ANÁLISE DA MÚSICA: ALTAR PARTICULAR - MARIA GADÚ


Por: Djane Assunção - @mestre_djane | Escrito em 2014/ Atualizado em 2018

Altar Particular é 2º faixa do primeiro álbum de estúdio da cantora e compositora paulista Maria Gadú. O Álbum leva o mesmo nome da cantora e foi lançado no ano de 2009.

Meu bem que hoje me pede pra apagar a luz, e pôs meu frágil coração na cruz, do teu penoso altar particular

Primeiramente vamos pensar que a personagem retratada nesta letra demonstra um forte sentimento de adoração por uma pessoa que não a valoriza. Este indivíduo não possui o mesmo afeto para com a pessoa que o venera, mesmo ela claramente mostrando estar apaixonada.

Uma dica para facilitar o entendimento da letra é pensa-la como uma carta de amor escrita pela protagonista da análise para a sua paixão.

Meu bem que hoje me pede pra apagar a luz - apagar a luz traz o sentido de término, de finalização de algo: “o último a sair da casa apaga a luz”; “o gol foi no último minuto de jogo, bem no apagar das luzes”.

Seguindo este raciocínio temos uma protagonista consciente de que está diante do término unilateral da sua relação amorosa. Isto é, disposto somente pela outra pessoa. Pensemos que a chama do amor que alimentava a relação entre ela e sua parceria apagou deixando seu frágil coração ferido por que ela ainda a ama.

E pôs meu frágil coração na cruz, do teu penoso altar particular - para entender esta expressão devemos partir do evangelho pregado na Bíblia Sagrada Cristã, que traz a narrativa de que Jesus, após ter sido morto na cruz, teve o coração transpassado por uma lança.

“Quando chegaram a Jesus, tendo visto que já estava morto, não lhe quebraram as pernas; mas um dos soldados abriu-lhe o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água”, (João 19: 34).

Para a Igreja católica o altar por excelência representa Jesus Cristo e a Cruz, pois foi nela que ele foi morto e teve seu coração perfurado (o sagrado coração de jesus). Desta forma, a cruz desempenhou o papel do altar de cristo, por isso ela sempre está presente nos altares das Igrejas, com o intuito de lembrar as pessoas que a mesa do altar é também a mesa do sacrifício, onde se faz a memória e se torna presente o próprio Cristo. [1]

A partir desta explicação, “pôs meu frágil coração na cruz” traz a ideia de sacrifício e de sofrimento por parte da personagem protagonista, pois esta doou seu amor de forma intensa, mas recebeu em troca o desafeto. Se pensarmos numa relação com o trecho bíblico ela teve seu coração profundamente machucado pela decepção. Complementando esta parte, “do teu penoso altar particular” carrega o sentido de um lugar sacro, que deve permanecer intocável.

Sei lá, a tua ausência me causou o caos, no breu de hoje sinto que o tempo da cura tornou a tristeza normal

Sentindo-se desprezada e agora solitária, a protagonista não nega o fato de que a pessoa amada ainda faz muita falta em sua vida. A solidão em que ela se encontra e o vazio de não a ter mais ao seu lado tornou o seu cotidiano uma rotina de tristeza. O tempo que está levando para ela superar o término está a tornando uma pessoa nostálgica.

No breu de hoje - denota uma relação com a expressão “apagar a luz” citada anteriormente. Estar no breu é estar na escuridão, que por sua vez, ao transpor significação para a análise traz a noção de lamento, solidão e tristeza.

E então, tu tome tento do meu coração, não deixe ele vir na solidão, encabulado por voltar a sós

Entendamos que a protagonista se sente presa ao altar particular da pessoa que ela ainda ama. Ela entregou o seu coração (amor) a essa pessoa, e ainda que ela não o valorize, que possa ao menos ter o cuidado de não o machucar ainda mais (tomar tento).

