DESGESSINGERIANDO: NOVOS HORIZONTES - ENGENHEIROS DO HAWAII


"Novos Horizontes" é a 18º faixa do álbum "10.000 destinos", que é o terceiro álbum ao vivo dos Engenheiros do Hawaii, lançado em CD e DVD no ano de 2000.

De maneira geral, eu gosto de imaginar a letra dessa música a partir do fim de um relacionamento, trazendo reflexões acerca do momento nostálgico e de solidão em que um indivíduo se encontra. Junto a esse ponto de vista, unimos as referências ligadas a princípios da física e da astronomia, algo bem normal nas composições do vocalista dos Engenheiros Humberto Gessinger.

Corpos em movimento, universo em expansão

Nessa primeira parte, o personagem principal da letra da música está tentando assimilar a situação (estar distante da pessoa que ama/fim de um relacionamento). Ele está na fase de aceitação do ocorrido. O trecho traz a ideia de mudança, de que o mundo gira, a vida dá voltas e as coisas mudam (movimento/expansão).

Obs. 01: Universo em expansão - segundo a famosa lei de Hubble o universo está em expansão. Essa lei diz que é possível medir as velocidades relativas de afastamento ou de aproximação das galáxias através do deslocamento Doppler da luz que elas emitem. Pela observação das galáxias distantes percebemos que elas estão se afastando de nós. [leia mais aqui].

Atualmente o chamado “horizonte do universo visível” fica a aproximadamente 13,5 bilhões de anos-luz da terra. Em outras palavras, o ponto mais distante de onde a luz pôde ser observada pelos astrônomos.  Este horizonte está em constante expansão, já que se sabe que desde que o universo "explodiu", há 13,5 bilhões de anos, ele nunca parou de crescer. “Se você olhar para qualquer outra galáxia a nossa volta, todas estão se distanciando de nós e também umas das outras, como se fossem azeitonas dentro de uma massa que está crescendo no forno. O horizonte do universo visível, portanto, está se expandindo”. [continue lendo aqui].

Trazendo para o contexto de análise da letra da música, podemos entender que assim como a lei de Hubble, que faz uma relação entre a velocidade de afastamento de uma galáxia e sua distância em relação à Terra, o personagem está se afastado da pessoa que ama. Ele se vê aflito pelas mudanças repentinas que estão acontecendo em sua vida.

O apartamento que era tão pequeno, não acaba mais

O locutor do texto sente a ausência da pessoa que ama e isso parece estar bem nítido na letra da canção. Nesse trecho percebemos que quando junto ao seu amor, seu lar se tornava pequeno para os momentos de paixão. Depois que essa pessoa amada se afastou, seu cotidiano passou a ser solitário, ou seja, aquele espaço que parecia minúsculo (apartamento) agora parece não ter fim (continua se expandindo - relação com o trecho anterior).

Vamos dar um tempo, não sei quem deu a sugestão

Aqui, o personagem se mostra arrependido dos motivos que levaram ao fim do seu relacionamento (não sei quem deu a sugestão). Seria como se ele levantasse uma questão para si: como as coisas puderam acontecer dessa forma? Talvez ele pense que poderia ter evitado estar passando por esse impasse (vamos dar um tempo). Provavelmente ele acredita que se tivesse tomado controle da situação isso não estaria acontecendo. 

Aquele sentimento que era passageiro não acaba mais

Aqui, o sentimento que a letra se refere é o de saudade. Podemos imaginar que esse casal se via frequentemente, sendo assim, o sentimento de saudade era algo passageiro. Com o afastamento, estar junto agora é algo restrito as lembranças do locutor do texto, portanto, a saudade é algo que está o atormentando (não acaba mais).

Quero explodir as grades e voar. Não tenho pra onde ir, mas não quero ficar

Por ainda sentir muito amor por uma pessoa que está distante, o personagem principal se mostra abalado e nitidamente consumido por um sentimento de insegurança, de não querer estar em um lugar com tantas lembranças de um alguém de que ainda se gosta muito.

