TURNO


Por: Djane Assunção - @mestre_djane

Há dezenas de olhos observando. São tantos olhares insensíveis e fixos que o mais singelo movimento que o corpo faça apresenta em si um desconforto provocado pela angústia de estar sendo diametralmente o centro das atenções, mesmo que esteja inteiramente solitário.

A sala com luminosidade a meia luz tem cerca de uns dez metros de largura por uns quinze de comprimento. Em quase toda posição que a visão se direcione irá ao encontro de rostos tão intimidadores que parecem estarem realmente vivos, sempre sentinelas a inquietação da alma humana. Ao longe é possível escutar com certa dificuldade um diálogo bem delineado, com pausas certas e respostas seguras, possivelmente seja alguma telenovela.

Preenchida com a presença de frontes que variam entre formas zoomórficas e humanas as paredes do local possuem uma iluminação articulada em pontos pré-determinados. Pequenas lâmpadas com tons de cores fortes estão posicionadas de forma a iluminar apenas um campo de cerca de oitenta centímetros de diâmetro do ponto central em que se encontram parafusadas na parede.

As duas lâmpadas incandescentes principais que descarregam a meia luminosidade da sala retangular estão dispostas bem no centro e se encontram uma ao lado da outra, de forma verticalizada em relação à largura do ambiente. Aliadas a um frio intenso trazido por uma dessas chuvas de dezembro dão um ar de cenário característico de algum filme do Hitchcock.

Por ser o ponto mais iluminado, estar sob essas duas lâmpadas centrais passa a ser o lugar mais apropriado para encostar a cadeira branca de plástico reforçado que foi propositalmente ali deixada. Pegar a cadeira e sentar vagarosamente, sempre olhando para frente e para os lados, então descansar a coluna que depois de muitos minutos ereta adveio a implorar um descanso. 

Ao passo que as horas vão se alongando, cessam os sons do que seria a telenovela, deixando de protagonista o barulho repetitivo de um ponteiro que circula constantemente o velho relógio de pulso de cor prata marcado por manchas de corrosão. O tic-tac redundante transforma cada minuto em uma eternidade de sessenta segundos. 

Com intervalos definidos de trinta minutos, levantar e circular a sala, sempre com os esquisitos tipos de olhos estagnados em observação. Cada uma das rondas programadas é como estar dentro de um “big brother global” ou ser um “Smith” do 1984 de George Orwell. A sala não possui janelas e a única saída para o exterior é uma porta que se encontra de lado, no sentido do comprimento do local e rente a uma das paredes que delimitam a largura.

É necessário sempre checar se o trinco da porta está verdadeiramente bem trancado. É o último movimento da ronda, após isso se volta a sentar na cadeira até que o velho relógio anuncie que está na hora de novamente caminhar e enfrentar diretamente todos os adventícios olhares.

Depois de algum tempo seguindo o padrão que foi estabelecido no dia anterior, passa-se a observar mais detalhadamente cada objeto, cada cor, cada elemento constituinte do local. Embora pareçam confusos os rostos e olhares vão vagarosamente ganhando o sentido que a bagagem cultural e o senso de análise assim possam determinar. A timidez vai lentamente sendo consumida pelo passar interrupto das horas.

05h30m! Hora da última caminhada diante das faces que agora de nada intimidam, passaram a ser bons amigos, companheiros de solidão. A agonia de estar continuamente vigiado foi suprimida pelo desejo de ter algo para desabafar os lamentos suburbanos, as mortes cotidianas. Nos próximos dois dias estará liberto dos olhares, mas no terceiro dia após esse, será hora de retornar, agora sem medos.

Música indicada para este texto: Esquadros - Adriana Calcanhoto

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