LAMENTO: PARTE I DE III


Por: Djane Assunção - @mestre_djane

Lamentar é uma coisa tão fácil, talvez por isso nascemos chorando. Lamentamos por estarmos prestes a fazer parte de um mundo deturbado. Enquanto crescemos deploramos por não termos uma família que nos criou em berço de ouro. Lamentamos porque não tivemos a chance que o amigo da casa ao lado teve, até mesmo estando seguro de ser um sujeito mais talentoso que ele. Embora seja complicado entender como o tempo manipula nossos caminhos, quando se trata de relacionamentos é que se pode perceber como os homens são frágeis. Nesse momento é incrível ver como o lamento é mais um conforto que um tormento.

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Corpo de menina, olhos de mar e um caráter de Artigo 213. Mulher menina ou menina mulher? A ordem dos enganos não altera a proporcionalidade das ações. Delicada, envolve a fraqueza mortal do sexo masculino, ludibria a carência por um motivo, a incessante busca pela razão, pela compensação da responsabilidade criada pela sociedade. Enclausurada pela vaidade ela tenta a todo custo alcançar o seu real objetivo, uma busca imprevisível por um sórdido desejo de poder. Aproxima-se devagarinho por entre as palavras mal ditas, as revelações súbitas, pelas frases construídas sob a irresponsabilidade do momento. Escolhe o melhor terreno para construir a ponte que pode levá-la ao encontro da sua “terra prometida”.

Ser independente é mais uma obrigação do que uma escolha, para um jovem de dezenove anos que se sente abandonado por sua família. Forte pela experiência proporcionada pela vida sua mente foi urdida pelo sofrimento da solidão. Moldar o cotidiano pode ser algo viável, na medida em que desde cedo se é obrigado a aceitar a derrota como parte do viver, difícil é encontrar alguém que possa entender que ser sozinho não é uma opção própria, uma escolha. Criar uma identidade que engradeça suas características serve para ocultar o medo do desprezo, é uma maneira de refugiar as sombras que cercam sua consternação. É provável que toda a riqueza material que ele conquistou seja fruto de uma perseverança motivada pela dor, pela necessidade de ser notado.

Em um primeiro momento é difícil entender como personalidades tão opostas, caminhos tão distintos conseguem entrecruzarem seus desejos. Nos dias atuais, brincar de amar se tornou algo tão assustadoramente banal que até mesmo pessoas com índole tão adversas aceitam assumir o peso de um relacionamento, mesmo que saibam que se destina ao fracasso.

Ela aproximou-se dele subitamente, inesperada como um gol aos 49 - aqueles na bacia das almas - e em poucos dias já estavam os dois trocando juras atemporais e se comprometendo por status. Cercados por olhares desconfiados buscavam cada vez mais suprir as necessidades que suas mentes carentes de sentido almejavam. Se pelo lado dela as coisas caminhavam de acordo com a previsibilidade, ele estava encantado com a promessa de poder construir uma vida que nunca teve.

Ao passo que os beijos se tornavam mais frequentes e os abraços mais apertados, os sentimentos se intensificavam e consequentemente as ações eram afetadas. A paixão é sempre contraditória, se entregar inteiramente a esse sentimento significa abdicar do senso de racionalidade. Ele estava completamente apaixonado por ela. Morria de ciúmes até de uma mexida natural no cabelo ou de um olhar mais curioso. Ela sabia perfeitamente disso, tanto que era capaz de manipular o sentimento de ciúme como uma estratégia para aliviar seu ego e medir o grau de interesse de seu parceiro. No ponto de vista do verdadeiro amor sua atitude é considerada algo desprezível e repugnante, no entanto, para o pensamento de uma jovem com um feitio frio e egoísta, o ciúme se torna uma ferramenta de alto valor.

Continua... No capítulo II de III

Música sugerida para este texto: A cera - O Surto

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