DESGESSINGERIANDO: LUZ - ENGENHEIROS DO HAWAII


Luz é a faixa de número 16 do álbum Novos Horizontes, que é um DVD e CD ao vivo da banda gaúcha. Foi um álbum Gravado no Citibank Hall em São Paulo, no ano de 2007.

A música seria baseada em um monólogo em que o eu lírico (na figura de um homem) extravasa de maneira razoavelmente ordenada seus pensamentos e emoções. Na situação que se enquadra a canção, o eu lírico faz questionamentos acerca das características de uma possível paixão por uma mulher. Essa mulher estaria distante dele, portanto, é provável que nosso protagonista esteja movido por um anseio de angústia proporcionado pela saudade. Há um foco em especial nos olhos da sua amada. A construção da letra da canção também traz à tona metáforas que fazem alusão a conceitos e questionamentos que envolvem a ciência, seus métodos de análise e observação.

Onde estão teus olhos? Agora que tô bem na foto, agora que achei o foco. Onde estão teus olhos?

A primeira estrofe da música começa e termina com um questionamento acerca da característica que o eu lírico destaca na pessoa que ele supostamente ama, no caso os olhos dessa pessoa (onde estão teus olhos?). Em seguida, o eu lírico utiliza-se de uma expressão popular para fazer uma analogia entre a circunstância presente ressaltada na música e a situação sentimental/emocional que ele se encontra.

Obs. 01: “sair bem na foto” é uma expressão popular que significa dizer que um indivíduo conseguiu realizar uma tarefa com êxito, teve uma ação reconhecida por um público ou mesmo conseguiu se sair bem em determinada situação. Trazendo para a análise da música, eu suponho que seria o mesmo que dizer que o eu lírico quando pensa em estar junto de sua amada, ele fica em paz consigo mesmo (agora que tô bem na foto).

Obs. 02: Quando ele diz “agora que achei o foco” entende-se que ele está amando a mulher na qual ele faz referência. Talvez ele nunca tivesse reconhecido esse sentimento para com sua amada, mas nesse momento de reflexão, tal sentimento é elucidado. Finalmente ele descobriu um rumo, um sentido, um foco para o seu viver.

Obs. 03: A circunstância presente ressaltada na música seria o fato do eu lírico estar observando uma foto em que ele está junto com a sua amada.

Obs. 04: O contexto geral da canção traz implicitamente relações metafóricas com estudos da Mecânica Quântica e da Física Óptica, que aliados dão um sentido aos versos da música. No entanto, minudenciarei separadamente as analogias nos versos adiante. Isso não atrapalhará o raciocínio da análise, pelo contrário, agregará mais detalhamento das estrofes, incluindo essa.

Sem eles não existo, fico cego invisível, queimo o filme rasgo a foto

O eu lírico, consumido pelo sentimento de saudade para com sua amada, admite claramente o vazio que ele está sentindo por conta da ausência dela. Nesse verso existem três coisas que merecem serem detalhadas: uma analogia com outra expressão popular; a ação do tempo presente da canção; uma relação com os fenômenos da Física Óptica.

Obs. 05: “Queimar o filme” seria como o antônimo de “estar bem na foto”. Significa fazer passar por uma situação vergonhosa, perder a moral ou mesmo abalar a reputação. Dessa maneira, quando se imagina longe dela, ele sente-se combalido por uma nostalgia, uma sensação de desconforto e de angústia (queimo o filme).

Obs. 06: A ação do tempo presente da canção, é pensada aqui, seguindo o raciocínio imposto no verso anterior. Ele rasgaria a foto que segura, movido pela raiva e frustração de não poder estar com a amada (rasgo a foto). Perceba que sendo assim, “queimar o filme” teria dois sentidos, o explicado na observação acima e também o sentido da ação na forma literal da expressão.

- Vamos trabalhar esse verso na visão da Física Óptica, mais à frente incluiremos a da Mecânica Quântica, para que juntas as teorias possam esclarecer nossas dúvidas. 

Obs. 07:  “Sem eles não existo, fico cego invisível” (os olhos da mulher), pode ser entendido como uma relação entre a visão e a luz (afinal "Luz" é o título da canção). No caso, os olhos de sua amada seriam o que traz alegria para o eu lírico, em outras palavras, a luz que permite com que ele se sinta vivo, possa enxergar o Mundo através da paixão que ele sente por ela.

- Para explicar direitinho meu raciocínio, vejamos o que diz a Física Óptica:

Obs. 08: Quando observamos as características dos objetos, tais como cor, volume e forma, vemos que há a necessidade de que esses objetos sejam iluminados por uma fonte de luz, como uma lâmpada ou a luz do Sol. Os olhos recebem a luz refletida dos objetos. Por exemplo, é por esse motivo que um deficiente visual não consegue ver os objetos, pois ele não percebe a presença da luz (fico cego invisível). Leia mais aqui.

Onde estão teus olhos? Agora que domei a fera, agora que a dor já era, onde estão teus olhos?

Quando eu lírico diz “agora que domei a fera, agora que a dor já era”, creio que ele esteja se referindo ao sentimento do amor. Todos nós temos nossos demônios que nos proporcionam conflitos interiores. E se tratando de um sentimento tão complexo, é compreensível que o ser humano sinta-se confuso, muitas vezes perdido e lutando contra suas próprias decisões. Enfim, cabe a cada indivíduo entender e saber lidar com sua fera interior.

Obs. 09: Mas lendo e estudando essa frase, cheguei a um detalhe que me chamou atenção. Posso até estar devaneando, mas quero destacar essa minha observação para você leitor. Veja bem, em uma parte mais a frente, vai aparecer uma frase que poderá não fazer sentido no contexto do verso em que está, mas ela pode ter relação com esse daqui, e com a música em geral. A frase é “velhas canções de amor”.

