CARTA À CRIATIVIDADE [RESPOSTA]


Companheiro Djane,

[D]igo-lhe que recebi sua carta e li atentamente cada frase encaixada no anagrama transversal feito com o meu nome. Confesso que em um primeiro momento fiquei surpresa ao saber que sente minha falta. Não foi você que durante o último mês me disse insistentemente que estava atarefado demais para poder me ceder sua companhia? Você sabe muito bem que não sou do tipo que gosta de dividir atenção.

[J]á não sou aquela mesma que me doava facilmente aos seus súbitos desejos de criança. Você ficou mais velho, começou a se preocupar demais com o futuro e me descanteou para debaixo dos seus livros do Humberto Gessinger. Aqueles que foram presentes, e que assim como eu, você passou a deixar por dias empoeirados sobre a escrivaninha.

[A]s vezes me pergunto por que você se preocupa tanto com trabalhos de faculdade? Por que resultados de jogos de futebol te alteram tanto? Não posso ser útil se você não para um só segundo para me sentir. Diz que me vê em todos os lugares, mas basta soar batidas na porta de casa que você me esquece a tarde toda. Tem dias que só vai lembrar de mim na manhã seguinte, quando acorda exausto para o trabalho.

[N]unca pedi para ser totalmente o centro das atenções, mas um pouco mais de sossego seria bastante agradável. Precisamos de um tempo a sós com uma luz amena e uma boa música. Pode ser Capital inicial mesmo, mas que você escute o álbum inteiro ao meu lado. Odeio quando pega o celular e passa horas em redes sociais perdendo a noção de tempo e transmutando entre músicas de Marilia Mendonça ou vídeos do Felipe Neto. Não aceito mais esse tipo de atitude! Ou você muda seus hábitos ou terei que me afastar cada vez mais. Ora! Abraça-me ou me deixa partir, é simples de entender.  

[E]u sei que o meu tom soa desagradável, mas chega um momento que é preciso ser ríspida, uma vez que só assim para você me entender. Eu estou aberta ao diálogo. Todavia, não consigo entender como alguém que acorda 3 da manhã para organizar a casa, sequer consegue organizar a mente nos dias de chuva. A se você me tratasse como cuida da sua coleção de cartinhas de amor. Por fim, digo que estou à sua espera, no entanto, que venha para sentir meu íntimo, não para sufocar a dor de ser mortal.  

Atenciosamente, Criatividade.

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