DESGESSINGERIANDO: REALIDADE VIRTUAL - ENGENHEIROS DO HAWAII


“Realidade Virtual” é a 12º e última faixa do álbum “Filmes de Guerra, Canções de Amor”, lançado no ano de 1993 pelos Engenheiros do Hawaii. Foi o sétimo e último álbum a ser gravado pela formação clássica da banda: Humberto Gessinger, Augusto Licks e Carlos Maltz.

É preciso fé cega e pé atrás

Para muitas pessoas, o sentimento de fé em determinada religião é tão intenso que se torna irracional. Adotam para si uma crença e aceitam seus dogmas sem haver questionamentos, mesmo que entrem em choque com a razão e a lógica (fé cega). Esses mesmos indivíduos são tão fiéis aos dogmas que os norteiam, que passam a ignorar qualquer outro tipo de conhecimento que discorde do que professa sua fé (pé atrás).

Obs. 01: Pé atrás -  expressão que significa desconfiar, não ter confiança em alguém ou alguma situação que possa acontecer.

Olho vivo, faro fino e… tanto faz…

Muitas pessoas criam uma realidade baseada em determinada crença, a sobrepondo como verdade ao que realmente é de fato. Uma fé que pode ser comparada ao conceito de realidade virtual.

Obs. 02: Realidade Virtual é uma tecnologia de interface capaz de enganar os sentidos de um usuário, por meio de um ambiente virtual, criado a partir de um sistema computacional. Ao induzir efeitos visuais, sonoros e até táteis, a realidade virtual permite a imersão completa em um ambiente simulado, com ou sem interação do usuário. (Leia mais aqui).

Ao usar a expressão “olho vivo, faro fino... tanto faz”, a letra da música passa a ideia de que é preciso estar atento a esse tipo de comportamento, dessa aceitação irrefutável. O compositor traz essa lógica de pensamento para explicar a maneira como o conhecimento é mutável e vai se renovando a cada nova descoberta.

Obs. 03: Olho-vivo e faro fino - significa estar atento, olhar com atenção, observação, significação e expressão. Perceber detalhes fora do comum.

Obs. 04: Deixo que o próprio Humberto Gessinger explique esse raciocínio através de um trecho da página 131 do seu livro: Nas Entrelinhas do horizonte (2012).
É preciso saber de tudo e esquecer de tudo: fé cega e pé atrás

Quem tem “fé cega” acredita em um conhecimento inquestionável através de sua crença (é preciso saber de tudo). Todo o conhecimento que for contrário aos preceitos de uma crença absoluta deve ser desprezado, ignorado, esquecido (e esquecer de tudo). Ou seja, “fé cega e pé atrás”.

Tá legal, eu desisto: tudo já foi visto. Olhos atentos a qualquer momento: é preciso acreditar. Tudo bem, eu acredito: tudo já foi dito. Olhos atentos a todo movimento: é preciso duvidar

É como o Humberto falou no trecho que citei acima, as religiões são indiscutíveis por se basearem na fé e em dogmas. Não há debates lógicos se tratando de um ceticismo religioso onde tudo pode ser explicado por meio da ótica do fanatismo (é preciso acreditar).

Entretanto, quando se trata de sistemas para explicar o mundo, concepções baseadas em análises, observações e compreensões científicas, há sempre o que discutir. O conhecimento não é estático se tratando de ciência (é preciso duvidar). Ter olhos bem atentos (olho vivo e faro fino).

Obs. 05: Deixa o Humberto explicar direitinho, como nesse trecho das páginas 23-24, também do livro: Nas Entrelinhas do Horizonte (2012).

Obs. 06: Geralmente o método científico engloba algumas etapas como: a observação, a formulação de uma hipótese, a experimentação, a interpretação dos resultados e, por fim, a conclusão. Algumas áreas da ciência, como a física quântica, por exemplo, baseiam-se quase sempre em teorias que se apoiam apenas na conclusão lógica a partir de outras teorias e alguns poucos experimentos, simplesmente pela impossibilidade tecnológica de se realizar a comprovação empírica de algumas hipóteses. (Leia mais aqui).

Viver não é preciso e nem sempre faz sentido. É preciso muito mais fé cega e pé atrás

Para aqueles que põem sua crença acima de qualquer coisa, por vezes o viver pode parecer meramente instrumental. Ou seja, estar vivo apenas por um propósito “divino”, que embora aparente não ter sentido, é indiscutível para o seguidor de determinada conduta ideológica/religiosa.

Obs. 07: Para exemplificar, peguemos o exemplo de alguns homens-bomba, suicidas motivados pelos preceitos de uma religião. Para a maioria dessas pessoas, a vida é algo passageiro. O futuro é incerto, e talvez a melhor maneira de o prever seja criando concepções baseadas em algo que traga conforto mental e espiritual. 

Contudo, viver não se resume apenas a seguir um ideal religioso e morrer por ele. Ás vezes é preciso mais do que fé cega e pé atrás. 

Usando o mesmo exemplo acima, destacamos que especialistas dizem que a maioria dos homens-bomba buscam realizar um grande ato que possa compensar a falta de habilidade social, não sendo motivados exclusivamente por sua religião. (Leia mais aqui).

A neblina encobre o cristo e a lagoa se ilumina com edifícios de cabeça pra baixo e refletores do Jockey Club

Essa parte da letra é extremamente interessante. Aqui, o Humberto passa a descrever alguns elementos da paisagem a sua volta. Os lugares relatados ficam localizados na Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, local onde o Humberto foi morar no finzinho de 1988, mais especificamente no bairro de Copacabana.


Obs. 08: Segundo o próprio compositor, esse trecho não tem um significado metafórico como a maioria das pessoas imaginam. Veja o que ele diz na página 224 do seu livro: Pra Ser Sincero - 123 variações sobre um mesmo tema (2009).


Na outra janela o sol sempre brilha. O risco é calculado: videoguerra, vídeoreinodoscéus

Como o próprio compositor denunciou, na observação feita na análise do trecho anterior, a “outra janela” é a televisão. Não precisa muita explicação, pois como ele mesmo cita: “a TV com suas guerras por controle remoto e tele-evangelhistas”.

Obs. 09: “o sol sempre brilha” está se referindo a realidade que se cria a partir da adoração a uma ideologia religiosa, onde o conhecimento é algo incontestável. Já “o risco é calculado”, quer dizer que quando se tem a concepção religiosa como base, não há com o que se preocupar, pois tudo está sob o controle de um conhecimento pré-determinado.

Nessa parte, a letra também está falando dos inúmeros canais religiosos que pregam conceitos religiosos diariamente através das emissoras de Televisão. Liderados por tele-evangelhistas populares e eloquentes, a mensagem transmitida aos espectadores é quase sempre ultraconservadora, pois alerta os fiéis para os inúmeros “perigos” que a sociedade moderna possivelmente traz para a alma do crente.

É preciso saber de tudo e não pensar em nada. Fé cega e pé atrás

Os programas sobre religião costumam ter muita popularidade, atingindo aquelas pessoas que buscam por respostas prontas para problemas cotidianos, como já falei anteriormente: conforto mental e espiritual. A nossa ‘fé cega de cada dia”.

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