ANÁLISE DA MÚSICA: ROOKMAAKER - PALAVRANTIGA


Por: Djane Assunção - @mestre_djane | Escrito em 2014/ Atualizado em 2018

Rookmaaker é a 12° faixa do álbum Esperar é Caminhar, lançado no ano de 2010 pela banda mineira de rock alternativo Palavrantiga.

Eu leio Rookmaaker, você Jean-Paul Sartre

A música tem início com um personagem citando em primeira pessoa do singular características artístico/literárias que se diferenciam entre ele e um possível interlocutor. Neste diálogo, ele elucida a diferença de leitura ideológica que ambos possuem, isto é, o quanto são diferentes os seus pensamentos para com o do seu ouvinte.

Rookmaaker - Henderik Roelof “Hans” Rookmaaker foi um escritor holandês adepto ao cristianismo. Escreveu a respeito da ambiguidade sobre a arte entre os cristãos e da ambiguidade sobre a fé entre os artistas. Para ele, qualquer discussão sobre o papel da arte deve ser precedida por uma afirmação básica: a arte não precisa de justificativa - nem por motivos religiosos ou propósitos evangelísticos, nem por fins econômicos ou políticos.

Em sua obra Rookmaaker procurou abordar a ruptura desastrosa da verdade e da beleza da revelação divina. Ele argumentou que não há beleza verdadeira divorciada da verdade, amor e liberdade, seja na arte ou na vida. “Somos cristãos, quer durmamos, comamos ou trabalhemos arduamente”, “o que quer que façamos, façamos como filhos de Deus”. Escreve em A arte não precisa de justificativa (1978). [1]

Jean-Paul Sartre - Jean-Paul Charles Aymard Sartre foi um filósofo francês, ateu convicto desde os doze anos de idade, avaliava que a “existência precede a essência”, e isso significa dizer que há uma liberdade responsável que o homem manifesta ao escolher sua própria vida e nada, nem mesmo Deus, pode justificar o homem ou retirá-lo de sua liberdade total e absoluta, ou ainda salvá-lo de si mesmo. [2]

Ainda sobre este trecho, destacamos um comentário do autor da letra, o cantor, compositor, multi-instrumentista, arranjador, escritor e professor brasileiro, Marcos Almeida feito em seu blog chamado Nossa Brasilidade.

Há, portanto, o que discernir numa obra de arte. Me permita dizer assim: se o compositor e ouvinte vivem num mesmo país, falam a mesma língua, compartilham de símbolos e realidades comuns, são educados numa mesma “escola”, é bem certo que os dois saibam a diferença entre o pensamento de Rookmaaker e Jean Paul Sartre. Além disso, o Google está aí pra que? Em outras palavras: existe informação na obra de arte, mas, a arte não é informação. A arte está em outro modo da realidade; se utiliza dos dados objetivos e metafóricos só para (misteriosamente) nos jogar bem perto da beleza, do simbólico e do sagrado. Só falta alguém me perguntar: o que você quis dizer com isso? hahaha!”. [3]

A cidade foi tomada pelos homens. Na cidade dos homens, tem gente que consegue ler, mas os outros estão néscios pra ti

A partir deste trecho vamos identificando que a letra faz um paralelo entre as maneiras de viver de um cristão que segue à risca os preceitos de sua religião, que busca a santidade e a expressão de sua fé por meio da manifestação artística, e pessoas que baseiam seu viver em uma vida afastada dos ensinamentos de Deus.

É como se o locutor dissesse que certa parcela das pessoas que compõem a sociedade atual não consegue prender-se aos ensinamentos religiosos, ou seja, as indicações advindas da fé cristã (fé em Jesus Cristo, em sua ética e sua promessa de redenção).

Há aquelas pessoas que realmente conseguem pôr em prática a fé cristã (conseguem ler), contudo, outra parte está ignorante (néscios) para com os ensinamentos que pregam o cristianismo (canal mediador entre Deus e os seus fiéis).

Na cidade dos homens -  é uma referência as “Duas Cidades” de Santo Agostinho, um dos mais importantes teólogos e filósofos dos primeiros anos do cristianismo, cujas obras foram muito influentes no desenvolvimento do cristianismo e filosofia ocidental.

