RODOVIÁRIA


Por: Djane Assunção - @mestre_djane

A maioria das pessoas diz que sonha em realizar grandes viagens, conhecer lugares, gente nova, paisagens e outras coisas características a quem não abre mão de estar sempre na estrada. Eu particularmente não gosto muito de viagens, não que eu não adore conhecer pessoas novas, lugares e etc., mas pelo fato de que quando falam em viajar só me vem à mente noites sem dormir em ônibus lotados. Viajar me faz lembrar-se do sentimento que me persegue sempre que me encontro na metade do caminho, aquela sensação desagradável, imprecisa, sentida no abdômen e que pode ser seguida de vômito. Sem falar do tradicional choro de criança que parece definhar meus neurônios a cada nova parada nas rodoviárias das minhas agonias.

Madrugada, domingo, três dias antes do natal. Madrugada, Terça-feira, dois dias para o início dos festejos carnavalescos. Madrugada, sábado, quarenta e sete minutos para o dia das mães.

Do meu lado esquerdo uma senhora contava a quantidade de gotas de dipirona que tentava pôr em um copinho azul, um com desenhos detalhados das três meninas superpoderosas. Talvez se ela soubesse que a substância cristalina usada como analgésico e antipirético é desaconselhável por causar agranulocitose, ela não tinha ficado ali, desesperada para cessar a dor de cabeça que fazia questão de reclamar em voz alta. A criança de uns cinco anos de idade ao lado da senhora não parava de chorar um só segundo, e tenho certeza que ela foi a grande causadora das dores na mulher, que me parecia ser sua avó. Juro que se o ônibus para Maceió tivesse demorado mais alguns minutos eu ia dar um chilique com aqueles dois.

A televisão posicionada na parte central da grande e fria rodoviária era um consolo para as almas impacientes. Injuriadas com o atraso dos ônibus reclamavam até da atuação do Stallone. O filme: mercenários 2. O lado direito da terceira fileira de cadeiras a minha frente prendia mais minha atenção do que a impetuosa destruição de coisas que o filme mostrava, o nosso entretenimento barato de cada dia. Mulata, dezoito a vinte anos, olhos bem arredondados e com uma maquiagem tão bem feita que seu olhar falava mais que qualquer palavra que sua voz suave pronunciava.

Meus olhos ardiam muito, efeito dos pequenos abscessos que insistem em nascer nas bordas das minhas pálpebras, contudo, eu fazia questão de não os fechar. Queria ficar ali, observando aquela moça estranha que me encantava em mais outra madrugada frígida que enfrentava. Quando se levantou para olhar sua bagagem pude ver o símbolo da universidade que possivelmente ela frequentava, com o nome de medicina veterinária bordado em violeta logo abaixo. Doze minutos após, a segui descaradamente com o olhar enquanto ela e suas duas amigas corriam desesperadamente para chegar primeiro na fila de atendimento, que em fração de segundos se acumulava no portão de embarque para Natal, a capital potiguar.

Restava-me então acompanhar o filme enquanto o ônibus com destino a terra da luz não chegava. Não me surpreenderia se ele atrasasse uns quarenta minutos, já era como que uma tradição para a bendita empresa que deveria ter como seu slogan algum trocadilho sobre noivas, pois jamais chegava no horário previsto, causando o angustiante estresse da espera.

Quando o horário esperado para a chegada do ônibus foi alcançado, qualquer outro barulho que parecesse de automóvel me fazia despertar do transe que minha mente habitua absorver quando costumo esperar ansiosamente por algo. À medida que o atraso iminente já era realidade, passeei meu olhar em giro perfeito com a cabeça e pude observar pouquíssimas pessoas ali sentadas, todas angustiadas e com olhos de cachorro com fome. Pela quantidade de indivíduos, no mínimo setenta por cento iria viajar no mesmo ônibus que eu.

Com as minhas pernas desassossegas e mãos suadas, a todo tempo erguia minha cabeça a fim de enxergar o letreiro dos ônibus que chegavam. Uma coisa que me deixa extremamente desconfortável é o fato de sempre que se dá o horário predito para meu embarque, me vem subitamente uma vontade de urinar. Isso acontece mesmo que faça poucos minutos que eu tenha ido ao sanitário. Tempos depois descobri que é um distúrbio psicológico, efeito de momentos de extrema ansiedade.

Passaram-se cinquenta e três minutos depois do horário que foi anunciado para o ônibus chegar. A essa altura meus olhos lutavam para se manterem abertos e eu tentava a todo custo ficar acordado, logo, estava cercado por pessoas estranhas. Até que por um momento senti meu corpo mais leve, parecia que eu estava correndo por sobre nuvens. Era tudo tão belo, o ar puro, os pássaros ao meu redor, a visão da casa de meus pais bem pequenina lá embaixo, estava tão confortante. Então subitamente tudo escureceu! Acordei assustado e em um estado de amnesia temporário, até que a pergunta do senhor com uniforme azul recobriu minha consciência.

- Meu filho, você vai naquele ônibus que acaba de chegar?

Sentindo meu pescoço dolorido, elevei a cabeça e ainda com a visão perturbada li o néon do letreiro do ônibus e lhe respondi:

- Sim senhor, aquele é meu ônibus!

Agradeci duas vezes a gentileza do homem, acho que um funcionário da limpeza que me notou dormindo sozinho nas cadeiras, enquanto as pessoas brigavam por um lugar na fila de embarque. Fui desesperadamente e novamente ao banheiro, urinei um líquido tão amarelo que parecia que eu não bebia água há um dia. Lavei as mãos e nem me dei ao luxo de secá-las no secador, joguei elas nos bolsos e sai apressado para o portão de embarque que já estava praticamente vazio, pois as pessoas que iam embarcar já estavam quase todas dentro do ônibus.

Quando terminei de cumprir as normas de embarque da rodoviária e da empresa, subi naquele ônibus praticamente exausto mentalmente, como se eu tivesse ficado jogando videogame por umas dezesseis horas seguidas. Sentei na poltrona vinte e três e por sorte, ao meu lado ia uma senhora de meia idade que dormia sossegadamente e nem me notou passar entre ela e a cadeira da frente, pois eu estava reservado a sentar na poltrona da janela.

Depois de preparar devidamente o sagrado playlist de músicas que é minha terapia para suportar longas viagens, abri toda a cortina que encobria a janela de vidro temperado e passei a fazer o que eu considero a maior vantagem de viajar no período noturno, que é observar o céu e toda a paisagem banhada pelo brilho das noites de luar. É uma sensação sem igual, que nos faz dar uma volta na consciência, no espírito, refletir sobre si mesmo para examinar o seu próprio conteúdo por meio do entendimento, da razão. Fico horas ali nesse estado de embriaguez mental, que só é interrompido pelas luzes do corredor do ônibus se acendendo e pelo sobe e desce de corpos que para mim parecem nunca terem um rosto.

Inscreva-se no canal do blog: http://bit.ly/2uO3Fbe
Segue também no Insta: @abstra_pensa ou http://bit.ly/2vNZWrk
Passa na página do Facebook: https://www.facebook.com/abstrapensa

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A LETRA DA MÚSICA: COMO NOSSOS PAIS - BELCHIOR/ELIS REGINA

DESGESSINGERIANDO: PRA SER SINCERO - ENGENHEIROS DO HAWAII

EXTRAINDO SIGNIFICADOS: FÁTIMA - RENATO RUSSO/CAPITAL INICIAL