Vir na solidão encabulado por voltar a sós - pense nesta parte como a idealização abstrata do estado emocional da protagonista. Seu romance teve um fim desagradável que partiu apenas de uma das partes envolvidas. Então imagine o coração dela (ou mesmo ela) desamparado e triste pelo fato de sua paixão não mais o querer. Agora está encabulado e envergonhado por ter sido rejeitado e limitado apenas ao triste altar particular da qual não pode ser liberto.

Depois, que o que é confuso te deixar sorrir, tu me devolva o que tirou daqui, que o meu peito se abre e desata os nós. Se enfim, você um dia resolver mudar, tirar meu pobre coração do altar, me devolver, como se deve ser

Ela espera que quando, e se, o interlocutor para quem se dirige compreender de uma maneira mais sensata o mal que ele causou, que devolva o que tirou dela, ou seja, a paz e a liberdade de amar novamente outro alguém.

Ela quer outra vez poder apaixonar-se e superar sua angústia de um amor mal resolvido. Apenas desta maneira os nós apertados em seu peito afrouxariam e ela se sentiria novamente aliviada e livre do sacrifício e da prisão imposta pelo penoso “altar particular”. Se a pessoa em questão assim fizer, devolver o que tirou dela de forma resolvida (explicando o porquê de suas ações, o porquê que a deixou se ela ainda a ama), ambas poderão seguir sem dores do passado.

Ou então, dizer que dele resolveu cuidar, tirar da cruz e o canonizar, digo faço melhor do que lhe parecer

Mas como ela ainda ama este alguém, e em nenhum momento escondeu isto, se ele quiser reatar o relacionamento, ela estará disposta a recebê-lo sem culpas. Se ele prometer valorizar seu coração, cuidar dele com carinho e afeto, ela o aceitaria sem arrazoar. Sua paixão é tão intensa e verdadeira que ela não se envergonha em dizer que se entregaria as vontades da sua paixão

Tirar da cruz e o canonizar - representa a noção de liberdade do sofrimento e remissão dos pecados. Lembre-se que a cruz foi o local do martírio de Jesus Cristo, mas que para a simbologia cristã é um objeto sagrado e de valorização da ressurreição e da promessa de uma nova vida.  Já canonizar, nesse caso, significa louvar, exaltar, idolatrar. Ela está disposta a aceitar a pessoa amada faça o que lhe parecer mais correto, desde que se decida e a liberte da angústia (digo faço melhor do que lhe parecer).

Teu cais deve ficar em algum lugar assim, tão longe quanto eu possa ver de mim, onde ancoraste teu veleiro em flor

Aqui neste trecho temos a descrição de um cenário como plano de fundo para as reflexões da protagonista.

Cais - diz respeito a elevação de terra, ou aterro, à margem de rio, lago ou mar, usada para permitir e facilitar o embarque e o desembarque de cargas e passageiros.

Veleiro - embarcação propulsada a vela.

Ela está sentindo que quanto mais o tempo passa, mais ela vai se afastando do ideal de amor que a outra pessoa busca. Ela a percebe cada dia mais distante, cada vez mais difícil a reconciliação. Sentimentos de distanciamento que são nitidamente traduzidos na analogia com o veleiro ancorado em um cais longínquo.

Sem mais, a vida vai passando no vazio, estou com tudo a flutuar no rio esperando a resposta ao que chamo de amor

Por fim, como a pessoa amada ainda não a libertou das inúmeras dúvidas, ela presencia a vida seguir, o tempo passar e agonia de a incerteza permanecer. Entretanto, ela ainda continua pronta para ir até seu amor se ele assim desejar (com tudo a caminhar no rio).

Para isso acontecer, ou pelo menos ela resolver as inquietações que a aflige, a pessoa necessita dar um basta ou um novo começo a história deles. Caso contrário, ela jamais terá a resposta (liberdade) que tanto anseia, e mais, a resposta que ela sonha que ainda seja amor.


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