EXTRAINDO SIGNIFICADOS: ROOKMAAKER - PALAVRANTIGA


"Rookmaker" é a décima segunda faixa do álbum "Esperar é Caminhar", lançado no ano de 2010 pela banda mineira de rock alternativo Palavrantiga.

Eu leio Rookmaaker, você Jean-Paul Sartre

A música começa com um personagem citando em primeira pessoa do singular características artístico/literárias que se diferenciam entre ele e um possível interlocutor. Neste diálogo ele esclarece a diferença de leitura ideológica que ambos possuem. É como se ele estivesse dizendo isso para ressaltar o quanto diferente e contraditórios são os seus pensamentos para com o do seu ouvinte.

Obs. 01: Rookmaaker: Henderik Roelof “Hans” Rookmaaker foi um escritor holandês adepto ao cristianismo. Escreveu a respeito da ambiguidade sobre a arte entre os cristãos e da ambiguidade sobre a fé entre os artistas. Para ele, qualquer discussão sobre o papel da arte deve ser precedida por uma afirmação básica: a arte não precisa de justificativa - nem por motivos religiosos ou propósitos evangelísticos, nem por fins econômicos ou políticos.

Obs. 02: Jean-Paul Sartre: Filósofo francês ateu convicto desde os doze anos de idade, avaliava que a “existência precede a essência” e isso significa dizer que há uma liberdade responsável que o homem manifesta ao escolher sua própria vida e nada, nem mesmo Deus, pode justificar o homem ou retirá-lo de sua liberdade total e absoluta, ou ainda salvá-lo de si mesmo.

A cidade foi tomada pelos homens, na cidade dos homens tem gente que consegue ler, mas os outros estão néscios pra ti

A partir deste trecho vamos identificando que a letra faz um paralelo entre as maneiras de viver de um cristão que segue a risca os preceitos de sua religião, que busca a santidade e a expressão de sua fé por meio da manifestação artística, e pessoas que baseiam seu viver em uma vida afastada dos ensinamentos de Deus.

É como se o locutor dissesse que certa parcela das pessoas que a compõem a sociedade atual não consegue prender-se aos ensinamentos religiosos, ou seja, aos preceitos advindos da fé cristã (fé em Jesus Cristo, em sua ética e sua promessa de redenção).

Há aquelas pessoas que realmente conseguem pôr em prática a fé cristã (conseguem ler), contudo, outra parte está ignorante (néscios) para com os ensinamentos que pregam o cristianismo (canal mediador entre Deus e os seus fiéis).

Eu canto Keith Grenn, você canta o quê?

Aqui há um outro questionamento feito pelo locutor ao indivíduo que o escuta. Ele mais uma vez o provoca indiretamente em relação às normas religiosas e artísticas em que ambos acreditam e seguem.

Obs. 03: Keith Gordon Green: Foi um cantor e multi-instrumentista gospel americano. Compunha, interpretava e tocava. Depois de ter experimentado todas as drogas que o mundo de até então oferecia, o judeu Keith Green passou a se interessar por misticismo oriental e o chamado "amor livre". Então ele dedica sua vida aos ensinamentos religiosos. Começa a trabalhar ao lado de sua esposa em um programa de evangelização de prostitutas, drogados e sem-teto nos subúrbios, que recebiam, além do evangelho, atenção e cuidados. 

A cidade está cheia de sons, na cidade dos homens tem gente que consegue ouvir, mas os outros estão surdos pra ti

A canção busca denotar a importância dos mais diversos movimentos artísticos e literários. Que as pessoas devem ser conhecedoras da cultura, da religião além das instituições formais/informais que pregam o saber. Aqui segue o mesmo princípio do trecho anterior, fala da relação entre crentes e descrentes para com a religião e toda a complexidade que envolve o entendimento da fé.

Vem, jogando tudo pra fora. A verdade apressa minha hora. Vem, revela a vida que é nova. Abre os meus olhos agora

Aqui o personagem passa a expor de forma mais liberada os ideais em que ele acredita. Na sua visão os indivíduos devem buscar o entendimento para sua existência nas relações existentes entre homem e Deus. Ou seja, desprender-se de teorias e se deixar guiar pelo caminho da fé. Que através da arte o indivíduo possa “abrir seus olhos”.

“Nós não somos humanos dotados de um complemento chamado cristianismo. Não, nossa humanidade reage ao mudo inteiro e à palavra de Deus de uma maneira específica em relação à nossa personalidade” - A arte não precisa de justificativa - Hans R. Rookmaaker (p. 40).

