QUARTO DE DORMIR


Por: Djane Assunção - @mestre_djane

Acordar sozinho é algo deprimente, tão igual como ver seu time de futebol sendo escalado com três volantes e precisando muito ganhar. Tudo bem, a comparação pareceu ridícula, mas quem costuma se deparar com essas situações sabe como é consternador. Porém, em um jogo de futebol, no decorrer da partida é possível substituir determinado jogador podendo modificar completamente o comportamento da equipe, e consequentemente uma possível mudança do resultado final do jogo. Diferente dos participantes de uma partida futebolística, o destino não proporciona substituições ao passo que nossas vontades assim possam desejar.

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O quarto que um dia foi encoberto com o ébrio da sedução parece tão fosco que nem mesmo o albedo das paredes recém-pintadas de branco dá vida as cores da solidão. Dormir sozinho, acordar sozinho, amar sozinho, tudo isso quase nunca é uma escolha, mas sim uma imposição desconfortante. A cama de casal mais parece um recôncavo de esquecimento do que propriamente um lugar de descanso.

O arrefecimento das luzes que decaia sobre as casas mais altas do lado nobre da cidade anunciava o fim do brilho de mais um dia de inverno. A noite engolia a agonia dos transeuntes apressados, ao passo que encobria a eminente poluição que pairava por cima das cabeças que se moviam confusas em todas as direções. No quarto os lamentos proporcionados pelo viver mortal que é destinado a todo ser vivo eram esquecidos, olvidados pelo entrecruzar dos braços, pela simplicidade dos sorrisos que observavam pela janela do pequeno quarto, o anoitecer. Entretanto, a maioria das noites era necessário buscar conforto nos travesseiros e no calor das cobertas. A enorme extensão de solidão da cama só era aliviada pelas lembranças das madrugadas preenchidas pela presença do amor, e principalmente pela certeza da próxima noite de desejo.

Atualmente os fins de tardes são tão longos que parece que a noite não aparecerá novamente. Observar a rua significa juntar à aflição de um quarto frio com a tristeza emitida pelas almas sedentas de suas casas, novamente mortas por trabalhos de necessidade. A pureza de uma noite de sono simplesmente não existe, é cotidianamente consumida por fantasmas que insistem em querer assombrar os quatro metros de rancor. Queimar as fotos, trocar os lençóis, renovar a pintura, as ações impensadas que buscam apagar traços físicos de uma presença são movidas por um ódio que se tornou constante.

A pior parte de construir uma história de paixão é ter que destruí-la após sua escassez de sentido. O fim de um romance pode causar danos mentais que nem mesmo a mais radical das mudanças físicas pode amenizar. É impossível fugir do que não se pode esquecer. Só se percebe realmente a intensidade de um pensamento que não sai da cabeça a partir do momento que situações que deveriam ser extremamente prazerosas, ressuscitam a lembrança do que um dia foi real.

Mudam-se os quartos, mudam-se as pessoas que alimentam os desejos, mudam-se os lençóis, o que não muda é a falta de sentido. De nada adianta dormir cercado de amores de uma noite se eles não conseguem suprir a necessidade de verdades que dormem e acordam constantemente na lembrança.

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Assim como no futebol, no jogo do amor os jogadores são submetidos à imprevisibilidade que se sucede cada acontecimento, no entanto, o amor não tolera tática, não existem padrões definidos ou esquemas de jogo. As regras impostas pelos que decidem se entregar a partida são norteadas pelo mais cruel dos árbitros, um que não aceita erros. Que molda o acaso de cada jogada antes mesmo que ela aconteça, um juiz denominado de Destino. A complexidade existente no jogo do amor pode fazer a mais emocionante e inusitada partida de futebol parecer tão previsível quanto o próximo anoitecer.

Música sugerida para este texto: Quarto de dormir - Marcelo Jeneci

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