ANÁLISE DA MÚSICA: PRA SER SINCERO - ENGENHEIROS DO HAWAII


Por: Djane Assunção - @mestre_djane

Pra Ser Sincero é a 5º faixa do álbum O Papa é Pop (1990), quarto álbum de estúdio da banda gaúcha Engenheiros do Hawaii. A composição da letra é de autoria do vocalista e multi-instrumentista Humberto Gessinger.

Acredito que a letra de Pra Ser Sincero é baseada no romance Crime e Castigo (1886) do russo Fiódor Dostoiévski [baixe o livro aqui]  [baixe o audiolivro aqui]. A obra traz a história de Rodion Românovitch Raskólnikov (também chamado de Rodka) um jovem estudante que abandona a faculdade de direito e passa a conviver com graves dificuldades financeiras na cidade de São Petersburgo, na Rússia.

Raskólnikov é um homem muito inteligente que ao escrever um artigo para um periódico da cidade acaba expondo uma teoria que posteriormente o leva a cometer um crime hediondo. Sua tese baseia-se na ideia de que homens como Napoleão, Salomão, Newton, isto é, os indivíduos extraordinários têm o direito (claro que não um direito oficial) a autorizar a sua consciência a saltar por cima de certos obstáculos, até mesmo cometer um crime, para salvar a humanidade.

Exemplo: Napoleão matou milhares e foi absolvido pela história, por que ele (Raskólnikov) também não seria se matasse uma pessoa vulgar e infortuna para a sociedade? Não estaria ele fazendo um bem à humanidade? [1]

Entenda melhor na reprodução literal contida na obra de Dostoiévski [2]:

[...] em resumo: se se recorda, havia lá [no artigo] uma certa alusão ao fato de existirem no mundo alguns indivíduos que poderiam... isto é, não se trata de poderem, mas antes que teriam completo direito de cometerem toda a espécie de atos desonestos e de crimes, e para os quais a lei não existisse. (p. 279)

[...] no seu artigo o senhor divide os homens em ordinários e extraordinários. Os homens vulgares deviam viver na obediência e não têm direito a infringir as leis, pelo próprio fato de serem vulgares. Mas os extraordinários têm direito a cometer toda a espécie de crimes e a infringir as leis de todas as maneiras, pelo próprio fato de serem extraordinários. Se não estou enganado, parece-me que era isso o que o senhor dizia. (p. 280)

Orientado por este pensamento e para provar a sua teoria ele articula minuciosamente o assassinato de uma velha senhora agiota de nome Alyona Ivánovna. Após executar o feito Raskólnikov, movido por instinto, também assassina Lisavieta Ivánovna, irmã da velha, pois ela havia casualmente flagrado a cena do crime. Após matar essas duas mulheres e por conta da sua astúcia o personagem sai ileso, porém, a partir daí se vê perseguido por sua incapacidade de continuar a levar uma vida normal. O romance se baseia numa visão sobre religião e existencialismo com um foco predominante no tema de atingir salvação por sofrimento, sem deixar de comentar algumas questões do socialismo e niilismo. [3]

Pra ser sincero não espero de você, mais do que educação. Beijo sem paixão, crime sem castigo. Aperto de mãos, apenas bons amigos

Na obra de Dostoiévski, após um período de lutas existencialistas com seu próprio eu, Raskólnikov encontra em Sônia Siemiônovna um alento parcial para sua culpa, pois com ela alivia seus temores e confidencia as barbaridades que cometeu. Sônia, embora sujeitada a prostituição, é vista por Raskólnikov como o espelho da bondade humana. Ela apresenta-lhe o evangelho e suplica para que ele encontre a salvação através da misericórdia de Deus, objetivo que perpassa pela confissão para as autoridades. Sônia passa a representar no romance a fé ortodoxa e a possibilidade de redenção por meio da misericórdia de Deus, tanto de Raskólnikov como de si mesma, pois é através da caridade feita ao protagonista que ela encontra sentido para esvair-se da sua vida, até então, repugnante para o padrão de sociedade da época. [1] [4]