Esta referência é encontrada na obra De Civitate Dei - Cidade de Deus (426 d.C./data da primeira publicação). Separei dois comentário para que possamos entender um pouco do que se trata as “Duas Cidades” de Santo Agostinho:

“Segundo ele existe a cidade terrena, isto é, o nosso mundo onde vivem os cristãos e os pagãos. Partindo dessa premissa existiria para Agostinho a cidade de Deus que seria uma cidade espiritual. Do outro lado estaria a cidade do Diabo [dos homens]. As duas cidades estariam inseridas e misturadas na cidade terrena, e somente o juízo final ira separá-las e distinguir seus habitantes. Mas o que funda essas cidades? Para Agostinho dois amores. O amor de si que leva ao desprezo de Deus funda a cidade do Diabo e o amor a Deus que leva ao desprezo de si mesmo e funda a cidade de Deus”. [4]

“Como na filosofia platônica e em geral no pensamento grego não havia espaço para uma noção de criação a partir do nada, mas o mundo era visto como eterno como nossa alma, muito do que Agostinho tem para oferecer é a novidade, rejeitada pelos neoplatônicos, de um Deus que cria a partir do nada. Mais ainda: de um Deus que intervém na História. A Cidade de Deus é oposta à Cidade dos Homens. Não que Agostinho pretendesse que essa cidade celeste fosse fundada na Terra, mas sim que a cidade dos homens vive pela carne ao longo da História, ao mesmo tempo que a Cidade Celeste é a dos homens que têm noção da sua pequenez, desprezam os bens da Terra e buscam a paz de Deus. Não deixa de ser uma noção bela, mas buscar ver nos atos da história humana sinais destas cidades é muito enganador.” [5]

Eu canto Keith Grenn, você canta o quê?

Aqui, há um outro questionamento feito pelo locutor ao indivíduo que o escuta. Ele mais uma vez o provoca indiretamente em relação às normas religiosas e artísticas em que ambos acreditam e seguem.

Keith Gordon Green foi um cantor e multi-instrumentista gospel americano. Compunha, interpretava e tocava. Depois de ter experimentado todas as drogas que o mundo de até então oferecia, o judeu Keith Green passou a se interessar por misticismo oriental e o chamado "amor livre". Então ele dedica sua vida aos ensinamentos religiosos. Começa a trabalhar ao lado de sua esposa em um programa de evangelização de prostitutas, drogados e sem-teto nos subúrbios, que recebiam, além do evangelho, atenção e cuidados. [6]

A cidade está cheia de sons. Na cidade dos homens, tem gente que consegue ouvir, mas os outros estão surdos pra ti

A canção busca denotar a importância dos mais diversos movimentos artísticos e literários. Que as pessoas devem ser conhecedoras da cultura, da religião além das instituições formais/informais que pregam o saber. Aqui, segue o mesmo princípio do trecho anterior, fala da relação entre crentes e descrentes para com a religião e toda a complexidade que envolve o entendimento da fé.

Vem, jogando tudo pra fora. A verdade apressa minha hora. Vem, revela a vida que é nova. Abre os meus olhos agora

Nesta parte, o personagem protagonista passa a expor de forma mais objetiva os ideais em que ele acredita. Na sua visão, os indivíduos devem buscar o entendimento para sua existência nas relações existentes entre homem e Deus. Ou seja, que as pessoas devem se deixar guiar pelo caminho da fé. Que através da arte o indivíduo possa “abrir seus olhos”.

Como aponta Rookmaaker em A Arte Não precisa de justificativa:

“Nós não somos humanos dotados de um complemento chamado cristianismo. Não, nossa humanidade reage ao mudo inteiro e à palavra de Deus de uma maneira específica em relação à nossa personalidade” (p.40). [1]

Eu fico com a Escola de Rembrandt, você no Dadaísmo de Berlim

Novamente é descrita correntes de ensinamentos que possuem características que as opõem uma perante a outra. Sempre em relação àquela contradição que vou chamar de artístico-religiosa, citada no início da análise. 

