EXTRAINDO SIGNIFICADOS: PÁSSAROS NOTURNOS - ZÉ RAMALHO/CALYPSO


A música "Pássaros Noturnos" é a faixa de número 08 do álbum "Parceria dos Viajantes" de 2007. O álbum é o décimo sétimo do cantor paraibano Zé Ramalho. Nesse álbum composto por 11 faixas, o Zé faz parceria com diversos outros cantores do cenário musical brasileiro.

A letra de "Pássaros Noturnos" foi composta especificamente pelo compositor Fausto Nilo e teve a música do próprio Zé Ramalho (com participação da banda Calypso na interpretação). Dessa maneira, podemos imaginar que seja uma canção extremamente complexa, repleta de metáforas brilhantemente organizadas, além de amores e detalhes peculiares dos lugares em que o Zé viveu (características marcantes das músicas presentes na obra do Zé Ramalho).

Em linhas gerais, eu diria que a música retrata de uma forma singular, um relacionamento entre um casal. Eu queria falar mais de uma maneira geral sobre a música, mas quero deixar que as metáforas da canção, analisada frase a frase, forneçam subsídios, para que você leitor, visualize à sua maneira o que eu quero repassar. É uma música riquíssima de conhecimento e mistério, o que torna a análise prazerosa de se fazer.

Obs. 01: Essa é uma análise inteiramente original minha, apoiada em referências sobre o contexto que criei. Na internet não existe nada, mais nada mesmo sobre essa canção. Dessa forma, o que vocês lerem aqui, foi fruto de uma enorme pesquisa e análise em que eu me dispus a fazer. Então, com carinho "Pássaros Noturnos", uma das análises mais originais do Abstracionando Pensamentos.

O amor e o esquecimento são dois pássaros noturnos

O trecho inicial da música faz alusão a uma metáfora que relaciona os sentimentos e sensações do amor e da reflexão humana (aqui destacada especificamente no esquecimento).

Obs. 02: Os animais de hábitos noturnos são aqueles que realizam suas atividades do viver durante o período da noite. Geralmente possuem os sentidos bastante aguçados gerando alguns mecanismos, os quais beneficiam suas vidas noturnas, como caçar e se locomover sem maiores dificuldades.

Dessa maneira, quando a canção diz que o amor e o esquecimento são aves noturnas, está sendo exposta uma relação entre os hábitos dos animais noturnos e dos seres humanos, com o período da noite. Da mesma forma que um animal noturno, basicamente vive sua vida nas noites e madrugadas, são exatamente nesses momentos que mais se associam esses dois sentimentos. Vou explicá-los individualmente para que vocês possam acompanhar meu raciocínio.

O esquecimento: Já parou para pensar que o momento em que mais refletimos sobre os idealismos da vida, é quando estamos acordados de madrugada? Seja por insônia, ansiedade ou mesmo pela tranquilidade noturna? As noites e madrugadas se mostram como ambientes propícios para pormos em ordem todas as ações realizadas durante o dia. São momentos aonde as lembranças que não se quer lembrar, os devaneios da alma e pensamentos dos mais variados, recaem sobre o indivíduo de maneira bem intensa.

O amor: O conceito aplicado aqui, se refere ao ato do amor propriamente carnal. Creio que seja indiscutível o fato da relação sexual ser culturalmente relacionada com o período noturno. Isso é explícito até na maneira de falar das pessoas. Por exemplo, quando se quer dizer que um indivíduo “fez amor” com outro, costuma-se dizer que esse, “passou a noite” com o parceiro. Enfim, existem vários exemplos, mas creio que você leitor, já entendeu bem o que eu quis dizer.

Mas por que especificamente pássaros noturnos?

Porque são animais que possuem asas, e logicamente a capacidade de voar, além de serem cercados de mistério. Trazendo essa característica para o contexto metafórico da canção, podemos dizer que o amor faz o homem voar, ganhar asas em meio ao prazer, sair do chão, ir ao céu. Já o pensamento humano, pode voar perante o ilimitado universo da imaginação, flutuar nas lembranças, sejam as que queremos lembrar ou nesse caso mais específico, esquecer.

Obs. 03: De acordo com o decorrer da canção, é possível supor o porquê de o eu lírico citar em especial o sentimento do "esquecimento". É só prestar atenção.

Obs. 04: Curiosidade - As aves noturnas são comumente relacionadas a várias lendas do imaginário brasileiro. Tratam-se das aves membros da família Nyctibiidae, um dos grupos mais fascinantes (e bizarros) de aves brasileiras. Conhecidas também como: Mãe-da-lua, Jurutaí, Rasga-mortalha, Curiango, Bacurau grande ou Chora-lua. Essa pequena família inclui sete espécies de aves noturnas, cinco das quais ocorrem no Brasil. Todas são incluídas no gênero Nyctibius e exclusivas dos neotrópicos (região biogeográfica que inclui a América do Sul, Central, partes do México e do extremo sul dos Estados Unidos).

