PINTURA NEGRA


Nascemos completamente despidos, surgimos no mundo como um quadro em branco preste a ser rabiscado. Uma marca aqui, um pontinho ali e assim a vida vai nos desenhando. Somos uma aquarela de emoções espalhadas sobre um conjunto de linhas traçadas por escolhas.

Há quem prefira tons mais claros, outros preferem os escuros. Uns optam por enxergar o mundo como um quadro matinal, onde reina a vigorosa luz do sol. Alguns são alimentados pelo esplendor do negro das noites mais escuras.

- Renoir que me perdoe, mas o preto é tão lindo e agradável como qualquer outro tom!

[...]

Um padrão caótico instaurado sob uma beleza singular. Eu definiria ela assim, como uma mulher que nunca se repete: dinâmica; complexa; adaptativa. Ela é um caos no meio de um mundo saturado de mesmice.

Vaidosa de corpo e alma, não tem medo de exibir seus traços, de expor uma beleza marcada por um contexto de lutas. Ela gosta de ser reconhecida pelo que verdadeiramente é, pela herança que lhe foi esplendidamente concedida. Orgulho nem sempre é pecado, às vezes é dádiva.

Por vezes se mostra receosa em mergulhar nos íntimos alheios, mas longe de ser medo, é apenas cautela de quem pela dor já foi transvestida. O amor a vestiu com elegância, deu-lhe um par de asas cortadas e a obrigou a voar.

Uma mulher que aprendeu a ser livre, que deixou de enxergar o céu como uma promessa, e sim fazer do chão que a sustenta o seu próprio paraíso. Ela nasceu para sorrir, para usufruir do livre arbítrio dado por Deus.

Para ela, se a vida for mesmo óleo sobre tela, Deus é o grande pintor responsável pelas obras. Sua cosmovisão entende que a realidade só é acessível se tivermos nossas próprias visões sobre ela. Deus não é imposição, e sim aceitação.

É sedutora como uma manhã de domingo, misteriosa como pontos de colisão entre universos. “Na noite mais escura seu sorriso é como uma luz, sombras derretem e esplendor vem à vista”

[...]

Todo ser humano é uma obra de arte que merece admiração, mas em um mundo viciado em cultuar exclusivos padrões, fica cada vez mais difícil reconhecer a verdadeira beleza do outro.

Dizem por aí que em uma manhã qualquer de Belle Époque já não havia mais preto, e assim se constituiu o nascer do sol.

- Renoir deveria ter conhecido esta mulher!

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