A Escola de Rembrandt - Rembrandt Harmenszoon van Rijn foi um genial pintor e gravador holandês. Considerado o mais importante da história holandesa. Além de ter ficado conhecido por seus autorretratos, e com retratos de grupo, foi com as ilustrações religiosas de cenas da Bíblia que ele ganhou grande fama. A “Escola de Rembrandt” são os pupilos do pintor, que por sua vez tiveram muitos alunos, pois, a técnica de Rembrandt influenciou e continua a influenciar artistas em todo o mundo. [7]

O Dadaísmo é um movimento antipoético, antiartístico, antiliterário, que surge com a clara intenção de destruir todos os sistemas e códigos estabelecidos no mundo da arte. Trata-se, portanto, de uma corrente que questiona até a existência da arte, da poesia e da literatura. Os adeptos deste movimento promovem a mudança, a espontaneidade, a liberdade da pessoa, o imediato, o aleatório, a contradição, defendem o caos perante a ordem e a imperfeição frente à perfeição. [8]

A cidade está cheia de tinta. Na cidade dos homens, tem gente que consegue ver, mas os outros estão cegos pra ti

Assim como em trechos anteriores, aqui o locutor utiliza-se de uma analogia implícita. Em síntese, ressalta que toda forma de representação cultural pode ser comparada com a vida cristã. Contudo, nem todas as pessoas conseguem absorver a arte, o conhecimento, a religião... A fé!

Em sua obra Rookmaaker traz a concepção de um artista voltado para questões espirituais da sua época. Como bem destaca o Marcos Almeida no blog Nossa Brasilidade:

“Ele aspira o que estiver ao seu alcance. As metáforas, os tipos, as palavras, as cenas revelam a poeira do cotidiano”. [9]

Eu monto o paradoxo no palco, você anda zombando da cruz

Esta música em si é feita acerca de paradoxos existentes nas relações humanas, nas suas criações sociais. Montar o paradoxo seria dizer que o personagem locutor formula as questões, expõe as críticas e as contradições que o inquietam. No entanto, os descrentes (interlocutor) também possuem correntes teóricas nas quais servem de sustentação para seus argumentos.

Em síntese, todo indivíduo, em seu espaço, possui sua maneira de expressar ideais. Assim, a arte vai sendo mostrada por cada olhar de forma diferente a cada ser humano. Como bem descreveu Rookmaaker “sem justificativas”.

A cidade está cheia de atores. Na cidade dos homens, tem gente que consegue dizer, mas os outros estão mudos pra ti

Seguindo o padrão que impomos a letra da música, aqui aparece de novo aquela analogia alternada em trechos específicos. Embora com palavras diferentes, os significados adquirem certa semelhança.

As sociedades contemporâneas comportam os mais diversos universos culturais e as pessoas possuem a liberdade de expressarem seus anseios, suas emoções da maneira que as identifique. Alguns dizem viverem norteados pelos ensinamentos cristãos, no entanto, não costumam pratica-los em seu cotidiano, por isso “a cidade está cheia de atores”.

Nem todas as pessoas são capazes de entender como se dá a construção da fé, nem todo mundo se permite acreditar nas palavras do “criador”. Muitos estão néscios, surdos, cegos e mudos para com Deus.

Toda vez que procuro pra mim algo pra ler, ouvir, olhar e dizer, senhor sabe o que eu quero. Não me furto à certeza: és a Vida que eu quero

Por fim, o personagem locutor termina sua fala com uma breve exaltação da sua fé em Deus. Ele tenta repassar a mensagem de que seu cotidiano de vida está diretamente ligado com seu convívio cultural, com a arte, com a religião. Afinal, para ele, existe uma certeza inquestionável: tudo que existe é proveniente da criação divina, portanto, a Deus tudo está de alguma forma centralizado.

Referências:

     

44 comentários:

  1. Muito bom. Melhor análise que encontrei na internet!

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  2. Muito boa análise!!

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  3. Muito Bom mesmo, Melhor análise que encontrei. Ajudou até pra uma resenha minha na faculdade.

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    1. Obrigado Rhaul. Olha que coisa boa de saber, que ajudei alguém com essa reflexão sobre a música ^^ Abraços!

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    1. Obrigado e por nada amigo. Espero mesmo ter ajudado. Abraços!!!

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  5. Eu amo está música! Mas me intrigava saber o que de fato eram tantas informações...que benção! Genial! Obrigada pela imensa contribuição para a ampliação do nosso conhecimento.

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    1. Fico feliz em poder ter contribuído com um pouco de conhecimento sobre a canção. Abraços!