Desta breve e superficial descrição do romance podemos inferir o caráter contido neste primeiro trecho da letra da música. Raskólnikov e Sônia acabaram se envolvendo acima de tudo porque um carecia do outro. Suas culpas se contemplaram para que pudessem se desprender dos seus fantasmas. Ambos inseridos, cada qual à sua maneira, na busca por castigo [leia-se redenção] a seus crimes. Assim, “esta mescla de pecado e sadismo, de pureza e esperança, não pode sobreviver, não pode permanecer como um todo coerente”. [2] [3]

[...] isto é tudo o que há a respeito da ressurreição de Lázaro - murmurou [Sônia para Raskólnikov] com voz cortante e dura, e ficou imóvel, meio voltada de costas, sem se atrever a erguer os olhos para ele, como se estivesse envergonhada. Continuava ainda a agitá-la um tremor febril. A luzinha que, havia já algum tempo, começara a consumir-se no candeeiro iluminava vagamente naquele mísero quarto um assassino e uma prostituta, estranhamente reunidos para ler o livro eterno. (p. 357)

Aperto de mãos, apenas bons amigos - Vale ressaltar, que embora fique evidente que Raskólnikov e Sônia alimentem uma forte paixão um pelo outro, em nenhum momento eles são mostrados como amantes. Não há no livro a clara manifestação física de atos libidinosos ou sexuais entre os dois.

Pra ser sincero não espero que você minta! Não se sinta capaz de enganar, quem não engana a si mesmo

Seria aqui a súplica de Sônia para que Raskólnikov confesse seus crimes? Uma parte do romance é baseada no aspecto psicológico da culpa, uma vez que o protagonista estava sedento pelo alívio de sua dor, o ensejo pela punição. Surge então as características niilistas do personagem.

Este trecho da canção faz referência ao ato de que ainda que o protagonista acredite fielmente na sua tese, ou seja, que o assassinato é moralmente correto e que seja hábil para esconder minuciosamente os vestígios, ele é castigado de maneira meticulosa pelo seu remorso. [5]

Observação - o remorso do personagem também vem em grande parte do seu orgulho abatido por perceber que não foi capaz de sustentar sua tese, uma vez que por muito tempo esteve inclinado a se entregar as autoridades (fato que veio a ocorrer posteriormente), mostrando-se assim não ser um homem extraordinário, como pensara. Isto o afundou profundamente no caos moral.

Nós dois temos os mesmos defeitos, sabemos tudo a nosso respeito. Somos suspeitos de um crime perfeito, mas crimes perfeitos não deixam suspeitos

Já explicamos que tanto Raskólnikov como Sônia, carregam profundas mazelas interiores (temos os mesmos defeitos). São suspeitos de um “crime perfeito”, no entanto, nenhum crime pode ser perfeito porque seu autor está propenso a própria existência, isto é, o julgamento interno do seu eu.

“Raskólnikov não pode sobreviver sem o auxílio de Sônia, porém, nem Sônia poderia ser redimida não tivesse Raskólnikov se aproximado em busca de sua própria redenção; ela teria continuado na estrada da perdição, da qual seus impulsos caridosos arrancaram-na”. [4]

Posso ilustrar esta relação de dependência nas próprias palavras do compositor da música, o Humberto Gessinger, que em seu livro Pra Ser Sincero (2009), ao expor trechos dos bate-papos que tinha com fãs via internet diz [6]:

O medo do medo é uma merda… o medo de ser frágil, sincero... medo de depender. E depender de alguém é o limite máximo do amor. (p. 110)

Pra ser sincero não espero que você me perdoe, por ter perdido a calma por ter vendido a alma ao Diabo

Aqui teríamos o clamor de Raskólnikov a Sônia? Será que finalmente descobrimos o porque da “venda da alma ao diabo” tão comentada nesta letra?

Ora, nem preciso dizer a gravidade dos crimes de Raskólnikov. Um duplo homicídio na busca pela resposta de uma tese criada por sua própria consciência, esta mesma que o levou ao caos e depois a saga pela redenção.

