EU MATEI UM ANJO


Por: Djane Assunção - @mestre_djane

Ele tinha olhos grandes, cintura fininha e cabelos negros. A sua face arredondada era tão suave quanto deveriam ser as nuvens de onde ele caiu. Queda que o fez criar morada no meu peito. Nos apaixonamos, mas ele insistia em voltar para o céu e queria me levar junto.

Era um anjo feito de sonhos, talvez enviado para me dar esperança. Eu nunca fui de confiar muito em Deus, então não seria coincidência ele cair justamente no meu quintal.

Era meu anjo e o matei. Cortei suas belas asas e as transformei em troféu. As mesmas asas que por vezes me convidaram para perto de Deus, para fazer morada no éden. Eu até pensei em largar tudo e ir com o anjo, mas isso significava negar o pecador que aprendi a gostar de ser.

O matei porque precisava. Porque ele queria me tornar um anjo também. Eu tive medo de ser anjo, de abdicar de ser humano. Ao seu lado eu estava caminhando para um estado de anedonia.

Eu sei que amava esse anjo, mas o matei. Enterrei seus restos no meu coração. O que acontece com a alma de um anjo?

Queria o anjo ao meu lado, mas não no céu. Ele também me queria, mas somente como sua semelhança. Não daríamos certo, eu não nasci para ver Deus. Éramos como céu e inferno, existindo apenas porque são distintos, sabendo que suas diferenças os tornam dependentes um do outro para se manterem reais.

Virei uma pessoa cheia de remorso e às vezes choro em silêncio no banheiro. Matar o anjo era necessário, mas não resgatou meu prazer. Deus não deveria jogar anjos no quintal dos outros. Ele não tem o direito de fazer isso.

Sugiro a Deus não me mandar mais anjos. Acabarei os matando e destruindo a oportunidade de outra pessoa ser salva. Eu não quero salvação. Quero ser humano, susceptível a delírios e abraçar a morte sem medo de dizer que a esperava.

Eu matei um anjo...

Música sugerida para este texto: Um anjo do céu – Maskavo

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