DESGESSINGERIANDO: ALÉM DOS OUTDOORS - ENGENHEIROS DO HAWAII


"Além Dos Outdoors" é a sétima faixa do segundo álbum de estúdio dos Engenheiros do Hawaii. O álbum denominado de A Revolta Dos Dândis foi gravado e lançado no ano de 1987 e conta com um total de 11 faixas.

Em um contexto geral, a canção fala do modo de viver dos indivíduos nas grandes cidades, nas metrópoles modernas, nos grandes centros urbanos. A letra aborda aspectos ligados a maneira que o mundo capitalista e a globalização ditam o convívio social. Sentimentos como solidão e angústia são abordados na visão de um eu lírico que critica uma sociedade vazia e superficial.

Antes de partirmos para a análise detalhada da canção, é preciso entender que ela é vista a partir de um eu lírico que mantém um diálogo com um ouvinte, ou seja, sua fala é sempre direcionada a um possível interlocutor.

No ar da nossa aldeia, há rádio, cinema & televisão

A primeira parte que analisaremos faz referência ao modo como a globalização encurtou as distâncias métricas nas sociedades contemporâneas. Faz menção a invasão global dos mais variados meios de comunicação na vida das pessoas, na qual esses meios permitem que a informação chegue em alta velocidade as mais distintas partes do planeta.

Obs. 01: O termo “Aldeia” é uma alusão direta a teoria desenvolvida pelo canadense, teórico da comunicação, Herbert Marshall McLuhan, onde ele desenvolveu na década de 60 o conceito de “Aldeia global”. Tal expressão é entendida como forma de explicar os efeitos da comunicação de massa sobre a sociedade contemporânea. De acordo com McLuhan, a abolição das distâncias e do tempo, bem como a velocidade cada vez maior que ocorreria no processo de comunicação em escala global, nos levaria a um processo de retribalização onde barreiras culturais, étnicas, geográficas, entre outras, seriam relativizadas, nos levando a uma homogeneização sociocultural.

Mas o sangue só corre nas veias, por pura falta de opção

Nesse trecho, começamos a perceber a angústia do eu lírico perante o mundo que o cerca. Ele quer dizer que leva uma vida vazia e superficial. A intenção aqui proposta é de mostrar que o indivíduo contemporâneo não teria liberdade de escolher como a sua vida poderia seguir, mas essa seria imposta pelo poder massivo infligido pelos novos sistemas sociais.

Obs. 02Para quem se aprofundar nas composições musicais e livros do Humberto Gessinger, poderá ver características que remetem à obra do escritor, dramaturgo e poeta britânico Oscar Fingal O'Flahertie Wills Wilde, ou simplesmente Oscar Wilde.

Baseando-se nessa afirmação, acredito que “O sangue só corre nas veias, por pura falta de opção” teria uma relação com poemas de Oscar Wilde. A título de suposição, podemos destacar o poema “O Rouxinol e a Rosa” (clique no link e tire suas próprias conclusões).

As aranhas não tecem suas teias, por loucura ou por paixão, se o sangue ainda corre nas veias é por pura falta de opção

Essa parte aborda aspectos de um mundo amplamente conectado, mas que mostra que as relações de interação entre os indivíduos estão cada vez mais ilusórias, vazias e inconscientes. As relações humanas hodiernas estão sendo cada vez mais baseadas em contatos virtuais, os relacionamentos se tornando fúteis e sem embasamento sentimental.

Obs. 03: O uso da expressão “Aranhas não tecem suas teias” faz menção a internet, que pode ser considerada como uma das principais ferramentas de disseminação de informações em tempo real (e off-line) no mundo contemporâneo. Assim como o formato de uma teia de aranha, a internet foi concebida, e seu propósito é de conectar um sistema global de redes de computadores interligadas para servir vários bilhões de usuários no mundo inteiro.

Obs. 04: Para ilustrar o que falo, cito uma frase que vi e que atribuía autoria ao nome de Jaak Bosmans:

“A globalização encurtou as distâncias métricas, aumentando muito mais as distâncias afetivas”.

Você sabe, o que eu quero dizer não tá escrito nos outdoors, por mais que a gente grite, o silêncio é sempre maior

Em um mundo mercantilizado, em que tudo é convertido em moeda de troca, o eu lírico sente-se preso a uma vida cercada de um contingente absurdo de informações, uma sociedade que impõe acima dos sentimentos humanos, uma devoção em prol do acúmulo de capital.

