 ;-)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Verdade, eita! Erro de digitação que foi devidamente corrigido. Muito obrigado pela contribuição! :D

      Excluir
  6. Uaal. Eu amo essa música e eu sempre entendi o que ela dizia, mas a sua interpretação foi maravilhosa. Ótima interpretação, ótimas observações❤

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado. neste mês 03/2019 pude enfim atualizar! Abraços.

      Excluir
  7. Como coloco seu trabalho como referencia ? Gostei muito, ótimo trabalho!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sei que já faz muito tempo do comentário, mas vou deixar aqui a resposta para outros possíveis interessados verem: Como citar esse artigo: SILVA, João Djane Assunção da. ANÁLISE DA MÚSICA: DOM QUIXOTE - ENGENHEIROS DO HAWAII. Abstracionando Pensamentos. João Pessoa, 2015. Disponível em: http://bit.ly/2SAZIyP Acesso em: (dia), de (mês). (ano).

      Excluir
  8. Melhor interpretação que já li. Sensacional! Me identifico muito com a letra dessa música, me sinto como o eu lírico.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É a minha preferida da banda. Também me identifico bastante!

      Excluir
  9. Putz,que interpretação!
    Parabéns!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado. Felizmente, nesse ano pude dar uma atualizada. Agora está melhor referenciada hehe Abraços

      Excluir
  10. Perfeita interpretação! Parabéns!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado. Nesse mês 01/2019 pude dar uma atualizada. Agora está melhor organizada e conceituada. Um abração.

      Excluir
  11. Sensacional a análise, me fez gostar ainda mais dessa música e do próprio Humberto. Rs

    ResponderExcluir
  12. Incrível o seu trabalho para fazer essa análise! Parabéns mesmo! Me deu vontade de ler Dom Quixote! E essa música.... Ah! Agora ganhou ainda mais significado!! Parabéns

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. A obra é bastante singular. Obrigado pelo contato, fico feliz em contribuir com a discussão. Abração.

      Excluir

Tecnologia do Blogger.