DESGESSINGERIANDO: ALÍVIO IMEDIATO - ENGENHEIROS DO HAWAII


A canção “Alívio Imediato” é faixa de número 02 do quarto álbum (o primeiro ao vivo) dos Engenheiros do Hawaii. Foi lançado em 1989 e leva o mesmo nome da canção. É considerado por muitos como um dos melhores da banda gaúcha, muito pelo fato da formação dos engenheiros ainda ser composta pelo espetacular trio GLM! Humberto GESSINGER, Augusto LICKS e Carlos MALTZ.

Existe muita discussão acerca da interpretação dessa canção, mas em quase todo o lugar que haja comentários sobre o seu real significado, é possível identificar na grande maioria de opiniões, dois pontos de discussões centrais. Um é o fato de ser uma exposição de fatos históricos relacionados a temáticas políticas e sociais e o outro um conflito interno de um alguém que enfrenta um estado de melancolia por conta de uma aventura amorosa.

Sabe o que eu acho? Que são justamente os dois pontos que destaquei. Ambos identificados na mesma letra. Na minha concepção, essa é uma das músicas que mais reflete as principais características presentes nas composições do Gessinger e dos Engenheiros do Hawaii. Em suma, falar de questões sociais relevantes para uma época ou geração e cantar casos de amor, paixões, desilusões, etc.

O melhor esconderijo, a maior escuridão. Já não servem de abrigo, já não dão proteção

A canção começa com o personagem principal expressando um sentimento de angústia, uma sensação de insegurança. Possivelmente ele está em estado de nostalgia por conta de alguma decepção amorosa. Entretanto, no decorrer da canção é possível identificar que essa tristeza também é fruto de um desengano com a vida. Uma aflição advinda de uma autorreflexão sobre os atos da raça humana.

Obs. 01: Aqui já começa a analogia entre os dois assuntos citados anteriormente na introdução desta análise.

Obs. 02: A canção se passa no contexto histórico da década de 80. Foi um período bastante marcante para a história do século XX, partindo de um ponto de vista dos acontecimentos políticos e sociais. Foi uma época também considerada como o fim da idade industrial e início da idade da informação. Uma sociedade que vivenciou guerras internacionais, ameaças nucleares, guerras civis e de guerrilha, golpes, descoberta da AIDS, morte de famosos personagens públicos, entre tantas outras coisas relevantes que eu poderia citar. 

A Líbia é bombardeada, a libido e o vírus

Aqui é onde começa a introdução direta dos fatores políticos/sociais vivenciados na década de 80, e que também são responsáveis pelos anseios do personagem. Os problemas enfrentados pelo mundo também são reflexo do mal-estar do indivíduo em questão. 

Obs. 03: Da década de 70 em diante, a Líbia apareceu frequentemente no noticiário internacional por causa das atitudes de seu chefe de estado, Muammar Al Kadhafi, acusado de apoiar o terrorismo. A presença de manifestações antiamericanas e a aproximação com a União Soviética, por parte da Líbia, geraram sérios conflitos na década de 80. As acusações de que o governo líbio patrocinava ou estimulava o terrorismo internacional desencadearam, em abril de 1986, um ataque da aviação americana a vários alvos militares, em que pereceram 130 pessoas.

Obs. 04: “A libido e o vírus” faz referência à doença incurável da AIDS e ao vírus do HIV, que ataca as células do sistema imunológico. O primeiro caso de AIDS registrado no mundo foi no início da década de 80. A Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, descrita em 1981. O HIV pode ser transmitido pelo sangue, esperma e secreção vaginal, pelo leite materno, ou transfusão de sangue contaminado. O portador do HIV, mesmo sem apresentar os sintomas da AIDS, pode transmitir o vírus, por isso, a importância do uso de preservativo em todas as relações sexuais.

Libido é um substantivo que é usado para descrever o desejo ou impulso sexual de um homem ou mulher. Nesse sentido, a pessoa portadora de HIV pode ter uma diminuição da libido. Isso pode ocorrer por alterações psicológicas causadas pelo fato de saber que é portador do HIV ou devido ao uso de medicamentos que provocam distúrbios endocrinológicos. 

O poder, o pudor, os lábios e o batom

Aqui, começa a ser novamente exposto o lado da canção que retrata a situação de autoquestionamentos sobre o amor. Primeiro o personagem retratou seu desgosto com situações de crise do mundo (trecho anterior), agora ele expressa diretamente seu tormento amoroso. Mas ele não deixa de comparar com as situações sociais que o inquietam (o poder e o pudor).

Provavelmente ele está em um estado de pós-termino de uma relação, e distante de alguém que ele ama muito. Partindo dessa premissa, são expostas lembranças desse alguém amado (os lábios e o batom).