Obs. 10: Existe uma antiga canção romântica de 1973 denominada de A Fera de Olhos MansosÉ uma música de um antigo e famoso cantor da velha guarda chamado Paulo Sérgio, também lembrado como um dos maiores nomes da música romântica nacional. Repare que "A Fera de Olhos Mansos" é uma antiga canção de amor. Reparou também como seu título apresenta características que é familiar a nossa canção em análise? Tais como, fera e olhos?

Obs. 11: Isso que apresentei foi algo que achei interessante ao pesquisar sobre a letra da música "Luz". Não tenho ideia alguma se a letra de "A Fera de Olhos Mansos" foi utilizada pelo compositor de "Luz" como inspiração. Apenas achei legal citar uma coincidência que me pareceu agregar mistério e mais conhecimento musical a análise.

Obs. 12: Por que o eu lírico foca tanto nos olhos de sua amada? Responderei essa pergunta em um verso adiante, fiquem tranquilos.

Sem eles não existo, fico cego invisível, só enxergo o silêncio

Nesse trecho voltamos àquela mesma relação coma a Física Óptica. É basicamente aquilo que já ilustrei sobre o que a canção expressa e também sobre a metáfora com o conceito científico. Mas a título de curiosidade dou mais uma explicação de como funciona o comportamento da visão humana com a luz. 

Obs. 13: Quando olhamos na direção de algum objeto, a imagem atravessa a córnea e chega à íris, que regula a quantidade de luz recebida por meio de uma abertura chamada pupila. Quanto maior a pupila, mais luz entra no olho. Passada a pupila, a imagem chega ao cristalino, e é focada sobre a retina. A lente do olho produz uma imagem invertida, e o cérebro a converte para a posição correta. Na retina, mais de cem milhões de células fotorreceptoras transformam as ondas luminosas em impulsos eletroquímicos, que são decodificados pelo cérebro. 

Obs. 14: Estão percebendo como tudo passa a fazer mais sentido? Lembre-se que a ação presente do eu lírico no momento da canção, seria o fato de ele estar segurando uma fotografia. O princípio aplicado a relação do olho humano com a luz, é também o mesmo usado para explicar o funcionamento de uma câmera fotográfica. Leia aqui acerca dos assuntos abordados nesse verso.

Juntos para sempre objeto e observador, física moderna, velhas canções de amor. Onde estão teus olhos? Longe deles nada existe

Obs. 15: A física moderna trata de forma bem peculiar à relação entre objeto e observador. Os físicos que estudam a Mecânica Quântica descobriram uma característica bizarra do universo. De acordo com a teoria quântica, é impossível determinar com exata precisão onde é a posição e a velocidade de uma partícula. Chama-se Princípio da Incerteza ou de Heisenberg (físico alemão que quantificou e traduziu em fórmula física tal fenômeno). A razão dessa incerteza não é um problema do aparato utilizado nas medidas das grandezas físicas, mas sim a própria natureza da matéria e da luz. Deste ponto de vista, só saberemos o estado de um sistema de partículas quando fizermos uma medição. Por exemplo, é inútil pensar no que um átomo está fazendo quando não se está olhando para ele, ou perguntar em que lugar do espaço ele está.

Obs. 16: Antes que alguém faça uma medição, na música fala-se em olhos, e olhar é um tipo de medição, e é aí onde entra o conceito do observador. Quando observamos algo, colapsamos todas as probabilidades em uma só, que se mostra como sendo a realidade observada. Imagine, a título de exemplo, que você tem uma caixa totalmente fechada e dentro dela tem um gato. Logo em seguida um veneno é liberado no recipiente através do decaimento (radioatividade) de um elemento radioativo que está junto ao gato na caixa. Se o elemento decair, o veneno é liberado e o gato é morto. Lembre-se que a caixa está fechada. Assim, você não sabe se o material radioativo decaiu ou não, portanto, tanto o estado do gato morto e gato vivo são equiprováveis. Qual a maneira de saber? Efetuando uma observação, então saberemos o triste fim ou final feliz do gato. Como curiosidade, este experimento mental chama-se Experimento do gato de Schodingerfísico austríaco.

Note que essa explicação se adequa também a versos anteriores, e aliada com as outras teorias expostas em análise, fecham a nossa hipótese da interpretação da música “Luz”. Diante disso, penso que agora seja possível entendermos melhor porque o eu lírico foca tanto nos olhos da sua amada. Tudo que ele faz, se está bem na foto, se domou a fera, se compreendeu o sentimento de amor, etc. é inútil sem a presença de sua amada, ou seja, é praticamente dispensável tudo que ele sente sem poder observa-la além de uma foto que possivelmente está em suas mãos. No caso, ele seria o objeto e ela a observadora. Sem ela, ele não existe, longe dela, nada existe.

Obs. 17: A Mecânica Quântica é o ramo da física que estuda o complexo mundo das partículas subatômicas (menores que os átomos). Dessa maneira, um sistema de partículas como um ser humano, terá pouca probabilidade de demonstrar certos comportamentos peculiares ao mundo subatômico. Contudo, estamos trabalhando a análise da música em cima de analogias e hipóteses acerca do que o compositor quis dizer. Espero que tenha ficado claro para todos, as exposições e utilizações das metáforas.

Essa foi uma análise conjunta com um grande amigo meu chamado João Lucas. O cara é genial e me explicou muito acerca dos conceitos físicos utilizados na análise. Foi uma análise especial porque fazia muito tempo que não trabalhávamos juntos em algo. Fica aqui minha satisfação e meus sinceros agradecimentos. 

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