MEDO DA ESCURIDÃO



Por: Djane Assunção - @mestre_djane

Desde criança nunca tive medo do escuro, sempre vi as trevas da noite como um alívio para meu corpo e principalmente para minha mente. Por muitas vezes me considerava uma criança estranha, embora eu nunca tenha sido do tipo rebelde, excêntrico ou ovelha negra do grupo. Muito pelo contrário, até hoje costumo ser o cara que segue as regras e foge o mínimo do rompimento da linha tênue da moral. O fato de eu nunca ter ingerido bebida alcoólica ou usado qualquer outro tipo de entorpecente (ilícito ou não), não me deixa dizer o contrário.

Sentia-me estranho quando ao invés de sair para brincar com os amigos, eu escolhia passar o dia sentado em cima das árvores observando a vida dos animais que percorriam o jardim. Era estranho ao me levantar de madrugada e ir ao quintal, totalmente abraçado pela escuridão para sentar nas pedras e ficar olhando o céu, como se estivesse esperando alguém. Muitas vezes nem saía de casa, apenas abria a janela, sentava na beirada da cama e fixava os olhos na penumbra. Sentia-me estático em meio a um silencio estarrecedor e uma brisa que fazia a alma transcender o corpo. Não sentia medo, era libertador deixar a mente caminhar diante de sonhos. Só me assustava de verdade quando meu pai levantava sem eu perceber e subitamente indagava o que eu estava fazendo. Mandava-me fechar a janela e ir dormir, ou quando estava fora de casa, que voltasse para dentro.

Mesmo depois de adulto, com certo grau de maturidade intelectual mais apurado, continuo com o mesmo costume de criança. Mas só faço isso quando vou para a casa de meus pais no interior, é como se lá o mundo parasse para mim toda madrugada. Sinto-me como parte de um plano maior do universo, realmente vivo. Sentimento totalmente oposto ao que me ocorre nas noites vividas nas grandes cidades, quando me sinto apenas uma partícula descartável perante a grandeza do cosmo.

Diferentemente de quando eu era apenas um pirralho que costumava viajar nas possibilidades do destino, aleatoriamente supondo situações futuras, hoje quando me entrego à solidão das madrugadas e me jogo no leito da escuridão, minha mente tem um foco direcionado. São pensamentos que eu não escolhi ter, que aliados à insônia se tornam perversos, cruelmente sugadores de esperança. Mas tem uma lembrança que há mais de um ano dorme todas as madrugadas comigo, independentemente de onde eu esteja. Seja na casa dos meus pais, ou em qualquer outro lugar. Antes de adormecer ela aparece com um ímpeto doloroso, que nem mesmo a música consegue me fazer esquecer.

[...]

Está tudo escuro, sinto apenas a minha própria respiração muito ofegante. Estou sentado e não consigo ver nem a dez centímetros do meu nariz, está um breu imenso. Os punhos cerrados, os dedos doloridos, a alma confusa. Quando controlo a sufocante respiração, vou lentamente enxergando um foco de luz muito longe, mas que aos poucos se aproxima. Vagarosamente consigo enxergar uma porta de ferro fundido, velha e enferrujada. Depois de chegar a uma distância, que de acordo com minha suposição aparenta ter quatro metros do que me parece ser uma escada de concreto em que estou sentado, a porta se abre lentamente e consigo ver uma pessoa, que mesmo com a proximidade e todo meu esforço, não a reconheço.

Levanto-me rapidamente e vou em direção dela que fica estática. Ao me aproximar da porta, percebo que a pessoa está de cabeça baixa, não dá para afirmar se está chorando, mas eu tenho quase certeza de que sim. Quando praticamente fico frente a frente com esse indivíduo, meu corpo trava, minha voz some e apenas meus olhos podem se mexer. Nesse momento a reconheço e tremo. Sinto cada membro pesado, incapaz de fazer movimento algum.

Ali estou, com um olhar arregalado, as palavras presas e um grito angustiado preso na garganta. A pessoa então levanta a cabeça e realmente confirmo minhas suspeitas, estava chorando desesperadamente. Encara-me com um olhar penetrante, mas sem falar nada. Depois de trinta segundos, vira-se e bate à porta com toda a força na minha frente. Quando a velha porta estremece meus ouvidos com o som da batida, volto ao meu estado natural do corpo. Tento sair do local e ir atrás da pessoa, mas é inútil, pois mesmo impondo toda a força física que possuo, a porta não abre e o breu volta a consumir o ambiente. Essa talvez seja a única lembrança que me faz verdadeiramente temer a escuridão.

[...]

"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz - Platão”. 

Música sugerida para este texto: Não me deixe só – Vanessa da Mata

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