CEM METROS SUICIDAS


Por: Djane Assunção - @mestre_djane

Os pés estavam sujos, foram molhados quando a motocicleta passou velozmente sobre as poças de lama que permaneciam pelo trecho da rua que não possuía pavimentação asfáltica. Caía uma fina garoa que banhava o visor do capacete e dificultava a visão. Era noite de verão, fazia muito calor e o céu estava indicando que iria brevemente descarregar uma maior e densa precipitação atmosférica.

Estava quase chegando ao seu destino, faltavam apenas cerca de uns cem metros. Bastava dobrar atentamente a curva para a esquerda e seguir continuamente seu caminho pela via direita da faixa amarela pontilhada. Mais uma acelerada pela reta e poderia finalmente lavar os pés e ter o prazer de sujar novamente o espírito de sensações falsas, mas necessárias.

Aquela era uma rua muito conhecida, que de tantas vezes que passou por lá, a mente reconhecia detalhadamente mudanças que possivelmente eram realizadas no local. Como de costume estava vazia e escura. Os números das casas continuavam os mesmos, os estabelecimentos comerciais sequer mudaram seus letreiros e anúncios, e o principal poste de luz que existia pelo local ainda estava com a lâmpada irregular, dando contato entre os fios e piscando ininterruptamente. Essa situação permanecia da mesma maneira há dois anos.

O trecho parecia curto e simples de se percorrer com a Honda 150 Titan de cor preta, no entanto, aquele lugar causava pavor. Sempre que era noite e passava por aquela triste rua, o corpo pesava e a mente parecia vibrar pensamentos sórdidos em alta velocidade, modificando a concepção de tempo e espaço.

Sentia uma aflição tão forte que a respiração ficava sufocada e tinha a sensação que o tempo passava lentamente ao seu redor. Cada metro parecia quilômetros, cada segundo minutos. Não era fácil ter que se deslocar num espaço que lhe colocava entre o desejo de se matar e as falsas esperanças que o mantinha vivo. O olhar permanecia fixo ao objetivo no fim da rua, porém as paredes das casas de ambos os lados sugavam sua paz, comiam
o seu respeito.

Embora sempre perdesse um pouco mais da sua capacidade de se sentir humano, no momento que conseguia ultrapassar os infernais e reais cem metros de distância e chegar ao fim da rua, significava que outra vez venceu o desejo de morrer.

[...]

Quando você sentir falta de viver os erros que um dia cometeu, significa que seu presente se encontra um caos. A gente fecha portas, constrói muros, casas de vidro. É inútil! Nada pode te dar mais beleza e segurança do que sentir-se preso a uma pessoa que você morreria por ela. Mesmo que ela te queira morto.

Música sugerida para este texto: Infierno – Reação em cadeia

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