DESGESSINGERIANDO: O OLHO DO FURACÃO - ENGENHEIROS DO HAWAII


A canção “O Olho do Furacão” é a faixa 06 do álbum “Tchau Radar” de 1999 da banda gaúcha. Segundo o Humberto Gessinger (músico líder dos Engenheiros do Hawaii), no Making of que compõe o DVD "10.00 Destinos Ao Vivo" do ano seguinte, ele fala que essa canção, junto com a faixa de número 05 “Nada Fácil”, compõe a parte de uma mesma história.

A música “Nada Fácil” seria o momento anterior à mudança de comportamento realizada por uma pessoa, ou seja: a fuga da rotina; do comum; ficar fora do radar. Já “O Olho do Furacão” seria o momento posterior a essa tomada de decisão.

Tudo muda ao teu redor, o que era certo, sólido, dissolve, desaba, dilui, desmancha no ar

A música fala de alguém que está evadindo da sua vida cotidiana, buscando novos ares, novos rumos, uma fuga da sua rotina diária. Depois de realizar seu desejo chega a hora de encarar as consequências de suas ações. Tudo ao seu redor está diferente, as coisas que ele tinha em mente, seus planos anteriores agora se encontram perdidos em um passado esquecido. É um momento novo e imprevisível.

Obs. 01: "O que era certo, sólido, dissolve, desaba, dilui, desmancha no ar" - É uma referência a famosa frase do Manifesto Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels (1848): “tudo que é sólido desmancha no ar”. Foi usada por Marx para caracterizar a modernidade, onde ideias sólidas teriam tanta precariedade quanto às coisas materiais sólidas. A modernidade estaria caracterizada pela constante desintegração, mudança, imprecisão e esperanças.
 
“Tudo que é solido desmancha no ar” também é um famoso livro do escritor e filósofo estadunidense Marshall Berman. Essa obra é uma história crítica da modernidade, constituindo-se de análises críticas de vários autores e suas épocas, tais como Marx.

No moinho, giram as pás, e o tempo vira pó, de grão em grão, por entre os dedos, tudo parece escapar

Depois de tomar uma decisão, quem em certo ponto demonstra ter sido movida pelo anseio de liberdade, o indivíduo se questiona se essa decisão realmente foi a mais sensata. Embora, possivelmente ele precisasse sair do caos emocional que o consumia, o fato de essa pessoa abdicar de uma vida já construída (e o tempo vira pó) para se lançar ao desconhecido, tornou seus novos passos imprevisíveis. Embora, em um primeiro momento tudo pareça confuso (por entre os dedos, tudo parece escapar), é necessário manter a tranquilidade. Da mesma forma que um moinho gira suas pás repetidamente, a vida tem que ter continuidade. Esse novo cenário de mudança também é a hora de se reerguer e construir toda uma nova vida.

Estamos no centro, por dentro de tudo, no olho do furacão

Aqui, penso que o Humberto quis dizer que após um período de conflito emocional e insegurança, o eu lírico da canção crê na possibilidade de estar em paz. Após muitos momentos de enfrentamento e de questionamentos que o fizeram sentir-se confuso, tal indivíduo agora se encontra tranquilo por ter escapado de um viver angustiante.

Obs. 02: “Olho” é a região central de um furacão, na qual mesmo sendo parte de uma grande tempestade, o olho é a região desse fenômeno em que persiste tempo calmo, podendo-se mesmo avistar céu limpo.

Usado como metáfora, tal expressão tende a significar um ponto de tranquilidade e calmaria em meio à confusão, à pressa, aos problemas. Entretanto, a expressão é usada popularmente de forma inversa ao explicado acima. A maioria das pessoas associa essa figura de linguagem de maneira a dizer que a pessoa está perante uma grande dificuldade. Seria está passando por momentos confusos diante de situações que geram dúvidas, transtornos e desconforto ao indivíduo. Em resumo, seria estar envolvido pela pior parte de uma situação/problema (essa é uma forma errônea de se usar a metáfora referente ao fenômeno natural).

Estamos no centro de tudo que gira, na mira do canhão

Seria dizer que mesmo estando em um estado de calmaria, o indivíduo está constantemente cercado por problemas, angústias e situações que tendem a o levar ao desequilíbrio emocional. Estar na mira do canhão é o mesmo que dizer que você sempre é alvo da opinião de pessoas externas à sua vida. Por mais que você se preserve em suas ações, a sociedade a todo o tempo te bombardeará de julgamentos e deveres.

Obs. 03: Para reforçar a ideia, cito uma frase de outra canção do Humberto Gessinger denominada de “O Papa é Pop":

“Qualquer coisa que se mova é um alvo e ninguém tá salvo”.

Se for parar pra pensar, não vai sair do lugar! Não tem parada errada, não! No olho do furacão

Olha, se você tentar levar uma vida baseada no que os outros vão pensar acerca de suas ações, você não sairá do lugar, ou seja, jamais progredirá em busca dos sonhos e realizações que almeja. Você tem que saber lidar com as críticas, mesmo estando na mira do canhão. Deve-se entender que tudo à sua volta pode a todo o momento querer te influenciar. Contudo, não existe parada errada quando se tem consciência do que se faz e atitude para encarar a tempestade a sua volta (no olho do furacão).

Tudo gira ao teu redor o que era certo, sólido, evapora, vai-se embora, o que era líquido e certo

Aqui segue a linha de raciocínio já citada em todo o decorrer da canção e detalhada em versos anteriores. É basicamente o indivíduo compreender que nada é estático, que a vida muda a cada dia. Coisas que parecem verdades universais amanhã podem ser tidas como mitos. Ao tomar a atitude de subterfugir de seu antigo modo de viver, o personagem da música compreende que a mudança, embora necessária, desnorteou a conformidade com um existir tedioso. O imprevisível pode ser a chave que abre a porta das respostas das nossas perguntas, logo, não se consegue realizar um sonho se você não apostar no futuro e principalmente na ideia de que toda mudança é possível se você crer no seu potencial, mesmo que tudo à sua volta pareça uma tempestade sem fim.

Obs. 04: Nesse trecho percebemos referências à obra do sociólogo polonês Zigmunt Bauman. Segundo o intelectual, estamos assistindo o desenrolar de uma época marcada pelo medo e pela incerteza dos elementos que constituem nosso modo de vida e nossas sociedade.

Na sua obra “Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos”, Bauman analisa as relações amorosas dentro do que ele chama de “modernidade liquida”, ou seja, tempos em que nada dura, nada permanece, tudo muda muito frequentemente (leia mais aqui).

Tudo evapora, vai-se embora, o que era líquido e certo!


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