ANÁLISE DA MÚSICA: NOVOS HORIZONTES - ENGENHEIROS DO HAWAII


Por: Djane Assunção - @mestre_djane | Escrito em 2014/ Atualizado em 2018

Novos Horizontes é a décima oitava faixa do álbum 10.000 destinos, que é o terceiro álbum ao vivo dos Engenheiros do Hawaii, lançado em CD e DVD no ano de 2000.

Nessa análise iremos partir de uma visão que traz o término de um relacionamento amoroso, na qual um indivíduo está em estado de melancolia e reflexão. Junto a esse ponto de vista, unimos as referências ligadas a princípios da física, da astronomia e do budismo, sobre este último especificamente o conceito de impermanência.

Corpos em movimento, universo em expansão

Nessa primeira parte o indivíduo está tentando assimilar a situação que lhe ocorre. Estamos falando em estar distante da pessoa que ele possivelmente ama. O trecho traz a ideia de mudança, de que o mundo gira, a vida dá voltas e as coisas mudam (movimento/expansão).

Universo em expansão - segundo a famosa lei de Hubble o universo está em constante expansão. Essa lei diz que é possível medir as velocidades relativas de afastamento ou de aproximação das galáxias através do deslocamento Doppler da luz que elas emitem. Pela observação das galáxias distantes percebemos que elas estão se afastando de nós. [1]

Atualmente o chamado “horizonte do universo visível” fica a cerca de 13,5 bilhões de anos-luz da terra. Em outras palavras, o ponto mais distante de onde a luz pôde ser observada pelos astrônomos. Esse horizonte está em constante expansão, já que se sabe que desde que o universo "explodiu", ele nunca parou de crescer. “Se você olhar para qualquer outra galáxia a nossa volta, todas estão se distanciando de nós e também umas das outras, como se fossem azeitonas dentro de uma massa que está crescendo no forno. O horizonte do universo visível, portanto, está se expandindo”. [2]

No livro Seis Segundos de Atenção(2013), o compositor da letra e ex-líder dos Engenheiros do Hawaii, Humberto Gessinger, tece alguns comentários sobre o tema.

“Faz parte. O fim pode chegar para o próprio universo que - dizem - se contrai e expande. Só o amor - sinto - tem sempre e para sempre terá o tamanho exato. Como o fole da sanfona, que abre e fecha e está sempre no tamanho certo. Soando acordes maiores ou menores, mas sempre do tamanho certo.” [3]

Trazendo para o contexto da análise, podemos entender que assim como a lei de Hubble, que faz uma relação entre a velocidade de afastamento de uma galáxia e sua distância em relação à Terra, a pessoa que o protagonista da letra ama está se afastando dele. Isto o coloca em aflição, efeito causado pelas mudanças que estão acontecendo em sua vida.

O apartamento que era tão pequeno, não acaba mais

Nesse trecho sugerimos que o locutor do texto (personagem falante, o indivíduo em questão) explicita a ausência da pessoa que ele ama. Podemos inferir que quando junto dela, seu lar se tornava pequeno para os momentos de paixão. Depois que esta pessoa amada se afastou, seu cotidiano passou a ser solitário, ou seja, aquele espaço que parecia minúsculo (apartamento) agora parece não ter fim (continua se expandindo - relação com o trecho anterior).

Vamos dar um tempo, não sei quem deu a sugestão

Nessa parte, o indivíduo possivelmente se mostra arrependido dos motivos que levaram ao fim do seu relacionamento (não sei quem deu a sugestão). Seria como se ele levantasse uma questão para si: como as coisas puderam acontecer desta forma? Talvez ele pense que poderia ter evitado estar passando por este embaraço (vamos dar um tempo). Provavelmente ele acredita que se tivesse tomado controle da situação isto não estaria acontecendo.

A partir desse ponto o conceito de Impermanência nos ajudará a entender o que o compositor quer expressar. A impermanência (Annica) - é um conceito encontrado no budismo e segundo esta doutrina, é essencial para a descrição do universo, pois, trata-se da constante mutação dos elementos que o compõe. Nada neste mundo é permanente, assim, “causas e condições variam constantemente e o seu resultado, portanto, também varia”. [4]

Trazendo para o contexto da análise, entendemos que ninguém pode controlar o estado das coisas, ou seja, somos seres “líquidos” e em contínuo processo de renovação. O que, portanto, inclui as idas e vindas, começos e términos dos relacionamentos. Quando entendermos isso poderemos alcançar a compreensão da impermanência, aceitando de maneira racional o desapego.

