O EFEITO PABLO - CORAÇÃO DO AVESSO


Por: Djane Assunção - @mestre_djane

Olhos fechados e ardendo, cabeça inclinada para o alto com a nuca encostada no apoio da cadeira de balanço. O metal já desgastado range, enquanto o corpo balança de acordo com o ritmo imposto pelo móvel. Pensamento vagueia, castiga, definha cada lacuna de paz. A cada nova engolida de saliva é como está ingerindo cerol asperamente pelo esôfago.

O boteco da esquina, o de cor beije e verde (por que alguém pintaria uma parede com essa combinação de cores?), está vazio, no entanto, as portas e janelas estão todas abertas e o aparelho de som está ligado em quase todo o seu potencial de decibéis. Cada verso da canção que toca age como uma navalha, estripando as emoções e jorrando remorso.

A felicidade dos garotos jogando uma adaptação do críquete, os gatos disputando vigorosamente pela atenção da fêmea no cio, o senhor de meia idade bêbado sentado no chão da casa vizinha e falando sozinho. Nada, simplesmente nada faz a mente entreter-se, fluir pensamentos felizes, irritados ou mesmo de escárnio (não necessariamente nessa ordem). Abre os olhos e a boca sentindo gosto salgado revela o choro. Os três minutos e vinte oito segundos da faixa oito, que parecem passar em velocidade anormal reduzida, fazem o álbum de quatorze músicas parecer eterno.

Quarta semana do mês, sexta-feira dia vinte e seis, o sol já se escondeu por trás dos vales, mas ainda não é noite. Passaram-se dois minutos, a cena ainda é a mesma, contudo, a mente consumida por arrependimentos expõe interruptamente flashes de momentos vividos há muito tempo, que fazem um único minuto que se passa parecer um dos filmes da trilogia senhor dos anéis. Antes mesmo fosse apenas uma ficção, seria tudo tão mais fácil de aceitar.

Continua o choro silencioso. De raiva aperta os próprios dedos com tanta força que as unhas mal lixadas cortam a palma da mão. Gotas de sangue começam a pingar lentamente, escorrendo pelo braço da cadeira até caírem no chão sujando a calçada feita de cimento barato e que se encheu de rachaduras com o passar dos dias. A raiva é movida pelo autodesprezo, a culpa de não ter sido suficiente capaz. Ter aceitado o medo como parte normal da rotina, ter escondido as falhas por sob o falso sentimento de ódio.

A partir desse momento, se escuta a música baixinha ecoando na mente, servindo de trilha de fundo para os pensamentos. A própria voz repetindo diversas vezes seguida as mesmas palavras de ordem: por que não ter falado naquela hora? Por que não abraçou com mais força? Tivesse erguido a cabeça, levantado rapidamente e aberto àquela maldita porta, tivesse sido verdadeiramente alguém sincero, não ter acolhido o orgulho...

A música vai aumentando o volume. Os olhos agora estão enormemente arregalados e fixos no céu. Em um momento de epifania enxergam o próprio corpo sentado em uma escada escura. Está com a cabeça apoiada nos braços, estes que estão jogados em cima dos dois joelhos. Repentinamente a cabeça vai sendo erguida e mostrando a camisa molhada, mas não é possível identificar se está chorando ou é apenas suor. Mais um pouco e será possível escutar as palavras que serão ditas de acordo com o que os olhos falarem. Quase... Só mais um pouquinho... e... a música parou!

Após piscar três vezes seguidas os olhos parcialmente vermelhos, só se vê o rubro proveniente da iluminação das camadas superiores da atmosfera pelo sol, que mesmo escondido ainda ilumina o horizonte. Depois de regularizar a respiração, que até então estava presa, endireitar a posição da cabeça e sanar o sangramento da mão, observa o dono do bar fechando as portas do estabelecimento.

O tiozinho alcoolizado já não está mais sentado no local que se encontrava altamente desnorteado, os garotos estão sendo conduzidos para suas casas por um rapaz um pouco mais velho, e os gatos sumiram deixando a fêmea descansar.

Recolhe o celular do chão, passa o dedo rapidamente por sobre a agenda de contatos e inicia uma ligação. Antes mesmo de deixar chamar pela segunda vez o dedo vai com descomedida força e cancela a chamada. Aperta o aparelho com muita força, em seguida levanta da cadeira, respira profundamente e desce a calçada de uns dois metros de altura. Põe os fones de ouvido e o corpo é guiado sem direção, com a biblioteca de músicas do aparelho celular reproduzindo os um minuto e vinte segundos da mesma canção que tocava no som do bar, e que não puderam ser terminados.

Música sugerida para este texto: Coração do avesso – Pablo

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