FRIAS MENTIRAS


Por: Djane Assunção - @mestre_djane

Todas as tardes com chuva parecem ser eternas, trazem ao pensamento memórias que ressuscitam demônios e elucidam dores que se encontravam adormecidas. Quando se olha pela janela da solidão não se enxerga o horizonte que delimita a metade do edifício em frente, logo, o cinza da névoa fria e das gotas de chuva encobre a visão. Nesse momento, qualquer ser humano em estado de martírio cospe suas verdades para fora, mesmo que sua alma tente resistir. É inútil tentar procurar a linha do horizonte, portanto, é melhor buscar razão nas verdades forjadas pela carência. Renato Russo uma vez cantou que mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira, ele tem razão, mas isso não é necessariamente um fato universal. Quando não é possível delinear verdades, algumas mentiras podem ser a salvação para o esquecimento próprio.

São exatamente 15h23min informa meu celular que está com o visor quebrado. Confio em suas informações, elas são programadas por mim, são universais, mesmo que eu descubra que após mais uma queda ele atrase cerca de 1 minuto, contudo, ele não está mentindo, apenas remodelou a verdade ideada. A agenda do meu outro celular está repleta de algumas mentiras que faço questão de manter sempre visível, ali, prontas para se transformarem em verdades em algum momento.

A chuva esfria não somente os ladrilhos da rua, mas congela e consome a esperança que eu tentava construir enquanto contava a quantidade de apartamentos do edifício imponente a minha frente. Passo a questionar meu caráter enquanto deslizo os contatos um a um, renomeados de acordo com meu humor. Seleciono as minhas mentiras mais confortantes e tento delimitar a melhor para buscar uma veridicidade que por hora se encontra ausente em meu coração.

Algumas semanas antes eu não tinha dúvidas que estava caminhando ao encontro de uma possível certeza, que me parecia tão sensata que por muitas vezes pensei em largar minhas bases reais e apostar em um futuro que se mostrava programado. Essa atitude não foi responsável diretamente pelo meu declínio, contudo, talvez tenha sido o que tenha me feito acreditar que o destino foi criado por algo com o senso crítico de um adolescente embirrado.

Ah cara... Como eu agradeço pelas tardes de chuva não serem eternas! A diminuição da frequência das gotas que caem me faz sair desesperado para a janela a fim de retomar a pouca esperança que me vinha. Mas ao abrir a janela já é noite, e mal consigo ver os limites dos apartamentos do edifício e muito menos o horizonte por trás de sua imperialidade de concreto e aço.

A chuva se foi, mas levou muito mais que o lixo das ruas, levou meu exíguo ânimo, aquele que eu planejava ter à noite. Sendo assim, é melhor ser mais rápido na escolha da minha próxima tentativa de alcançar a verdade que pode me trazer o encanto de viver. Quem sabe amanhã a mentira que eu acredito que me sana a falta das minhas necessidades, possa se tornar rotina, e mais, possa deixar de ser apenas mais uma mentira e ganhe notoriedade na minha agenda, e principalmente nos meus pensamentos.

“No momento em que ela se lhe revela... inspiração e expressão vão de par, indivíduo e universo consubstanciam-se, eu e não-eu integram-se.” (João Gaspar Simões, Liberdade do Espírito, p. 34).

Música sugerida para este texto: Quase sem querer - Maria Gadú

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