Dentre as lendas mais famosas, está a lenda do Urutau (do guarani guyra 'ave' e tau 'fantasma'). A lenda diz que o pássaro seria uma mulher que perdera seu amor. Por isto, ele teria o nome de pássaro-fantasma. Outros dizem que o canto da ave é um presságio ou aviso de morte de algum familiar.

Conheça a história completa de como surgiu à lenda dessa espécie fascinante: A lenda do Urutau - A ave fantasma

Navegados pelo tempo, muito além de um grande muro

Já conhecedores do porquê o amor e o esquecimento serem “aves noturnas”, fica mais fácil explicar esse trecho. Quando a música fala que esses sentimentos e sensações são “navegados pelo tempo, muito além de um grande muro”, é uma referência ao amanhecer.

“Navegados pelo tempo” quer dizer que são sentimentos que rompem o espaço/tempo de uma única noite, ou seja, podem se repetirem em outros momentos, portanto, são subjetivamente dinâmicos. O muro é uma referência ao momento do raiar do sol. Imaginemos um muro simbólico que dividira o tempo entre as trevas noturnas e o alvorecer. Mais uma vez é exaltada a intenção de mostrar que o amor e o esquecimento não são estáticos, ou seja, podem vir a qualquer momento “visitar” o sujeito, mas que esse é abordado com um ímpeto maior, no período noturno (período em que o casal passa a maior parte do tempo juntos).

Onde renasce o fogo das cinzas da saudade, que queima a casa toda

Suponhamos que quando raia o dia, o eu lírico (que aqui se mostra na verdade ser um homem) é combalido pela saudade e desejo de poder novamente está com a mulher na qual possui um caso, e que partiu o deixando nesse estado de melancolia (Onde renasce o fogo das cinzas da saudade). Quando estão juntos, a paixão e o desejo consomem ferozmente esses indivíduos (Que queima a casa toda).

Obs. 05: Perceba que esse trecho traz implicitamente a citação de outra lenda, essa que envolve uma ave mística denominada de Fênix.

Obs. 06: Para os povos antigos, a fênix simbolizava o sol, que ao final de cada tarde se incendeia e morre, renascendo a cada manhã. Seria o mais belo de todos os animais fabulosos, simbolizava a esperança e a continuidade da vida após a morte. Revestida de penas vermelhas e douradas, as cores do sol nascente, possuía cantar melodioso que se tornava triste quando a morte se aproximava. A impressão que a sua beleza e tristeza causavam em outros animais, chegava a provocar a morte deles.

Conheça a história completa de como surgiu à lenda da Fênix: A lenda da Fênix

Obs. 07: Percebam que a lenda da Fênix se adapta perfeitamente ao raciocínio que impus na análise completa da canção (antes e depois dessa parte), e não apenas a esse trecho específico. :)

Rapidamente essa serpente é uma mulher

Nessa parte da música, vem à tona explicitamente a identidade dos personagens. Nesse aspecto, o eu lírico - homem - está afirmando características da mulher na qual ele mantém a relação descrita na canção. Nesta parte específica, ele quer dizer que essa mulher, pode ser traiçoeira, perigosa e imprevisível (embora ele goste de viver esse caso de amor com ela).

Obs. 08: Não é a única vez que vemos esses termos (mistérios da mulher e serpente), nas canções do cantor e compositor paraibano. Um exemplo disso é a faixa de número 05 do álbum Frevoador de 1992. A faixa traz a música denominada de “Entre a Serpente e a Estrela”. Vejamos um trechinho da letra da canção:

- E ninguém tem o mapa Da alma da mulher... Ninguém sai com o coração sem sangrar, ao tentar revê-la. Um ser maravilhoso, entre a serpente e a estrela... -

Obs. 09: A serpente é uma insinuação à maneira que o pecado é descrito na Bíblia Sagrada Cristã. A serpente ficou conhecida como um ser que representa o mal, a manipulação, o perigo e etc. (Alguns dos anseios que o eu lírico da canção possui acerca da sua paixão). 

Conheça a história de como surgiu esse conceito figurativo dado à serpente: A serpente e o pecado de Adão e Eva

Que silencia o mundo, mas grita no meu quarto

A mulher que é alvo das citações do eu lírico pode possivelmente ser uma cantora famosa na qual o personagem mantém um romance. Dessa forma, ela teria uma bela voz, que gera fascínio em um público que a admira ao escutá-la cantando (silencia o mundo). O eu lírico então, mantém uma relação amorosa e ardente com essa mulher (mas grita no meu quarto). 