Como bem escreve o Humberto Gessinger em Seis Segundos de Atenção (2013):

“Definições rígidas e simplificadas são legais pra começar uma conversa no ônibus ou no bar, mas estas certezas esquemáticas rapidamente nos deixam na mão, são incapazes de desenhar o universo.” [3]

Aquele sentimento que era passageiro não acaba mais

O “sentimento” que a letra se refere é o da saudade. Para entendermos esta afirmação aplicaremos a seguinte suposição: o casal imaginado na análise se via frequentemente, sendo assim, o sentimento de saudade era algo passageiro. Com o afastamento, estar junto, agora é algo restrito as lembranças do locutor do texto, portanto, a saudade é algo que está o atormentando (não acaba mais).


Novos horizontes se não for isto, o que será?

Partindo do princípio que estabelecemos para essa análise, imaginemos que esse questionamento levantado pelo locutor do texto se baseia na tentativa de achar uma resposta imediata para sua angústia. É bem comum supormos motivos para compreender o fim de um relacionamento que não pôde ser explicado de uma maneira satisfatória. Sendo assim, talvez ele julgue que seu amor só o deixou por que estava desgastado e precisava buscar novos rumos, ou seja, novos horizontes.

No livro Nas Entrelinhas do Horizonte(2012) Humberto Gessinger dá pistas para compreendermos essa situação.

“Afinal, o que faz a beleza do horizonte? As coisas objetivas, que estão lá longe (prédios recortando o céu, montanhas, nuvens) ou nossa subjetiva capacidade de enxergá-las?” [5]

Já em uma entrevista para o jornalista Fabricio Mazocco realizada em 07/08/2013 para o site Rock80Brasil, que comentava o disco solo do Humberto Gessinger denominado Insular (2003), ele fala sobre impermanência ao se referir a canção Tudo Está Parado. [6]



Vale citar uma parte de duas faixas do álbum insular, que no que lhe concernem, provavelmente mantêm uma conexão ideológica com a letra que estamos analisando.

A faixa Tudo Está Parado diz:

Tudo está parado por aí esperando uma palavra [...]. Fiz uma pergunta no escuro deste quarto. Tudo está parado esperando por você. A noite que caía, o ciclo das marés. A fumaça que subia pelas chaminés.” [7]

Já a faixa Bora diz:


"Bora, há uma ponte pro horizonte no teu quintal [...]. O tempo vai passando, o passado vai pesando o futuro ninguém sabe, ninguém vê. Vai abrir uma janela de oportunidade esteja pronto de verdade pra saltar." [8]


Novos horizontes - “Diversas descobertas na Física abriram novos horizontes para a ciência, mesmo sendo duras para os físicos, porque derrubavam conceitos considerados fundamentais e universais que haviam sido acariciados por milênios. O estudo do Universo e seus componentes nos permite ir muito além das limitações do ambiente humano e explorar novos horizontes, circunstâncias que esclarecem detalhes da realidade que não podemos observar na Terra por causa das circunstâncias limitadas”, afirma o físico doutor Eduardo Lütz. [9]

Quem constrói a ponte não conhece o lado de lá

Nessa parte, para melhor compreensão, vamos primeiro dar uma explicação sob a ótica de princípios da física, depois fazemos a analogia com as teorias sobre o possível término de relacionamento do personagem principal.

Ponte de Einstein-Rosen - “O nosso universo pode estar situado no interior de um buraco de minhoca (wormhole) - também conhecido como Ponte de Einstein-Rosen - uma espécie de 'cano' hipotético que une dois universos. O próprio buraco de minhoca seria parte de um buraco negro que ficaria dentro de um universo muito maior, que contém o nosso como um traço dificilmente detectável por algum cientista 'extra-universal'.” [10]

Fazendo a analogia da proposição científica com a teoria sobre relacionamentos, podemos dizer que quando estamos conhecendo uma pessoa vamos construindo uma ponte para chegara até ela (unindo dois universos), nos envolvemos em sentimentos, palavras, ações, e no caso de uma paixão, nos entregamos de forma intensa. No entanto, nunca somos capazes de conhecer verdadeiramente alguém (traço dificilmente detectável), por isso precisamos criar meios para compreender as pessoas da melhor maneira possível. Então, construímos uma ponte sem conhecer de verdade o lado de lá. Pois, sem as "pontes" não podemos chegar ao outro lado.

