EXTRAINDO SIGNIFICADOS: DE QUEM É A CULPA? - MARÍLIA MENDONÇA/CRISTIANO ARAÚJO


A música “De quem é a culpa?” é a sétima faixa do segundo álbum ao vivo da cantora e compositora goiana Marília Mendonça. O álbum chama-se “Realidade - ao vivo em Manaus” e foi lançado no ano de 2017.

A composição da letra foi feita por Marília Mendonça e Julio Tchula e foi primeiramente gravada pelo também cantor e compositor goiano Cristiano Araújo, mas não pôde ser lançada, uma vez que ele veio a falecer em 2015.

Marília Mendonça ficou famosa por ser uma das principais artistas a abrir espaço para a fama das mulheres no universo do sertanejo universitário, ritmo que mescla o sertanejo tradicional, ou caipira, com batidas vindas de ritmos como o brega e o arrocha.

Suas letras retratam situações comuns do cotidiano de qualquer pessoa, como traição, problemas conjugais, amor não correspondido, paixões novas e antigas, dentre outras temáticas passionais. No entanto, na maioria das músicas Marília Mendonça busca mostrar a figura feminina, normalmente uma mulher independente, empoderada e que se desprendeu do conservadorismo e do patriarcado para viver sua vida como bem entender.

Para um universo musical tão machista e homofóbico como o do sertanejo (goste você ou não, é a verdade), as composições e postura de Marília Mendonça vieram para mostrar que as mulheres “recatadas e do lar” não são mais a grande referência feminina.

Obs. 00: Eu sou um fã do sertanejo, seja ele o tradicional caipira ou o universitário (sem generalizar). Tenho consciência do quanto é um ritmo onde o machismo e a homofobia são claramente visíveis. Como exemplo, deixo aqui três músicas bastantes conhecidas da velha e nova geração do sertanejo, elas podem sustentar a minha afirmação.

Bruto rústico e sistemático - João Carreiro e Capataz
Pagode - Tião Carreiro e Pardinho
Tô indo embora 
- Rio Negro e Solimões

Ok! Fizemos um resumão sobre o trabalho da Marília Mendonça, mas agora vamos para a letra específica “De quem é a culpa?”.

De maneira geral, eu diria que a letra da música está trazendo uma reflexão acerca de um término de relação que está atormentando emocionalmente uma pessoa. No entanto, o sofrimento é retratado de uma forma exagerada, trazendo concepções que se assemelham a uma postura do niilismo existencial. A protagonista disserta como se a vida não possuísse sentido, propósito existencial ou valor emocional.

Exagerado sim. Sou mais você que eu. Sobrevivo de olhares e alguns abraços que me deu

Logo de início fica claro o tormento emocional que esta pessoa está enfrentando. O pós-término de forma alguma foi algo feliz para ela.

O sentimento para com alguém que ela possivelmente ama ainda é tão intenso (sou mais você que eu), que esta pessoa não aceita o fim da relação, passando a viver de expectativas sobre uma volta, e principalmente de lembranças dos momentos marcantes ao lado do seu amor (sobrevivo de olhares e alguns abraços que me deu).

Obs. 01: Nossas vontades, nossos desejos e sonhos são aquilo que nos motivam a viver. O que acontece quando trabalhamos arduamente, mas não conseguimos realizar o desejo que tanto almejávamos? A resposta: Frustração! Parece óbvio, mas em momentos de profunda dor muitas pessoas são incapazes de entender a normalidade dessas emoções.

Obs. 02: Quem explica isso? O filósofo alemão Arthur Schopenhauer! Para ele, a essência da vida poderia ser encontrada na dor. Buscamos encontrar a tão sonhada felicidade, saciar todos os nossos desejos, que por sua vez são objetivos utópicos, que acabam por nos tornar colecionadores de frustrações. [leia mais aqui]

Obs. 03: Não chego a ser nenhuma minúscula poeirinha perto de Schopenhauer, mas já me atrevi a falar sobre isto no segundo texto mais antigo do blog. Leia aqui ó: Felicidade Plena

E o que vai ser de mim? E meu assunto que não muda. Minha cabeça não ajuda, loucura, tortura

Aqui retomamos a falta de propósito de vida (e o que vai ser de mim?). A personagem está inteiramente presa a relação e não há maneiras de ela fingir isto (minha cabeça não ajuda, loucura, tortura). Quando ela diz: “e meu assunto que não muda”, imagine as indiretas nas redes sociais, os textinhos nos diários secretos, os diálogos rotineiros com os amigos confidentes...

E que se dane a minha postura. Se eu mudei você não viu. Eu só queria ter você por perto, mas você sumiu, é tipo um vício que não tem mais cura

Claramente a personagem não está agindo conscientemente. Afirmo isso ao imaginar que as suas atitudes estão sendo tomadas de maneira impensada (e que se dane a minha postura). Esta pessoa abdicou do seu próprio jeito de ser para alimentar uma paixão.