Que a chuva caia como uma luva. Um dilúvio, um delírio. Que a chuva traga alívio imediato

Nessa parte, o eu lírico retrata de forma direta sua insatisfação com o Mundo. É como se ele quisesse dizer que para sanar tanto caos, tantas guerras, mortes e pecados da humanidade, só mesmo com outra catástrofe como o dilúvio. Tal situação bíblica cairia “como uma luva” perante uma civilização corrompida pelo mal. Mas ele está ciente do exagero de suas ideias (Um dilúvio, um delírio).

No final ele só quer poder acalmar sua mente, deixar que a chuva caia e traga consigo um sentimento de paz, um alívio imediato para tanta inquietação. (tanto para seus pensamentos acerca da humanidade, como para o seu coração aflito pela paixão).

Que a noite caia de repente caia tão demente quanto um raio. Que a noite traga alívio imediato

Aqui se aplica basicamente a mesma proposta do trecho anterior. Nesse caso, o cair da noite é pensado como algo que possa trazer consigo a sensação de calma. Que a chuva caia demente como um raio, que uma tempestade venha para aliviar o peso de uma alma que vagueia seus pensamentos.

Há espaço pra todos, há um imenso vazio, nesse espelho quebrado por alguém que partiu

Nessa parte, o personagem fala do quanto sente a dor de está distante de quem ele ama. Não se pode afirmar o que realmente aconteceu, mas a certeza é que seu amor foi embora e o deixou muito triste. Ele se enxerga uma pessoa incompleta, se vê vazio, perdido, incapaz. Diante da ausência de motivos para alegrar-se todo homem é susceptível a desesperança.

A noite cai de alturas impossíveis, e quebra o silêncio e parte o coração

Vejo essa parte como uma metáfora que associa as trevas da noite à mente perturbada do indivíduo. A noite cai de alturas impossíveis porque a escuridão do anoitecer faz menção ao sentimento de tristeza que seus pensamentos adquirem no momento de extrema desilusão. E a mente humana é onde podemos criar o impossível, onde as lembranças tem poder de quebrar qualquer tranquilidade de um coração consumido pela paixão.

Há um muro de concreto entre nossos lábios. Há um muro de Berlim dentro de mim

Obs. 05: A letra desta música relata acontecimentos do contexto da chamada Guerra Fria. A canção mostra características marcantes do período. Dentre os quais podemos destacar: mundo bipolar, corrida armamentista, desenvolvimento de setores tecnológicos e o “terror atômico”, que era o medo constante de uma possível guerra nuclear de dimensões destrutivas avassaladoras.

Nessa parte existe uma analogia da Guerra Fria com um conflito interno, o distanciamento entre ele e sua amada está se referindo à construção de um muro entre o casal. É o trecho que evidencia de forma mais clara o contexto de analogias que eu propus nesa análise.

Obs. 06: O Muro de Berlim foi uma construção erguida em 1961 pelo regime socialista da hoje extinta República Democrática Alemã, também conhecida como Alemanha Oriental, que se destinava a separar as duas áreas da cidade de Berlim, à época dividida em um setor capitalista (sob o domínio dos EUA) e outro socialista (sob o domínio da URSS). A construção deste abominável símbolo da Guerra Fria iniciou-se a 13 de agosto de 1961, estendendo-se por 37 quilômetros afora dentro da zona urbana da cidade de Berlim.

Tudo se divide todos se separam (duas Alemanhas, duas Coreias)

Nesse trecho final da letra, o eu lírico apenas avigora o seu sentimento de separação.

Obs. 07: Com o colapso da União Soviética e seus satélites no Leste Europeu, O Muro de Berlim começa a ser finalmente derrubado em 9 de novembro de 1989, acabando com um dos símbolos máximos da opressão dos regimes socialistas. Seu desmanche é também símbolo do fim da Guerra Fria e o marco zero da unificação da Alemanha em uma nação apenas.

Obs. 08:
 A Coreia constituía um único país, dominado pelos chineses. Em 1910, após ser derrotada pelo Japão, a China perdeu o domínio do território para os japoneses. No entanto, em 1945, com a derrota do Eixo (Alemanha, Itália, Japão) na segunda Guerra Mundial, as tropas japonesas foram expulsas da Coreia, havendo a ocupação dos soviéticos e estadunidenses. Com o início da Guerra Fria a Coreia, em 1948, foi dividida conforme os interesses geopolíticos das duas potências mundiais. Foram criadas duas nações autônomas com ideologias geopolíticas contrárias: a República Popular Democrática da Coreia (Coreia do Norte), com sistema comunista; e a República da Coreia (Coreia do Sul), com o sistema capitalista.

Que a chuva caia como uma luva, um dilúvio, um delírio. Que a chuva traga alívio imediato

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4 comentários:

  1. Olá, parabéns pela análise!
    Muito pertinentes os paralelos sociais e emocionais percorridos pelo autor.
    Explicação clara e profunda.

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    1. Obrigado Michel. É mesmo uma música muito expressiva. Abraços.

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  2. Uma verdadeira aula dez historia! Muito bom. Parabéns.

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    1. Fico feliz que tenha gostado! Obrigado pelo feedback Ely! Grande abraço.

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