Obs. 05: Outdoor (palavra de origem inglesa, exemplificando a ideia de globalização) é a designação popular de um painel de mídia exterior, de grandes dimensões, sobretudo em placas modulares, disposto em locais de grande visibilidade, como à beira de rodovias ou nas empenas de edifícios nas cidades.

A vida cotidiana do indivíduo, suas particularidades, sentimentos próprios, modo de ser, são reprimidos pelo modo capitalista de se viver. Dessa maneira, as relações que estão acima das instituições de poder e de mercado, das ideologias de consumo, são abafadas. O eu lírico está falando justamente dessas relações sem vínculo mercadológico, relações que não são expostas ao público como uma simples mercadoria ou produto anunciado em um outdoor.

No céu, além de nuvens, há sexo, drogas & palavrões, as coisas mudam de nome, mas continuam sendo religiões

Esse trecho traz uma referência às banalidades e prazeres do cotidiano, como os vícios. Faz também uma crítica à maneira ideológica como se constrói o discurso da sociedade da época acerca desses mesmos vícios (lembre-se que a canção é do contexto da década de 80).

Obs. 06: Sexo, Drogas e Rock'n Roll foi uma expressão que surgiu nos anos 50, tida como um lema no mundo do Rock. Acompanhou fortemente a evolução do gênero por décadas, intensamente seguida por uma legião de pessoas, principalmente os jovens que tratavam o estilo não apenas como musical, mas como um estilo de vida. Através do trinômio, muitos tabus foram criados em torno da sociedade.

Ao incluir “palavrões” na expressão, o eu lírico mantém o significado de rock, pois destaca outra característica presente no estilo musical, uma vez que esse tinha (e ainda tem) como sistema de ideias a liberdade de expressão sem restrição de um moralismo barato. Um moralismo bastante presente nas instituições que exercem grande influência no modo de viver das pessoas, como as religiosas por exemplo.

Ao afirmar que os vícios se encontram no céu, o eu lírico critica o modo como as ideologias dominantes impõem ao indivíduo como ele dever se portar socialmente. Repassa a mensagem que cada ser deve buscar encontrar-se vivo naquilo que o faz bem, independentemente do que digam a maioria. Determinada doutrina ou estilo de vida que um ser se dispõe a seguir intensamente, é uma religião, mesmo que as ideologias dominantes os reprimam, afinal apenas mudam de nome por serem excluídas socialmente.

Obs. 07: Nos versos “Há rádio, cinema & televisão/há sexo, drogas & palavrões” note que o símbolo “&” é utilizado.

- Por que o “&” foi utilizado na letra da canção?

O símbolo “&” é comumente chamado de “e comercial”, usado principalmente em nomenclaturas de empresas. A utilização do caractere é uma referência implícita (ou explícita) à industrialização e mercantilização do mundo moderno.

Você sabe, o que eu quero dizer não tá escrito nos outdoors, por mais que a gente grite, o silêncio é sempre maior

[...]

No dia-a-dia da nossa aldeia, há infelizes enfartados de informação, as coisas mudam de nome, mas continuam sendo o que sempre serão

Esse trecho apresenta a constituição do cotidiano que envolve as cidades modernas. Por todo lado às pessoas são bombardeadas de anúncios, de comercias de produtos, jingles e outras ferramentas usadas pelo comércio capitalista para divulgar mercadorias. Há um excesso absurdo de informação que extasia, arrebata, enfarta por todos os lados os indivíduos.

À medida que a sociedade vai se modificando, valores culturais, sociais, políticos acompanham essa transformação, pois são fatores que não são estáticos, se reconstroem ao passo que os indivíduos estabelecem novos modelos sociais de vida. Desde quando se deram as primeiras relações comerciais na história da humanidade, houve a necessidade de que as mercancias fossem divulgadas, criando as bases do conceito do que hoje conhecemos como publicidade. Diante disso, as sociedades podem sofrer diversas metamorfoses, mas desde que existam as relações mercantis, as coisas podem até mudar de nome nas mais variadas instâncias sociais, mas continuarão sendo o que sempre serão, mercadorias.

No ar da nossa aldeia, há mais do que poluição

Nessa estrofe é estabelecida uma relação entre ar e poluição. Quando ele cita a expressão “ar” repassa a ideia de ambiente (a vida em uma grande metrópole). 

“Há mais do que poluição” é uma referência a como se deu o mundo pós-revolução industrial, sem preocupação com o meio ambiente, descaso ecológico e exploração exacerbada dos recursos naturais. Passa também a ideia de “poluição visual”, isto é, o excesso de publicidade que descaracteriza o espaço urbano além de causar grande confusão, estresse e outros problemas relacionados à grande quantidade de informação.