Mudou seus hábitos para se aproximar do ideal de amor que alguém a propôs, mas de nada adiantou (se eu mudei você não viu). Foi desprezada e ignorada, mas já era tarde demais para se desprender do que ela se acostumou a ter (é tipo um vício que não tem mais cura).

Obs. 04: Uma das primeiras reflexões que escrevi em um papel (Lá pra 2008, na época em que eu ainda sobrevivia de álbuns do Nickelback e do James Blunt) pode explicar isto de maneira direta:

“O amor é uma excentricidade entorpecente que vicia os nossos corações. E uma overdose dela pode nos destruir. Porém, um viciado nunca esquece a necessidade”. - Djane Assunção

E agora de quem é a culpa? A culpa é sua por ter esse sorriso. Ou a culpa é minha por me apaixonar por ele? Só isso

Aqui fica claro uma coisa: a personagem não consegue se referir de forma negativa a seu interlocutor. Digo isto pelo fato de que mesmo magoada, ela não sente rancor. Veja que ela o culpa, mas por ser atraente para ela (a culpa é sua por ter esse sorriso). O sentimento dela por ele é tão forte que nem mesmo consegue criticá-lo. Pelo contrário, se culpa por ter sido humana, por ter se permitido apaixonar-se (ou a culpa é minha por me apaixonar por ele? Só isso).

Obs. 05: Aqui percebemos que a personagem sente falta do conforto e da segurança proporcionada pelo relacionamento. Sim, podemos imaginar a figura de alguém inseguro e que neste momento precisa de estabilidade emocional. (isto está ainda mais óbvio no trecho: “eu só queria ter você por perto”).

Não finja que eu não estou falando com você. Eu tô parado no meio da rua. Eu tô entrando no meio dos carros. Sem você a vida não continua

Eu já achava esta pessoa exagerada, aqui isso extrapola o romantismo! (sem você a vida não continua). O que até então ainda parecia algo inerente a natureza humana aqui já passa para um nível de risco comportamental (eu tô parado no meio da rua. Eu tô entrando no meio dos carros).

Analisando a ação da personagem, e o tempo verbal usado (estou falando), suponhamos que ela está em conversa ao celular com a pessoa que “canonizou”. Passamos a imaginar isto também por conta do ambiente físico que a letra propõe (meio da rua, entre os carros).

Não finja que eu não estou falando com você. Ninguém entende o que estou passando. Quem é você que eu não conheço mais

Nesta parte, a personagem, traz à tona o modelo comportamental das gerações atuais. Hoje as pessoas se apegam muito fácil umas às outras, no entanto, também desapegam de maneira ainda mais rápida. As pessoas estão tratando o amor como algo descartável, se apaixonam pelo ideal que criam de alguém, mas esquecem que o ser humano tem uma essência própria, mutável e inconstante (quem é você que eu não conheço mais).

Obs. 06: Como diria o sociólogo polonês Zygmunt Buman, há uma procura por afetividade, entretanto, as pessoas não estão conseguindo manter relações duradouras, seja por medo ou insegurança. São criados laços frágeis, como um vaso de cristal que na primeira queda é destruído e sem chances de reconstrução.

Trazendo diretamente para a letra da música seria algo como: “As relações terminam tão rápido quanto começam, as pessoas pensam terminar com um problema cortando seus vínculos, mas o que fazem mesmo é criar problemas em cima de problemas”. [texto disponível aqui].

Me apaixonei pelo que eu inventei de você

A personagem se apaixonou pelo ideal de liberdade que encontrou ao lado do seu parceiro amoroso. Não necessariamente por ele!

(Ficou confuso né? Pois bem, que tal melhorar? (ou piorar haha)

Obs. 07: Quem nos explica isto é Platão e o seu “mundo das ideias” [leia mais aqui]. Para o filósofo grego, o amor é um sentimento livre de paixões, pois estas seriam impuras e corromperiam o ser.  É daí que vem o termo “amor platônico”, onde um ser se interessa mais pela virtude do outro do que pela sua própria condição física, material.

Sendo assim, trazendo para o contexto da canção, a personagem se apaixonou pela perfeição que criou do amor, esse que por sua vez só existia na cabeça dela, alimentado pela carência e pela estabilidade de estar ao lado de alguém. Quando se deparou com a rejeição, o choque de realidade, sua frustração a consumiu.

Ok, mas e agora? De quem é a culpa? 💁

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Comentários

  1. Muito pertinente sua análise! Gostei da maneira com a qual explica o "ser apaixonado" buscando dentro da filosofia, buscando dizer que "não é tão novo assim" esse tipo de atitude. Muito bom trabalho!

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    Respostas
    1. Obrigado Amicar. Embora muitos vejam a letra de maneira banalizada, eu gosto de tentar ver além. Hoje banalizaram o amor, a paixão, mas eu ainda vejo como sentimentos profundos e bem complexos. Grande abraço!

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