EXTRAINDO SIGNIFICADOS: MEU MUNDO É O BARRO - O RAPPA


Em uma análise mais geral da canção, eu diria que a música conta a realidade de muitos dos brasileiros que crescem nos subúrbios, periferias e comunidades aos redores dos grandes centros urbanos. Expressa os anseios de um indivíduo que se marginalizou, ou seja, vive à margem da sociedade, e durante sua vida cometeu alguns erros que possivelmente o levou a refletir sobre sua existência em um mundo extremamente seletivo.

Moço, peço licença, eu sou novo aqui, não tenho trabalho, nem passe, eu sou novo aqui

É fácil associar o contexto da canção a um homem (vamos tratar o eu lírico apenas assim) que possivelmente fez uma escolha errada no decorrer de sua vida. Creio que este homem, em algum momento de sua história, tenha cometido algum crime, alguma ação que o enquadrou no código penal de leis brasileiro. Por conta desse “crime” ele deve ter passado um tempo considerável preso em alguma instituição carcerária.

Depois de algum tempo preso, o homem voltou novamente ao convívio social, ou seja, cumpriu sua sentença e pagou toda a sua dívida com a justiça e a lei. Nessa parte da canção o indivíduo deixa claro que está novamente livre. Por conta do tempo perdido ele está em busca da readaptação à sociedade.

Eu tenho fé, que um dia vai ouvir falar de um cara que era só um Zé, não é noticiário de jornal, não é


Esse trecho da música traduz a segurança e perseverança de um homem determinado a recomeçar sua vida. Mostra que esse dito-cujo, perante sua condição atual, é tratado como um “Zé ninguém” (pessoa qualquer, um indivíduo que não possui status social significante). No entanto, ele está determinado a crescer na vida, mostrar pra sociedade que ele é capaz de retomar uma vida digna. Ele afirma que um dia ainda ouvirão falar dele como alguém que deu a volta por cima e venceu. Não vão lembrar-se dele como apenas outra estatística de algum noticiário ou manchete policial de algum jornal.


Sou quase um cara, não tenho cor, nem padrinho, nasci no mundo, sou sozinho, não tenho pressa, não tenho plano, não tenho dono


Talvez o nosso homem não tenha tido uma base familiar presente. Possivelmente ele foi o tipo de pessoa que desde cedo foi obrigado a encarar a dura realidade da pobreza, um indivíduo que aprendeu com a escola da vida.


Obs. 01: A maior dificuldade encarada por ex-presidiários na reinserção da vida social é o preconceito das pessoas. Apenas pelo fato de ter uma ficha na justiça, mesmo que com a pena cumprida, as pessoas demonstram enorme indiferença. É como se o indivíduo exibisse um rótulo em sua testa escrito: EX-PRESIDIÁRIO. Retomar a vida social e ingressar no mercado de trabalho é um desafio para todos aqueles que deixam o sistema penitenciário brasileiro após o cumprimento de suas penas. Outra causa bastante importante é a dificuldade de reatar os laços familiares com os parentes que muitas vezes esquecem e dão as costas pro indivíduo.


Tentei ser crente, mas, meu Cristo é diferente, a sombra dele é sem cruz, no meio daquela luz


Disposto a seguir em busca da realização dos seus sonhos, o nosso homem estabelece metas para com o seu novo viver. Ele busca o caminho da aceitação e da redenção. Repare que em uma das estrofes acima ele fala que tem “fé, que um dia vai ouvir falar de um cara que era só um Zé”. Dessa forma, suponha-se que ele acredita em Deus e nos seus ensinamentos, e nesse sentido é que entra a questão da religião abordada nessa parte da letra.


A religião se apresenta em nossas vidas como sendo “o caminho da salvação”. Porém, o eu lírico é uma pessoa que não se sente presa aos preceitos ortodoxos de nenhuma religião, embora ele tenha muita fé em Deus. Ao citar o trecho “tentei ser crente” ele está fazendo uma crítica à construção social de um fanatismo religioso. Para nosso amigo a fé independe de dogmas, Deus está presente para aqueles que creem, independentemente das suas ações religiosas (como certas atitudes que a instituições religiosas como a igreja pregam).


Podemos então supor que ele ver a figura de Cristo como algo que traz esperança, um Cristo vivo nos corações dos que tem fé (no meio daquela luz). Diferentemente da ideia de um Cristo que foi derrotado, morto e crucificado. Para ele, crer em Deus vai além de seguir códigos, seu Deus é aquele que seu desejo de viver, sua fé e sua esperança o fazem acreditar, não um redentor baseado em imagens e símbolos. Ele crê em um Messias da possibilidade, da superação e da liberdade sem restrição (a sombra dele é sem cruz). 