Quero explodir as grades e voar. Não tenho pra onde ir, mas não quero ficar

Por ainda sentir muito amor por uma pessoa que está distante, o indivíduo se mostra abalado e nitidamente consumido por um sentimento de insegurança, de não querer estar em um lugar com tantas lembranças de um alguém de que ainda se gosta muito.

Não tenho pra onde ir, mas não quero ficar - acredito que esse trecho também faça menção a um dos maiores mistérios da história da humanidade: será que estamos sozinhos no Universo? Será que realmente não temos para aonde ir?

Suspender a queda livre, libertar

Suspender a queda livre seria dizer que o indivíduo quer solucionar seus problemas o mais rápido possível e não se aprofundar cada vez mais em um estado de aflição. Ele deseja se libertar desse desconforto que o atinge.

Campo gravitacional e queda livre - "Os corpos físicos são atraídos pela Terra porque em torno dela há uma região chamada campo gravitacional exercendo atração sobre eles. Se não houvesse a resistência do ar, todos os corpos, de qualquer peso ou forma, abandonados da mesma altura, nas proximidades da superfície da Terra, levariam o mesmo tempo para atingir o solo. Esse movimento é conhecido como queda livre". [11]

Partindo desse princípio científico, o personagem principal ainda se ente atraído por seu amor, assim como um corpo é atraído pelo campo gravitacional da terra. Contudo, ele não quer perder o controle de sua vida e se deixar cair em queda livre, ao encontro de um estado emocional de fragilidade que possa se tornar constante. Daí é preciso assimilar que somos seres em estado de impermanência, para então suspender a queda, libertar-se.

O que não tem fim sempre acaba assim

Especificamente falando sobre a teoria base imposta para a análise, nesse trecho final o locutor do texto admite que ainda acredita na possibilidade de uma reconciliação, ou seja, se ainda existe amor não há um final completo, mas apenas o começo de uma nova etapa (lembre-se da impermanência, tudo se transforma constantemente).

Nas palavras do Humberto Gessinger:

Detalhes cotidianos, entrelinhas de um texto que só saltam aos olhos num olhar mais abrangente, contra o pano de fundo do horizonte. A magia de um momento fugaz na perspectiva que só o tempo dá. Viagens entre micro e macro, do pessoal ao geracional ao universal e de volta ao pessoal.” [12]

Limites do universo - “O universo tem fim? Ou é infinito? Se ele tem fim, então ele deve estar contido em alguma coisa, certo? Não podemos estar simplesmente flutuando no nada! Isso não parece fazer muito sentido.... Tem de haver alguma coisa "do outro lado" de onde ele acaba. Por outro lado, se ele não tem fim, como pode ser infinito? Tudo tem de ter um fim, não é verdade?! Só que isso nos leva de volta ao problema inicial”. [2]

É possível que haja coisas no universo além do nosso horizonte atual, que não são visíveis hoje, mas se tornarão visíveis em algum futuro remoto, à medida que o universo se expande. Da mesma forma é o momento atual em que personagem se encontra. No presente, ele não tem as respostas necessárias para compreender o fim do seu relacionamento, mas à medida que passe o tempo, é possível que ele abra seu olhar para "novos horizontes" e suas dúvidas possam ser cessadas.


Raul Seixas um dia já disse: "cada um de nós é um universo".

Como citar esse artigo: SILVA, João Djane Assunção da. ANÁLISE DA MÚSICA: NOVOS HORIZONTES - ENGENHEIROS DO HAWAII. Abstracionando Pensamentos. João Pessoa, 2014. Disponível em: http://bit.ly/2G28eWv Acesso em: (dia), de (mês). (ano).



Referências:

[3] GESSINGER, H. Seis Segundos de Atenção. Editora Belas Letras. 2013. Disponível em https://drive.google.com/file/d/1elZXsU2hGNJkZZ90IxnnU5hokbn1G-Yo/view
[5] GESSINGER, H. Nas Entrelinhas do Horizonte. Editora Belas Letras. 2012. Disponível em https://drive.google.com/file/d/1pqTUqNxBLahOMm3gWgSeZxLQw9c2NcM-/view
[11] http://www.if.ufrgs.br/tex/fis01043/20041/Ghisiane/queda_dos_corpos.htm
[12] http://blogessinger.blogspot.com/2012/04/1-horizontes.html

2 comentários:

  1. Respostas
    1. Análise atualizada! Graças a você Giana pudemos ter novas visões sobre esta letra. A citei nos agradecimentos em postagens nas nossas redes sociais. Novamente, muito obrigado pela sua contribuição.

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