Vale ressaltar que no romance, “Dostoiévski nos mostra que por mais que a moral seja algo do indivíduo, ela está ligada à sociedade, aos círculos mais íntimos de convívio. A possibilidade de decepcionar alguém querido é algo que também está em jogo nas escolhas das ações”. [5]

Para pôr fim a questão, segue a reprodução literal contida na obra de Dostoiévski [2]:

Eu... eu queria atrever-me, e matei... a única coisa que eu queria era atrever-me, Sônia: aí tens a verdadeira razão.

- Oh, cale-se, cale-se - exclamou Sônia juntando as mãos. O senhor tinha-se afastado de Deus, e Deus feriu-o, entregou-o ao poder do diabo!

- Mas dize-me, Sônia; quando eu estava ali, deitado na escuridão e imaginava tudo isso, era o diabo que me tentava? Hein?

- Cale-se! Não se ria, não blasfeme, que não percebe nada, nada! Oh, meu Deus! Nada, não compreende absolutamente nada! (p.452-453)

Um dia desses num desses encontros casuais, talvez a gente se encontre, talvez a gente encontre explicação. Um dia desses num desses encontros casuais. Talvez eu diga: minha amiga, pra ser sincero, prazer em vê-la! Até mais!

Este trecho remete-se ao desfecho da trama de Crime e Castigo. No fim da narrativa Raskólnikov é preso. No entanto, devido a sua disposição e confessar, bem como a ausência de antecedentes criminais, sua pena torna-se mais branda, sendo de 8 anos em uma prisão na Sibéria.  No entanto, mesmo após a condenação e o exílio do protagonista, Sônia não o abandona e o segue até a prisão, atuando em muitos momentos como mensageira entre Raskólnikov e sua família em São Petersburgo.

O que podemos tirar disto é que no fim das contas ambos parecem aceitar o seu destino, pagar pelos seus “pecados”. O que fica explícito é a esperança em redenção a crença de que um dia possam finalmente estar libertos dos seus próprios demônios. Por que não? Assim, num dia desses, num desses encontros casuais...

Talvez a gente se encontre, talvez a gente encontre explicação / num desses encontros casuais – na parte final do romance, depois de um ano na prisão Raskólhnikov revela que o seu orgulho estava muito abatido e caiu doente deste orgulho exasperado. Ele faz uma autoavaliação do seu estado de condenado e estima a sua perspectiva de futuro [2]:

[...] sentia sobretudo vergonha de que ele, Raskólhnikov, inábil e absurdamente, devido a uma sentença do destino cego, se visse obrigado a conformar-se e inclinar-se perante o absurdo dessa sentença, se, de qualquer maneira, desejava estar tranquilo. Uma inquietação sem objetivo nem finalidade, no presente e no futuro, apenas um ininterrupto sacrifício que a nada conduziria... eis o que lhe restava no mundo. E que importava que dentro de oito anos ele tivesse apenas trinta e dois anos e pudesse de novo começar a sua vida? Para que viver? A que aspirar? Para que esforçar-se? Viver só para viver? Mas mil vezes antes já ele tinha estado disposto a dar a sua vida por uma idéia, por uma ilusão, até por um sonho. A simples existência sempre tinha significado pouco para ele; sempre aspirara a mais. Talvez só pela força do seu desejo chegara a sentir-se então um homem ao qual era permitido mais do que aos outros. (p.581)

Curiosidade – Crime e Castigo inspirou o enredo de alguns filmes, mas destacamos os dois mais recentes: Crime e Castigo (2002) de Julian Jarrold e o filme brasileiro Nina (2004) de Heitor Dhalia.


Referências:

[1] https://felipepimenta.com/2013/06/01/resenha-de-crime-e-castigo-de-dostoievski/
[2] DOSTOIEVSKI, F. M. Crime e Castigo. Editora Martin Claret. 1866. Digitalização de 2004. Disponível em http://bibliotecadigital.puc-campinas.edu.br/services/e-books/Fiodor%20Dostoievski-1.pdf
[6] GESSINGER, H. Pra Ser Sincero. Editora Belas Letras. 2009. Disponível em https://drive.google.com/file/d/0B5JC8HIcwjbqNk1oSGF1Wi16Q2M/view

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