Obs. 02: Em uma entrevista postada no Youtube, o Marcelo Falcão Custódio (Vocalista e compositor do grupo) fala exatamente desse trecho da música. Confiram e tirem suas próprias conclusões:


- O Rappa: Meu mundo é o barro -


E eu voltei pro mundo aqui embaixo, minha vida corre plana


Acredito que aqui o eu lírico esteja fazendo referência ao seu antigo estilo de vida. Como ele mudou seu comportamento e se tornou um homem de caráter honesto, ele abandonou o mundo do crime, do dinheiro fácil e da ostentação. Eu penso que ele está dizendo que abandonou a vida “lá do alto” para caminhar em direção do bem.


Obs. 03: Sabemos que muitos dos morros do Rio de Janeiro (O Rappa é uma banda carioca) são dominados por grupos de traficantes e outras facções do crime. Dessa forma quando ele diz que voltou “pro mundo aqui embaixo” ele quer dizer que saiu dos morros (que são os lugres onde se constituíram as grandes comunidades do Rio de Janeiro, ou seja, os subúrbios), e voltou para áreas mais afastadas do domínio central das facções (crime organizado). Sua vida agora “corre plana”, seus passos são ao encontro de um emprego decente, da reconstrução de sua dignidade e da reafirmação dos seus valores sociais.


Obs. 04: Curiosidade - Quatro grupos criminosos controlam algumas das áreas do Rio de Janeiro:


COMANDO VERMELHO (CV): O mais antigo deles, uma facção que surgiu na década de 70 no presídio da Ilha Grande, em Angra dos Reis, no Sul Fluminense, a partir do contato entre presos políticos e criminosos comuns. A base de atuação do grupo era o Complexo do Alemão. Seus maiores líderes são Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar e Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, ambos presos.


AMIGOS DOS AMIGOS (ADA): Rival do CV, a facção criminosa surgiu em meados dos anos 90 dentro do complexo penitenciário de Bangu, na zona oeste. Foi fundada pelo traficante Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê, que foi expulso do CV.


TERCEIRO COMANDO PURO (TCP): Foi criado em 2002 após um racha entre o antigo Terceiro Comando (TC) e a ADA que, embora fossem facções diferentes, eram unidos.


MILÍCIAS: Formada, em sua maioria, por policiais militares e civis, ex-policiais, agentes penitenciários, bombeiros e até políticos, as milícias também controlam favelas no Rio. Esses grupos expulsaram os traficantes das localidades e cobram taxas de segurança de moradores e comerciantes, e exploram serviços como distribuição de gás e TV a cabo clandestina (gatonet).


Comecei errado, mas hoje eu tô ciente, tô tentando se possível zerar do começo e repetir o play


Arrependido de ter seguido por caminhos tortuosos o nosso homem só deseja poder recomeçar. Zerar todo o seu passado e poder da sequência no resto de sua vida (apertar o play).


Não me escoro em outro e nem cachaça, o que fiz tinha muita procedência


Hoje, consciente dos seus erros o nosso amigo diz que não mais se orienta através dos ideais de vida fácil que prega o submundo do crime organizado e do tráfico de entorpecentes. O seu erro foi uma imposição lhe feita, talvez seu crime fosse ordenado por algum líder de uma facção que ele era membro. Procedência é uma palavra que foi reutilizada como gíria, tendo seu significado ligado à cobrança. (proceder, procede, procedido, etc.).


Eu me seguro em minha palavra, em minha mão e minha lavra


Por fim ele ressalta o seu anseio de mudança, que através do seu desejo de recomeçar ele pode dar um rumo digno a sua vida. Ele acredita no seu potencial humano e afirma que pode mudar por conta própria.


Obs. 05: Lavra faz referência ao trabalho honesto, a sua capacidade de criar e desenvolver uma atividade por conta própria.


Ob. 06: Por que o título da canção é: Meu mundo é o barro? Posso explicar citando um trecho da bíblia sagrada cristã:


"Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós" [2 Coríntios 4:7]


O Rappa tenta expressar um pensamento quase totalmente contrário a analogia exposta nesse trecho da bíblia. A letra fala de um homem que vê o seu Deus a partir do deu sentimento que lhe é particular, ao invés de um Deus lhe imposto, ou seja, o poder vem da fé do homem em Cristo e não que o homem deve ser submisso a algum preceito religioso. Meu mundo é sim, O BARRO!


6 comentários:

  1. Otima interpreteção desta musica realmente estou certo que o meu entendimento sobre a musica tava certo valeu

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    1. Cada visão sobre a letra tem sua riqueza própria, mas fico feliz que compartilhamos da mesma. Abraços e obrigado.

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  2. Parabéns! Tudo que você disse faz muito sentido! Excelente interpretação!

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    1. Obrigado leitor. Fico feliz em contribuir com o conhecimento :D

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