Obs. 10: Lembra-se da lenda da Fênix? Olha ela mais uma vez trazendo relação com a canção. “A Fênix possuía um cantar melodioso ...”.

Obs. 11: Quem conhece o estilo musical do Zé Ramalho sabe o quanto são enigmáticas e subjetivas são as músicas do cantor. Para os mais conhecedores de sua obra, vão se lembrar da canção denominada “Chão De Giz”, faixa de número 03 do primeiro álbum solo do cantor de 1978. A letra (existe um consenso do seu real significado, aonde o próprio cantor teria explicado. É só procurar na internet que você confirmará o que digo), faz referência à paixão do Zé por uma famosa artista de TV. Nesse sentindo, não é nenhuma loucura supor a premissa que citei referente à análise desse trecho, afinal não seria a primeira vez que isso aconteceria.

Faz parar o tempo na parede

A única coisa que me pareceu coerente relacionar a essa parte, que ao citar que a mulher lhe “Faz parar o tempo na parede”, o eu lírico esteja falando de uma foto (ou quem sabe até um pôster artístico) dessa mulher, que ele mantém na parede do seu quarto. Nesse sentido, o tempo é capaz de imortalizar um momento através de uma fotografia.

Sai da roupa, vira gente e não me vê

Como já foi citado antes, o eu lírico sente uma inquietação e insegurança acerca das atitudes de sua paixão. Isso é explicado pelo fato de que por ser uma pessoa pública, é possível que ela não dê a atenção necessária que seu parceiro deseja. Lembre-se que em um trecho anterior a música faz uma relação entre a mulher e a serpente. Pensando nisso, “Sai da roupa, vira gente e não me vê” transmite uma ideia de mudança de atitude da mulher. Seria o mesmo que dizer que ela transforma sua personalidade. Quando está junto do eu lírico (o homem), eles são envolvidos por um amor sagaz, feroz e guiado pelo instinto, assim como são os desejos de um animal tido como irracional. Dessa maneira, ao voltar para o mundo natural da exposição pertencente ao seu cotidiano, a mulher vira gente e esquece-se do homem que a deseja insaciavelmente, e isso o incomoda.

Obs. 12: As Serpentes (assim como outros répteis) trocam constantemente de pele no decorrer de sua vida. É um fenômeno característico que recebe o nome de ecdise e é extremamente importante, pois possibilita ao animal crescer e expandir o seu corpo, fazendo assim parte do seu ciclo de desenvolvimento, pois a pele que reveste o seu corpo não acompanha o crescimento do mesmo, por isso há necessidade de ser trocada.

Se esquece num chocolate e volta na TV. Me esquece num chocolate e volta na TV

A parte final da música expressa o lamento explícito do eu lírico sobre o fato da mulher que ele deseja não valorizar o seu bem querer da maneira que ele assim gostaria. Ao falar que “Se esquece num chocolate” ele faz uma referência direta à maneira como ela lida com o relacionamento entre eles. É como se ele falasse que ela reprime seus anseios à maneira que lhe dar prazer momentâneo (comendo chocolate). Já “e volta na TV” me parece confirmar a teoria de que ela realmente é uma figura pública (de acordo com a teoria na análise, uma cantora).

Por fim, o eu lírico se sente confuso e incerto quanto o real sentimento da mulher para com ele. Ele aborda o mesmo contexto da primeira citação do verso, no entanto se define como parte fundamental nos anseios da mulher e de certa forma ele sente que está sendo desprezado (Me esquece num chocolate e volta na TV).

Obs. 13: A serotonina é um neurotransmissor capaz de regular o sono, o humor e até o padrão alimentar. Os homens conseguem sintetizar a serotonina mais rapidamente do que as mulheres e são capazes de armazenar o dobro. Já as mulheres, principalmente na TPM, têm queda na taxa de estrogênio e a elevação dos níveis de progesterona está associada também, a diminuição da serotonina (o chamado hormônio da felicidade). Como não há nenhum alimento capaz de aumentar mais a serotonina do que chocolates e doces, fica claro o porquê de as mulheres precisarem de chocolate de vez em quando.

Inscreva-se no canal do blog: http://bit.ly/2uO3Fbe
Segue também no Insta: @abstra_pensa ou http://bit.ly/2vNZWrk
Passa na página do Facebook: https://www.facebook.com/abstrapensa

3 comentários:

  1. Amei ! Essa música é perfeita, ótima organização da argumentação, simplesmente perfeito !

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado! Eu também adoro essa música! Abraços.

      Excluir
  2. Não vi nada mais perfeito que esse texto! queria muito ele por email, visto que tentei 'selecionar tudo' e não deu certo. Se possível, me manda (jvaraujo.18@gmail.com) para eu apresentar a professor de Literatura. Parabéns! Argumentação, organização e associações incríveis!

    ResponderExcluir

Tecnologia do Blogger.