EXTRAINDO SIGNIFICADOS: ATRÁS DA PORTA - CHICO BUARQUE/ELIS REGINA


“Atrás da Porta” é uma canção de 1972, que teve sua letra escrita pelo músico carioca Francisco Buarque de Hollanda, mais conhecido por Chico Buarque.

A música tem a interpretação da cantora gaúcha Elis Regina Carvalho Costa, ou simplesmente, Elis Regina. “Atrás da Porta” é a oitava faixa do álbum “Elis”, lançado no ano de 1972.

De maneira geral, a letra fala do rompimento de uma relação amorosa, sendo descrita na perspectiva de um eu lírico do sexo feminino. Baseia-se a partir do ponto de vista da mulher amargurada, que ama desesperadamente um homem, mas que também sente rancor e dor.

Obs. 01: O título "Atrás da porta" ressalta a forma complexa e negativa que se deu o fim do relacionamento entre os amantes. A porta é entendida como uma barreira que se instalou entre os dois lados, separando-os um do outro.

Obs. 02: O compositor cria a letra usando uma voz feminina, e ao se posicionar dessa maneira, ele consegue revelar os desejos e insatisfações da condição de ser mulher.

Quando olhaste bem nos olhos meus e o teu olhar era de adeus

Essa primeira parte retrata o momento em que a mulher cria consciência do fim do relacionamento com o homem que tanto ama.

Podemos entender que esse casal se conhece bem, dividem um grau de intimidade relevante. Também fica subtendido que a mulher, em apenas olhar a face de seu amado é capaz de entender a condição que se desenvolve as ações presentes no contexto da música. Ele não precisou pronunciar nenhuma palavra que indicasse um término, mas mesmo assim, ela foi capaz de ler a situação. São interlocutores que trazem consigo um relacionamento de longa data, de vivência.

Juro que não acreditei, eu te estranhei, me debrucei sobre teu corpo e duvidei

Primeiro, o eu lírico diz que não acreditou ao entender que ele quer deixá-la. Depois ela estranha esse desejo dele, e isso se dá pelo fato de que ela não esperava tal atitude. Ela ainda o ama intensamente, e é aí que se baseia a próxima ação, que é o “me debrucei sobre seu corpo”. Fica nítido que ela não quer o término da relação.

Obs. 03: Nessa parte, existe o uso do mesmo timbre vocálico em palavras distintas, no caso, a assonância causada pela terminação "ei", que reforça a ideia de um fato ocorrido num momento anterior ao atual e que foi totalmente terminado.

E me arrastei, e te arranhei e me agarrei nos teus cabelos

Aqui, a assonância continua, e o trecho mostra de maneira bem clara ações realizadas de maneira desesperada pela mulher, que tenta a todo o custo fazer com que o homem que ama mude de ideia, ou seja, não termine com ela.

Notamos que o eu lírico mostra-se descontrolada, e agindo por impulsos que são provocados pelo seu frágil estado emocional.

Obs. 04: Perceba também que há uma repetição da letra “R”, o que passa a sensação sonora de humilhação, submissão ao descontrole.

Nos teus pelos, teu pijama, nos teus pés ao pé da cama

Nessa parte, continuamos vendo ações que mostram uma mulher obsessiva, que leva o sentimento do amor a um estado emocional que beira o extremo, que a condiciona a realizar atitudes impulsivas.

Obs. 05: Perceba que agora, nesse trecho, existe a repetição da letra “P”, para ressaltar os fatos, dando maior dramaticidade e consistência.

Obs. 06: A composição desse trecho utiliza de uma metáfora chamada Catacrese, que costuma ocorrer quando, por falta de um termo específico para designar um conceito, toma-se outro "emprestado". Assim, passamos a empregar algumas palavras fora de seu sentido original.

Nesse caso: “nos teus pés ao pé da cama”

Obs. 07: A letra original da música utiliza a expressão “nos teus pelos”. Porém, na época, a censura substituiu “pelos” por “peito”. Sendo assim, é possível que você encontre a música sendo cantada de duas maneiras.

Sem carinho, sem coberta. No tapete atrás da porta. Reclamei baixinho

Aqui, destaca-se uma atmosfera vastamente nostálgica. A mulher mostra-se cada vez mais subordinada ao amor doentio que sente. A ação de estar “no tapete atrás da porta”, traz consigo a impressão de rebaixamento. O tapete é um objeto utilizado para se limpar os pés, e ela está sobre ele arrasada, reclamando baixinho as suas dores. Note que ela está atrás da porta, o que reforça a ideia de divisão que traz o título da canção.

Dei pra maldizer o nosso lar, pra sujar teu nome, te humilhar

Nessa parte, o eu lírico demonstra rancor, seu sentimento de impotência é substituído pela negação, pela agressividade que a consome. Esse trecho traz um processo natural de alguém que se sente abandonada, pois, denota a revolta e o desejo de vingança por perceber que foi enganada e desprezada.

E me vingar a qualquer preço, te adorando pelo avesso

Nesse trecho, podemos notar uma personagem confusa, que teve seu amor descaracterizado, desmontado. “te adorando pelo avesso” ressalta a sensação de submissão por parte da mulher, uma vez que, mesmo rejeitada, ela diz que continua o querendo. Amando ele, mesmo quando era para sentir apenas repúdio, ódio de alguém que se mostrou inesperadamente ser outra pessoa. Como se ele tivesse virado do avesso, trouxesse à tona outra face do seu ser.

Pra mostrar que inda sou tua, só pra provar que inda sou tua

Por fim, a personagem traz uma contradição, pois, ao pensar na vingança, em maldizer e denegrir o nome do seu amado, ela tem em mente apenas um objetivo: mostrar para esse sujeito que mesmo que esteja visivelmente arrasada, ainda o ama loucamente.

Obs. 08: “inda” significa o mesmo que “ainda” na língua portuguesa, contudo, comumente usado em poesias.

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4 comentários:

  1. Acredito que a música narra os últimos suspiros de uma relação e, como disse, a negação de uma das partes. Minha interpretação, no entanto, difere a partir da estrofe "Nos teus pelos, teu pijama, nos teus pés ao pé da cama". Creio, que em um ato de desespero para que a pessoa amada não vá, o eu lírico se entrega a seu amante, no intuito de aquietar o sentimento que motivou o abandono.
    Isso para mim fica ainda mais claro quando é dito "Dei pra maldizer o nosso lar, pra sujar teu nome, te humilhar". Isso explicita a complexidade dessa transa, ao mesmo tempo uma despedida, a vingança alada de uma pessoa abandonada, usando do sexo como arma.
    O trecho "E me vingar a qualquer preço, te adorando pelo avesso" também expressa, fortemente, a natureza dúbia deste momemo de intimidade quase clandestino. A dualidade permeia toda a ação, pois o ato ocorreu no chão, friamente, sem carinho - contrapondo o início de uma relação, onde a transe ocorre nos lugares mais inesperados, porém embebedada de paixão, tesão - assemelhando a algo feito por obrigação, de praxe, porém, ao mesmo tempo, faz-se constar que ainda há algum carinho, mesmo que remoto, alguma consideração.
    Por fim, a estrofe fatídica "Pra mostrar que inda sou tua, só pra provar que inda sou tua" que, ao meu ver, denuncia o propósito da transa que, como disse no inicio, é um ato desesperado para ressuscitar com unhas e dentes uma relação.

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    1. ótima visão. Parabéns pela contextualização, é outra visão muito interessante!

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    2. Interessante sua interpretação.

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    3. Obrigado Saturno. Todo feedback é válido.

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