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  6. obrigada amei muito boa.

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  7. De boa, que descrição bem feita hein! Parabéns!

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  8. A melhor análise que eu já li em todos os tempos. Parabéns.

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    1. Obrigado leitor (a). O feedback é sempre valoroso. Abraços

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  9. Esclarecedor! Muito obrigada. Deus lhe abençoe. Mil beijossss...💕

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    1. Eu que agradeço pelo carinho. Deus a abençoe. Outros beijos!

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  10. Djane, você saberia me dizer o ano da composição e o compositor dessa canção?

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    1. bem, eu conheço como sendo do Marcos Almeida, composição, voz e violão do Palavrantiga.

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  11. Parabéns pelo trabalho! Tu faz isso com mais artistas??

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    1. Sim Sandro. Provavelmente estais vendo pela versão do celular. No computador tem o menu de Análise de Músicas. Temos quase 40 lá. Vários artistas, a maioria Engenheiros do Hawaii. Aqui está o link: http://abstracionandopensamentos.blogspot.com.br/p/blog-page_10.html?m=1

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  12. TO CHOCADA ME SENTI IGNORANTE, RSRSRRS.
    MAS SUA EXPLICAÇÃO SOBRE A MUSICA É NOTA 1000.
    MUITO BACANA

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    1. Obrigado, mas sabe que ainda falta corrigir alguns pontos que surgiram como novidade! Com o tempo vamos decifrando os detalhes desta letra magnífica. Aos pouquinhos e com a contribuição dos leitores ^^

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  13. Muito obrigada. Eu estou me programando para ler e ouvir coisas novas e essa música sempre me instigou, mas precisava esclarecer algumas dúvidas na minha mente e sua análise foi essencial. Muito obrigada mais uma vez. Você é genial.

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    1. Muitíssimo obrigado por sua resposta Bru Sales. A letra ainda cabe considerações a serem feitas, mas vou tentar fazer isso em breve. Abraços!

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  14. Excelente análise! Eu já havia entendido as contradições que o Marcos Almeida expõe nessa música, mas sua análise complementou ainda mais. Excepcional o trabalho presente nessa análise, sem mais!

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    1. Obrigado leitor. Música sensacional, e destaco que a análise ainda cabe considerações a serem feitas, algo que buscarei fazer o mais breve possível :D

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  15. Parabéns pela análise precisa e cheia de valiosas informações dessa música que amo espetacular,Marcos Almeida é sensacional,Deus abençoe você

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    1. O Marcos é genial. Informo que a letra ainda cabe considerações a serem feitas, mas vou tentar fazer isso em breve. Abraços e Deus o abençoe.

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  16. SENSACIONAL SUA ANÁLISE, FENOMENAL...

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    1. Obrigado leitor. Com o tempo e a ajuda dos leitores vamos lapidando cada vez mais :D

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  17. Ótima explicação...rica em informações... pensei que fosse até o próprio Marcos Almeida que estava explicando,rsrs rsrsrsrs....espero que ele veja seu trabalho e também comente...

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  18. Os trechos na cidade dos homens...é uma referência a Santo Agostinho que escreveu as obras:
    "Cidade dos homens" falando das imperfeições do ser humano, e "cidade de Deus" como o único lugar onde há perfeição...já que a música traz uma mensagem filosófica

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  19. UAU! Muito boa explicação!Obrigada!

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  20. Tem pessoas capazes de dizer que crer em Jesus é burrice. Eita povo inteligente dessa terra, tanto quem escreveu a canção como quem soube interpretá-la.

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  21. Sensacional! Eu já conhecia algumas das referências da música, mas não tinha captado o que de fato o personagem falava. Deus abençoe meu irmão, continue com esse trabalho sublime. Graça e paz!

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  22. Agora posso ate tocar com a banda na igreja essa música rsrs
    Show de bola amigo.

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  23. Olá Djane,
    acabei de fazer um artigo da faculdade sobre a importância do conhecimento extralinguístico na musica Rookmaaker. busquei ajuda aqui. Deixei seus créditos!! rs, (obrigada!)

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    1. Hey leitor. Fico grato em contribuir. Envia-me depois, se possível, será um prazer ler. joaodjane@gmail.com. Abraços!

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