Eu fico com a Escola de Rembrandt, você no Dadaísmo de Berlim

Novamente é descrita correntes de ensinamentos teóricos que possuem características que as opõem uma perante a outra. Sempre em relação àquela contradição que vou chamar de artístico-religiosa, citada no início da análise. 

Obs. 04: Rembrandt van Rijn: Foi um genial pintor e gravador holandês. Considerado o mais importante da história holandesa. Além de ter ficado conhecido por seus autorretratos, e também com retratos de grupo, foi com as ilustrações religiosas de cenas da Bíblia que ele ganhou grande fama. A “Escola de Rembrandt” são os pupilos do pintor, que por sua vez tiveram muitos alunos, pois a técnica de Rembrandt influenciou e continua a influenciar artistas em todo o mundo.

Obs. 05: Dadaísmo de Berlim: O Dadaísmo surge com a clara intenção de destruir todos os sistemas e códigos estabelecidos no mundo da arte. Trata-se, portanto, de um movimento antipoético, antiartístico, antiliterário, visto que questiona até a existência da arte, da poesia e da literatura. O dadaísmo é uma ideologia total, usada na forma de viver e como a absoluta rejeição de todo e qualquer tipo de tradição ou esquema anterior. Os adeptos deste movimento promovem uma mudança, a espontaneidade, a liberdade da pessoa, o imediato, o aleatório, a contradição, defendem o caos perante a ordem e a imperfeição frente à perfeição. 

A cidade está cheia de tinta, na cidade dos homens tem gente que consegue ver, mas os outros estão cegos pra ti

Assim como em trechos anteriores, aqui o locutor utiliza-se de uma analogia implícita. Em síntese, ressalta que toda forma de representação cultural pode ser comparada com a vida cristã. Contudo, nem todas as pessoas conseguem absorver a arte, o conhecimento, a religião... A fé!

Eu monto o paradoxo no palco, você anda zombando da cruz

Esta música em si é feita acerca de paradoxos existentes nas relações humanas, nas suas criações sociais. Montar o paradoxo seria dizer que o personagem locutor formula as questões, expõe as críticas e as contradições que o inquietam. No entanto, os descrentes (interlocutor) também possuem correntes teóricas nas quais servem de sustentação para seus argumentos.

Em síntese, todo indivíduo, em seu espaço, possui sua maneira de expressar ideais. Assim a arte vai sendo mostrada por cada olhar de forma diferente a cada ser humano. Como bem descreveu Rookmaaker “sem justificativas”.

A cidade está cheia de atores, na cidade dos homens tem gente que consegue dizer, mas os outros estão mudos pra ti

Seguindo o padrão que impomos a letra da música, aqui de novo aquela analogia alternada em trechos específicos, é exibida. Contudo, com palavras diferentes, mas com significados que adquirem certa semelhança.

As sociedades contemporâneas comportam os mais diversos universos culturais, as pessoas possuem a liberdade de expressarem seus anseios, suas emoções da maneira que as identifique.

Alguns dizem crer nos ensinamentos cristãos, no entanto, não costumam os praticar em seu cotidiano, por isso “a cidade está cheia de atores”. Nem todas as pessoas são capazes de entender como se dá a construção da fé, nem todo mundo se permite acreditar nas palavras do “criador”. Muitos estão néscios, surdos, cegos e mudos para com Deus.

Toda vez que procuro pra mim algo pra ler, ouvir, olhar e dizer, senhor sabe o que eu quero. Não me furto à certeza: és a Vida que eu quero

Por fim nosso personagem termina sua fala com uma breve exaltação da sua fé em Deus. Ele tenta repassar a mensagem de que seu cotidiano de vida está diretamente ligado com seu convívio cultural, com a arte, com a religião. Afinal, para ele existe uma certeza inquestionável: tudo que existe é proveniente da criação divina, portanto, a Deus tudo está de alguma forma centralizado.

41 comentários:

  1. Muito bom. Melhor análise que encontrei na internet!

    ResponderExcluir
  2. Muito boa análise!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigado. Fico honrado que tenha gostado.

      Excluir
  3. Muito Bom mesmo, Melhor análise que encontrei. Ajudou até pra uma resenha minha na faculdade.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado Rhaul. Olha que coisa boa de saber, que ajudei alguém com essa reflexão sobre a música ^^ Abraços!

