VIGÍLIA


Por: Djane Assunção - @mestre_djane

Chega ao fim mais um mês, com esse já são quase vinte e quatro deles. O ventilador regulado na velocidade mínima espanta a grande quantidade de mosquitos que rodeia o pequeno quarto. Os incômodos insetos entram por entre as brechas das duas pequenas janelas que ficam abertas durante o entardecer e depois pousam por sob a pequena cama de madeira que ocupa de parede a parede o pequeno cômodo. Ficam silenciosamente parados, até o momento que se dá o anoitecer, quando decidem voar e infestar de pequenos pontos pretos as brancas paredes.

São quase quatro horas da manhã, mais precisamente três horas e cinquenta e quatro minutos de outro dia que começou às dezesseis da tarde anterior. O sono não vem de nenhum lugar que se busca, nem mesmo ao rever uma por uma as fotos da pessoa que tanto deseja rever. Talvez porque não sinta nenhum tipo de sentimento fora esse. Pés frios, mãos quentes e a garganta tão doída que sente como se tivesse passado o dia insultando ferozmente um árbitro de futebol.

É inútil tentar dormir, e para piorar, a série de televisão que acompanhava há minutos, perdeu todo o encanto ao trazer em uma de suas cenas a lembrança dolorosa de um episódio que parecia ter sido sepultado. O frio matinal chega a doer as narinas entupidas, portanto, desligar o ventilador é o mais sensato a se fazer, torcendo para que os mosquitos deem uma trégua e não perturbem demasiadamente. É um ventilador da marca Mondial, desses bem grandes, e está posicionado em cima da caixa que lhe serviu como embalagem enquanto não montado. A caixa está vestida com uma bandeira do Brasil, o símbolo retirado da sacada da casa por puro e cruel sentimento de vergonha.

Junto ao ventilador estão documentos plastificados com imagens de indivíduos que habitaram o mesmo corpo em diferentes épocas. O mais antigo deles fica por baixo dos outros, para o atual não se lembrar de um tempo que poderá tornar a insônia ainda mais perturbadora. Já experimentou ter sua consciência presa a um momento dedicado a imagem de uma única pessoa? É impossível adormecer ou arrancar algo de produtivo enquanto estado de possessão.

Ao lado de outra caixa, essa de formato retangular e feita de papelão, está uma suja cadeira de plástico que poderá servir de apoio para um corpo agora totalmente aquecido, mesmo que apenas coberto com um leve pijama. Em um improvisado suporte feito a partir de pedaços de policloreto de polivinila cortados diametralmente com perfeição, está um desgastado computador de mesa que entoa a música ambiente na voz de Tim Maia. “Me dê motivo, para ir embora, estou vendo a hora de te perder. Me dê motivo, vai ser agora, estou indo embora o que fazer” é o som baixinho que o desgastado eletrônico espalha pelo silêncio do minúsculo quarto.

Sabe o que é sentir cotidianamente a maldita da insônia perseguindo sua paz em cada minuto depois que você deitou na cama a fim de morrer? Não há o que fazer, passa das cinco da manhã e não existe sono, mesmo com a vontade lancinante de descansar que o corpo possui. Restou chorar envolvido por um estresse mental.

Por ser uma hora de descanso para a maioria das pessoas normais, não existe a mínima possibilidade de que alguém esteja vivo para ao menos tentar manter entretida uma alma presa ao seu próprio bem. A lâmpada fluorescente, então acesa há horas, começa a queimar levemente as pálpebras de olhos tão vermelhos como as pequenas mãos que batucam um som que tenta se assimilar ao ritmo do terceiro álbum seguido do “eterno síndico”. É imposta uma necessidade de escuridão no ambiente físico, pois a mente já desenhou esse cenário em si, desde antes dos mosquitos entrarem.

Com a ausência de luz, o corpo pesa e é obrigado a rapidamente ir caindo por sobre o velho e castigado colchão de espumas que está manchado com sangue amarelo. Então os olhos passam a arder tanto que são forçados a se manterem totalmente fechados. Sem alternativa, a alma é sufocada e condenada a recolher sua dor. A escuridão consome a consciência e finalmente é possível dormir.

Música sugerida para este texto: Me dê motivo – Tim Maia

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