DESGESSINGERIANDO: ANDO SÓ - ENGENHEIROS DO HAWAII


“Ando Só” é a quinta faixa do álbum “Várias Variáveis”, da banda gaúcha Engenheiros do Hawaii, lançado no ano de 1991. Nessa época a banda ainda possuía a clássica formação (considerada por muitos como a melhor), com Humberto Gessinger na voz, baixo e piano, Augusto Licks na guitarra e violão e Carlos Maltz com a percussão.

De forma geral, “Ando Só” trata da maneira como vivem os indivíduos solitários, que andam confusos com seu viver e que não conseguem manter laços de amor duradouros com um parceiro.

Obs. 01: A canção foi baseada na obra literária “Pergunte ao pó” (ask the dust), de 1939, do escritor americano John Fante. O livro é considerado uma obra-prima, marcada pelo prazer e emoção de estar vivo.

Obs. 02: “Pergunte ao pó” conta a história de Arturo Bandini, um escritor descendente de italianos recém-chegado a cidade americana de Los Angeles. Em meio a sua tentativa de realizar seus sonhos, ele sente-se excluído e solitário no novo país. Arturo Bandini é um jovem emocional, sensível, que em muitas vezes se mostra imaturo. Ele ama Camila Lopez, uma descendente de mexicanos, mas esta, por sua vez, é apaixonada por Sammy, um personagem que a despreza. (leia o livro inteiro aqui).

Obs. 03: No começo da canção pode-se escutar perfeitamente o som de um motor de carro, o barulho da rua e uma voz feminina pronunciando a seguinte frase: “driver, follow that car!” (motorista, siga aquele carro!). No final, escuta-se a moça dizendo a mesma frase e o som dos pneus e do motor do automóvel indicando que ele está partindo.

Ando só, pois só eu sei, pra onde ir, por onde andei. Ando só, nem sei por que, não me pergunte o que eu não sei

A letra começa com o eu lírico exaltando o seu sentimento de segurança, de certeza perante as escolhas que fez. Podemos perceber que implicitamente ele está dizendo que os seus objetivos são definidos (pois só eu sei, pra onde ir) e que ele não vai mudá-los para satisfazer o desejo de alguém que não o compreende. Ele mostra-se magoado perante a situação, pelo sofrimento emocional que o aflige (por onde andei).

Entretanto, mesmo acreditando fielmente que vai conseguir o que deseja, é nítido que ele se sente vazio e desiludido com a forma que se dão suas relações cotidianas, principalmente as amorosas (ando só, nem sei por que). Ele mostra-se um homem de frágil autoestima, muito consciente de suas fraquezas, porém é um sujeito nitidamente susceptível aos excessos de suas emoções (não me pergunte o que eu não sei).

Obs. 04: O protagonista de “Pergunte ao pó” compartilha das mesmas características que são retratadas nessa primeira parte da canção. Arturo Bandini é um sujeito muito imaturo. Sua vida parece estar totalmente confusa e incerta, ele sente que está perdido e não sabe em qual direção seguir. Entretanto, Bandini age como uma pessoa pretensiosa, e arrogante. É um personagem que vive em extremos.

Pergunte ao pó, desça ao porão

Acredito que nessa parte, quando o eu lírico fala “pergunte ao pó”, ele está se referindo diretamente para as pessoas que não conseguem compreendê-lo. Podemos imaginar que possivelmente, ele se dirige em especial para alguém que ele mantinha um relacionamento amoroso, e que esse caso chegou ao fim por algum motivo. É como se ele dissesse que pra entender sua vida, é preciso buscar nos mínimos detalhes cada situação vivida ao seu lado. Que sua possível parceira puxe as lembranças lá do fundo do baú, coisas do passado, empoeiradas (desça ao porão).

Obs. 05: Nas minhas pesquisas pela web, cheguei a um documento em formato PDF que trazia um chat com o músico Humberto Gessinger e seus fãs, realizado no ano de 2001, uma conversa proporcionada pelo site oficial dos Engenheiros do Hawaii na época. (clique aqui pra ter acesso ao documento).

No chat, uma fã perguntou:

“O que vc perguntou ao pó... Na musica Ando só?”.

O Humberto enigmático responde:

- Talvez perguntar ao pó seja chegar tarde... Alguém leu o livro? É muito bom.

Obs. 06: “Pergunte ao pó” se passa principalmente no bairro de Bunker Hill em Los Angeles, no Estado da Califórnia. A cidade recebe ventos que trazem consigo a poeira do deserto do Mojave, que é a parte mais elevada do Deserto da Califórnia. Talvez venha daí a origem do título do livro de Fante: “Pergunte ao pó”.

Siga aquele carro ou as pegadas que eu deixei

Lembra-se dos sons que eu falei que é possível ouvir no início e no final da canção? Pois bem, é aqui que eles se mostram importantes para a nossa compreensão. 