      Excluir
  4. Respostas
    1. Obrigado e por nada amigo. Espero mesmo ter ajudado. Abraços!!!

      Excluir
  5. Eu amo está música! Mas me intrigava saber o que de fato eram tantas informações...que benção! Genial! Obrigada pela imensa contribuição para a ampliação do nosso conhecimento.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Fico feliz em poder ter contribuído com um pouco de conhecimento sobre a canção. Abraços!

      Excluir
  6. Respostas
    1. Obrigado Caroline! Essa música é maravilhosa! Abraços.

      Excluir
  7. obrigada amei muito boa.

    ResponderExcluir
  8. De boa, que descrição bem feita hein! Parabéns!

    ResponderExcluir
  9. A melhor análise que eu já li em todos os tempos. Parabéns.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado leitor (a). O feedback é sempre valoroso. Abraços

      Excluir
  10. Esclarecedor! Muito obrigada. Deus lhe abençoe. Mil beijossss...💕

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu que agradeço pelo carinho. Deus a abençoe. Outros beijos!

      Excluir
  11. Djane, você saberia me dizer o ano da composição e o compositor dessa canção?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. bem, eu conheço como sendo do Marcos Almeida, composição, voz e violão do Palavrantiga.

      Excluir
  12. Parabéns pelo trabalho! Tu faz isso com mais artistas??

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim Sandro. Provavelmente estais vendo pela versão do celular. No computador tem o menu de Análise de Músicas. Temos quase 40 lá. Vários artistas, a maioria Engenheiros do Hawaii. Aqui está o link: http://abstracionandopensamentos.blogspot.com.br/p/blog-page_10.html?m=1

      Excluir
  13. TO CHOCADA ME SENTI IGNORANTE, RSRSRRS.
    MAS SUA EXPLICAÇÃO SOBRE A MUSICA É NOTA 1000.
    MUITO BACANA

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado, mas sabe que ainda falta corrigir alguns pontos que surgiram como novidade! Com o tempo vamos decifrando os detalhes desta letra magnífica. Aos pouquinhos e com a contribuição dos leitores ^^

      Excluir
  14. Muito obrigada. Eu estou me programando para ler e ouvir coisas novas e essa música sempre me instigou, mas precisava esclarecer algumas dúvidas na minha mente e sua análise foi essencial. Muito obrigada mais uma vez. Você é genial.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muitíssimo obrigado por sua resposta Bru Sales. A letra ainda cabe considerações a serem feitas, mas vou tentar fazer isso em breve. Abraços!

      Excluir
  15. Excelente análise! Eu já havia entendido as contradições que o Marcos Almeida expõe nessa música, mas sua análise complementou ainda mais. Excepcional o trabalho presente nessa análise, sem mais!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado leitor. Música sensacional, e destaco que a análise ainda cabe considerações a serem feitas, algo que buscarei fazer o mais breve possível :D

      Excluir
  16. Parabéns pela análise precisa e cheia de valiosas informações dessa música que amo espetacular,Marcos Almeida é sensacional,Deus abençoe você

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O Marcos é genial. Informo que a letra ainda cabe considerações a serem feitas, mas vou tentar fazer isso em breve. Abraços e Deus o abençoe.

      Excluir
  17. SENSACIONAL SUA ANÁLISE, FENOMENAL...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado leitor. Com o tempo e a ajuda dos leitores vamos lapidando cada vez mais :D

      Excluir
  18. Ótima explicação...rica em informações... pensei que fosse até o próprio Marcos Almeida que estava explicando,rsrs rsrsrsrs....espero que ele veja seu trabalho e também comente...

    ResponderExcluir
  19. Os trechos na cidade dos homens...é uma referência a Santo Agostinho que escreveu as obras:
    "Cidade dos homens" falando das imperfeições do ser humano, e "cidade de Deus" como o único lugar onde há perfeição...já que a música traz uma mensagem filosófica

    ResponderExcluir
  20. UAU! Muito boa explicação!Obrigada!

    ResponderExcluir
  21. Tem pessoas capazes de dizer que crer em Jesus é burrice. Eita povo inteligente dessa terra, tanto quem escreveu a canção como quem soube interpretá-la.

    ResponderExcluir
  22. Sensacional! Eu já conhecia algumas das referências da música, mas não tinha captado o que de fato o personagem falava. Deus abençoe meu irmão, continue com esse trabalho sublime. Graça e paz!

    ResponderExcluir

Tecnologia do Blogger.