NECESSIDADE


Por: Djane Assunção - @mestre_djane

É madrugada, a porta do quarto não está trancada e isso me deixa meio tenso. O suor começa a escorrer lentamente na minha testa fria e franzida. Estou deitado, meus pés se contorcem enquanto meus dentes superiores torturam meus lábios. É difícil acreditar que aquela porta realmente não está trancada. Enquanto sinto meu corpo contrair de forma lenta, penso em coisas que eu jamais sonharia fazer, isso faz com que o suor escorra cada vez mais constante.

A porta continua sem trinco! O quarto com apenas a luz de um celular que toca repetidamente o mesmo álbum de Zé Ramalho permite que eu levante um pouco a cabeça e veja meus pequenos pés se contorcendo. Concentro-me rapidamente na minha respiração devagar e profunda, devaneio entre momentos de puro alívio e segundos de falta de ar. Sei que não se passaram nem três minutos, mas naquele momento é como se eu estivesse há horas ali, sendo vigiado através da porta que não tive coragem de trancar. 

Depois de mais alguns minutos imaginando o invisível e com o corpo extasiado, recupero a sobriedade e me pergunto por que faço aquilo? Não encontro a resposta, mas depois de acender a luz e limpar o suor com a camisa, reflito sobre qual o porquê de eu sempre buscar desejo no que não me pertence. Sei que muitas pessoas estão fazendo a mesma pergunta e isso acaba por sanar superficialmente parte da minha culpa. Olho para a porta e não tenho certeza se realmente está na hora de eu escancará-la ou de trancá-la de vez. 

Levanto-me e agora estou parado em pé segurando o braço direito com o esquerdo. O suor novamente volta a lavar meu rosto. A circulação do sangue entre meus dedos dos pés volta ao seu estado normal, no entanto, minhas pernas estão trêmulas. As luzes dos postes desmembram as brechas das janelas e cegam por um momento a minha visão.

O latir dos cães do outro lado da rua me acorda do súbito momento de transe, isso me lembra de que devo ir além da porta e indagar minha índole em frente ao espelho. Os olhos fundos com olheiras de ontem já não enxergam o invisível, apenas as minhas mãos brancas de remorso. A consciência desvirtuada agora não sente mais a angústia de antes, logo, a porta do banheiro se encontra totalmente fechada com o trinco.

Música sugerida para este texto: Chão de giz - Zé Ramalho

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