Obs. 08: A Poluição visual se encaixa naquilo que é definido pela Lei federal 6.938/81 em seu Art. 3º, III, alínea d, como a “...degradação da qualidade ambiental resultante de atividades que direta ou indiretamente... afetem as condições estéticas e/ou sanitárias do meio ambiente;”. A poluição visual, então constituiria um dano ao meio ambiente à medida que o excesso de publicidade, seja ela legal ou não, as pichações, o lixo nas ruas, os emaranhados de fios e outros aspectos, afetam inegavelmente as condições estéticas do meio urbano. (clique aqui para saber mais).

Há poucos que já foram e muitos que nunca serão

Constituindo o significado da estrofe anterior, essa repassa o significado de que são pouquíssimos os indivíduos que se destacam em meio a um mundo cada dia mais globalizado, cada vez mais “homogêneo”. Tornar-se um alguém conhecido, é uma tarefa ríspida que exige muito esforço e rompimento com a mesmice, é necessário ser criativo, acompanhar e lidar com as transformações do meio.

As aranhas não tecem suas teias, por loucura ou por paixão se o sangue ainda corre nas veias é por pura falta de opção

[...]

Você sabe o que eu quero dizer, não vale uma canção, por mais que a gente cante o silêncio é sempre maior

Nesse verso em análise, destaca-se a fala do eu lírico, que diz que as mais reservadas e intrínsecas relações humanas, aquelas que são resguardadas apenas para o seu íntimo, são sufocadas por uma sociedade desigual que põe os valores materiais acima dos humanos. Não adianta ressaltar os verdadeiros valores humanos em uma canção, pois mesmo que ele fale sobre isso, será inútil, já que o silêncio da multidão, da indiferença é sempre maior.

Você sabe o que eu quero dizer, não cabe na canção, por pura falta de opção

Aqui, o eu lírico ressalta o sentimento de estranheza perante o modo de viver dos grandes e modernos centros urbanos. Uma canção não seria o suficiente para que ele pudesse destacar sua insatisfação com a vida, pois mesmo que pudesse fazer isso, ele crê que é inútil, não conseguirá ser visto, uma vez que continuará invisível e vazio em meio a uma vida sem sentido.

Púrpura é a cor do coração

Por fim, o eu lírico destaca um sentimento de esperança. Ele acredita na possibilidade de uma mudança no modo como se dão as relações sociais humanas.

Obs. 09: Púrpura é uma cor vibrante vermelho-escura, tendente para o roxo. Seria mais ou menos como a cor do sangue, a cor do coração.

Obs. 10: Teoria pessoal - Existe um filme do cineasta, produtor cinematográfico, roteirista e empresário norte-americano Steven Allan Spielberg denominado de “A Cor Púrpura”. O filme foi lançado em 1986 (um ano antes do lançamento de Além Dos Outdoors) e marcou os anos 80.

O filme foi baseado no romance da escritora afro-americana Alice Walker. Conta a história de Celie, uma mulher que com apenas 14 anos foi violentada pelo pai. Além de perder a capacidade de procriar, Celie imediatamente é doada a Mister, que a trata simultaneamente como escrava. Grande parte da brutalidade de Mister provêm por alimentar uma forte paixão por Shug, uma sensual cantora de blues. Celie fica muito solitária e compartilha sua tristeza em cartas (a única forma de manter a sanidade em um mundo onde poucos a ouvem). Mas quando Shug, aliada à forte Sofia, esposa do filho de Mister, entram na sua vida, Celie revela seu espírito brilhante, ganhando consciência do seu valor e das possibilidades que o mundo lhe oferece. Mostrando ser uma mulher que não aceita submissão e que deseja ser dona do seu nariz. Três personagens completamente opostas, mas que se complementam na crença e na luta por uma vida melhor e mais igualitária.

- Coincidência com o sentimento que cerca o eu lírico ou o compositor utilizou o filme como inspiração para citar esse trecho?

Cabe a você leitor, acreditar ou não na possibilidade de que realmente o filme inspirou parte da canção, logo se você entendeu o raciocínio da análise e comparou com a sinopse do filme, pode ter certeza que semelhanças não faltaram. Mas infelizmente somente o próprio Gessinger pode responder isso!

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2 comentários:

  1. Sobre o código morse:
    Embora Humberto já tenha manifestado que o código morse nada significa, as primeiras letras são:
    A – R – T – (CARACTERE VE= chamada geral) – D - D – T - N - & – E – e segue com a bateria sobrepondo…

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    1. Exato! Eu li a respeito, foi por isso que não achei relevante incluir na análise. Mas de qualquer forma obrigado pela observação! :)

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