LAMENTO: PARTE III - FINAL


Ajeitou-se de forma que se considerasse estar novamente com a elegância anterior e foi caminhando de volta ao ambiente principal do recinto. Quando virou-se em direção à mesa que os dois se situavam, sentiu seus olhos queimarem, sua garganta seca, suas pernas tão pesadas que parecia que ele estava com bolsas de areia amarradas as suas panturrilhas. Em uma cena que ele não sabia se lhe causava ódio ou nojo, viu  diante de si, a mulher que tanto amava abraçada a um senhor de cabelos brancos, que a beijava na boca com tanta vontade que parecia que ia devorá-la. Por um momento não sabia que fazer, ficou estático observando como ela sorria e acariciava a nuca daquele senhor. O velho levantou-se e com sua mão esquerda segurava a mão direita dela e com a outra mão puxou um anel tão brilhante que reluzia na bandeja do garçom que servia vinho na mesa ao lado deles.

Ele continuava sem reação, extasiado, sem forças para ir adiante até o aparente casal. Depois de ela deixar o velho pôr o anel em seu dedo, levantou-se e o abraçou de maneira bem intensa, como se estivesse emocionada e muito feliz. Naquele momento ele recuou de volta ao corredor do banheiro e tentou recuperar o fôlego que tinha fugido de seus pulmões. Respirou lentamente, enxugou o suor frio do rosto e um pouco mais consciente caminhou em retorno a sua posição. Ao virar na direção da cena, que até o momento ele tentava impor a sua consciência ter sido um delírio seu, visualizou a mesa vazia e o garçom recolhendo os pratos e garrafas que por lá se encontravam.

Correu descaradamente para o fim do estabelecimento, no local que presenciou tal drama, e indagou ao funcionário que estava fazendo seu trabalho onde tinham ido às pessoas que naquela mesa se afagavam. O rapaz apontou na direção da porta de saída, então ele novamente correu a fim de poder encontrar o que ele ainda acreditava ser sua namorada e o velhote que a acompanhava.

Ao abrir a porta de vidro e sair do local, foi recebido por fortes gotas de chuva que caíam continuadamente sobre ele e todo o espaço geográfico ao seu redor. Não se importando com a chuva que encharcava sua roupa e a caixa que ele não soltou um só segundo após sair do carro, procurou desesperadamente onde estava o casal. A chuva estava tão intensa que ele mal podia manter seus olhos abertos. Pôs uma mão acima dos olhos no intuito de cessar as gotas de água que o impediam de enxergar com nitidez.

Adiante uns cinquenta metros de onde ele estava, pôde observar o senhor segurando um guarda-chuva que servia de proteção para ele e a bela moça que continuava sempre ao seu lado. O velho Abriu a porta do carro importado, beijou novamente ela de forma intensa e então entrou no automóvel. Fração de segundos após o senhor entrar no carro, ela olhou na direção em que o jovem desolado estava situado observando, não se pode dizer se ela o viu. Logo em seguida ela também adentrou ao veículo. O velho ligou o Audi de cor prata e os dois se perderam em meio à densa chuva daquela tarde fria.

Em estado de incredulidade, o abatido rapaz caminhou em direção ao banco da praça que se situava próximo ao local que contemplou a cena. A chuva cada vez mais intensa decaía sobre seu rosto e se misturava as suas lágrimas. Sentado em meio à tormenta advinda dos céus, com a cabeça baixa, olhou fixamente a caixa ensopada que se encontrava em suas mãos. O vento soprava com força sobre as árvores que mal se sustentavam, enquanto a água começava a inundar a pavimentação asfáltica do local ao redor das bocas de lobo que por perto tinham sido construídas. Ele desembrulhou o papel, recolheu o objeto que nele se encontrava, o pôs no bolso esquerdo de sua calça e saiu caminhando por entre as ruas totalmente tomadas pelo caos que a tempestade daquela tarde provocava. Caminhou sem se importar com todo o tormento a sua volta, até que seu corpo se perdeu na escuridão da noite que ali chegou.

[...]

Toda ação tem como percussora um conhecimento especulativo e meramente racional, ao qual se denomina teoria. O pensamento é a força criadora primordial para se dá início a vontade de se conquistar, realizar ou criar determinada coisa. Sonhos são feitos de desejos que se tornam muito fortes, vontades que vão de encontro à aceitação da realidade. Quando vemos uma pessoa pela primeira vez e nos atraímos por ela, não estamos sendo seduzidos por seu caráter, mas sim pelo seu corpo que causa uma espécie de energia que perpassa a compreensão física. Uma atração que faz com que o pensamento seja elevado a um grau de entusiasmo muito vivo por algo. Porém, infelizmente é impossível conhecer a personalidade de alguém em poucos minutos, ou mesmo em uma vida inteira! Uma vez que as pessoas possuem o dom da manipulação, da falsidade. Isso sim é verdadeiramente lamentável.


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