Nessa parte, o eu lírico diz que está partindo, ficou cansado de remoer tantos problemas e contradições amorosas. Podemos supor que é como se ele dissesse pra sua ex-parceira, que se ela pensa em conversar com ele, que vá a sua procura.

Pergunte ao pó, por onde andei, há um mapa dos meus passos nos pedaços que eu deixei

Nesse trecho, ele continua demonstrando seu sentimento de insatisfação com a situação. Como o eu lírico é um sujeito sentimental, ele está ferido emocionalmente, e deixa claro que quem quiser entendê-lo, somente encontrará as respostas para suas dúvidas, quando conseguir perceber a necessidade que ele tinha de ser notado, de ser compreendido, de ser verdadeiramente amado (há um mapa dos meus passos nos pedaços que eu deixei).

Desate o nó que te prendeu a uma pessoa que nunca te mereceu

Aqui, podemos pensar que o eu lírico fala de forma sincera, porém sarcástica para sua possível interlocutora. É como se ele quisesse dizer que se ela não foi capaz de se entregar totalmente ao romance, que esqueça que esse caso existiu. O eu lírico entende que seguir sozinho será melhor para ele, uma vez que sua concepção não dá pra viver um relacionamento em que apenas uma parte se entrega totalmente.

Obs. 07: No livro “Pergunte ao pó”, Bandini entra em uma cafeteria de Los Angeles, onde conhece e se apaixona por Camilla Lopez. Bandini não aceita estar apaixonado por uma simples garçonete mexicana - ele próprio carrega certos problemas por ter origem italiana. A relação de amor e ódio é uma das frustrações de Bandini já que, apesar de amá-la, a moça ama outro homem. (trecho baseado nessa resenha).

Desate o nó que nos uniu, num desatino, um desafio

Possivelmente, o relacionamento entre o eu lírico e sua parceira já estava destinado ao fracasso, e não somente pelo fato de que não existia um equilíbrio de sentimentos entre eles, mas também porque talvez tenha sido algo construído apressadamente. Assumiram rapidamente um caso sem estarem devidamente seguros do que ambos sentiam (desate o nó que nos uniu). Aceitaram rapidamente, e sem preponderar com bom senso, os desafios do amor (num desatino, um desafio).

Ando só, como um pássaro voando, ando só como se voasse em bando

Nesse trecho, o eu lírico utiliza-se de uma analogia pra explicar como se sente. Ao falar que anda só como um pássaro voando, ele quer dizer que novamente está seguindo seu caminho individualmente, vivendo por si só e sem preocupar-se com interesses coletivos.

Obs. 08: Aves que vivem juntas também voam juntas. Há espécies que fazem voos diários, desde o local de dormida até o de alimentação. Outras realizam migrações de maiores distâncias, em geral, nas mudanças de estações do ano. (saiba mais aqui).

Ao falar “ando só como se voasse em bando”, o eu lírico está se referindo ao fato de que existem várias pessoas que estão na mesma situação que ele! Há vários indivíduos que também estão sozinhos e que ainda não encontraram alguém para “voar junto”, ou seja, desfrutar de uma prazerosa convivência amorosa.

Obs. 09: Curiosidade - Pássaros voam em bando porque voar em conjunto diminui o atrito de cada indivíduo com o ar, o que significa menor gasto energético das aves. (mais informações aqui).

Ando só, pois só eu sei andar, sem saber até quando... Ando só

O eu lírico agora traz a sua fala diretamente pra o seu caso em especial (pois só eu sei andar). Por fim, ele deixa bem claro que pretende seguir seu novo viver de forma espontânea, “voando só” e sem previsão de quando novamente poderá ter alguém “batendo as asas” ao seu lado.

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8 comentários:

  1. Olá Djane! Muito bom, obrigado por esse esclarecimento. Sempre vi essa letra mais pela ideia "cíclica" do EngHaw, e tbm de "vida após a morte" q o Gessinger dxa em algumas letras.

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    1. Por nada. Eu também vejo muito essas ideias que você citou, muito bem colocada sua afirmação. Abraços.

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  2. Muito boa interpretação, bastante esclarecedora. Essa é uma das minhas músicas favoritas do 1berto.

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    1. Também considero uma das melhores! Obrigado pelo comentário. Grato em ajudar!

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  3. O mundo e os dias... e caio á me completar com esta letra fantástica..Ele nem sabe o quanto fico feliz..por ter esta composição ..

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    1. Particularmente a que mais me atinge também. Uma composição sem igual. Grande abraço.

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  4. Maravilhosa interpretação! Vou ler esse livro, obg! Não sei como vc consegue interpretar e saber tantos detalhes! Parabéns

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    1. Faço várias pesquisas sobre as suposições que tenho e vou juntando as informações, mas claro que é preciso ler muito! Veja o filme também, é bem legal haha

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