Obs. 02: Não tenho pra onde ir, mas não quero ficar - acredito que este trecho faça menção a um dos maiores mistérios da história da humanidade: será que estamos sozinhos no Universo? Será que realmente não temos para onde ir?

Novos horizontes se não for isso, o que será?

Partindo do princípio que estabelecemos para essa análise, imaginemos que esse questionamento levantado pelo locutor do texto se baseia na tentativa de achar uma resposta imediata para sua angústia. É bem comum supormos motivos para compreender o fim de um relacionamento que não pôde ser explicado de uma maneira satisfatória. Sendo assim, talvez ele ache que seu amor só o deixou por que estava desgastado e precisava buscar novos rumos, ou seja, novos horizontes.

Obs. 03. "Diversas descobertas na Física abriram novos horizontes para a ciência, mesmo sendo duras para os físicos, porque derrubavam conceitos considerados fundamentais e universais que haviam sido acariciados por milênios. O estudo do Universo e seus componentes nos permite ir muito além das limitações do ambiente humano e explorar novos horizontes, circunstâncias que esclarecem detalhes da realidade que não podemos observar na Terra por causa das circunstâncias limitadas”, afirma o físico doutor Eduardo Lütz [leia mais aqui].

Quem constrói a ponte não conhece o lado de lá

Nessa parte, para compreendermos melhor vamos primeiro dar a explicação física, depois fazemos a analogia com as teorias sobre o possível término de relação do personagem principal.

Obs. 04: "O nosso universo pode estar situado no interior de um buraco de minhoca (wormhole) - também conhecido como Ponte de Einstein-Rosen - uma espécie de 'cano' hipotético que une dois universos. O próprio buraco de minhoca seria parte de um buraco negro que ficaria dentro de um universo muito maior, que contém o nosso como um traço dificilmente detectável por algum cientista 'extra-universal'." [continue lendo aqui].

Trazendo para o contexto amoroso: Quando estamos conhecendo uma pessoa vamos construindo uma ponte para chegara até ela (unindo dois universos), nos envolvemos em sentimentos, palavras, ações, e no caso de uma paixão, nos entregamos de forma intensa. No entanto, nunca somos capazes de conhecer verdadeiramente alguém (traço dificilmente detectável), por isso precisamos criar meios para compreender as pessoas da melhor maneira possível. Então, construímos uma ponte sem conhecer de verdade o lado de lá! Pois sem as "pontes" não podemos chegar ao outro lado.
  
Quero explodir as grades e voar não tenho pra onde ir, mas não quero ficar

[...]

Suspender a queda livre, libertar

O personagem principal se encontra angustiado e anseia por conforto. Suspender a queda livre seria dizer que ele quer solucionar seus problemas o mais rápido possível e não se aprofundar cada vez mais em um estado de aflição. Ele deseja se libertar desse desconforto que o atinge.

Obs. 05: "Os corpos físicos são atraídos pela Terra porque em torno dela há uma região chamada campo gravitacional exercendo atração sobre eles. Se não houvesse a resistência do ar, todos os corpos, de qualquer peso ou forma, abandonados da mesma altura, nas proximidades da superfície da Terra, levariam o mesmo tempo para atingir o solo. Esse movimento é conhecido como queda livre". [continue lendo aqui].

Partindo desse princípio, o personagem principal ainda se ente atraído por seu amor, assim como um corpo é atraído pelo campo gravitacional da terra. Contudo, ele não quer perder o controle de sua vida e se deixar cair em queda livre, ao encontro de um estado emocional de fragilidade que possa se tornar constante.

O que não tem fim sempre acaba assim

Nesse trecho final, o locutor do texto admite que ainda acredita na possibilidade de uma reconciliação, que o que não tem fim não acaba dessa forma, ou seja, se ainda existe amor não há um final completo. Quando o fim é certo o coração aceita, simplesmente segue em frente sem hesitar, o que não aconteceu nesse caso. Não se pode esquecer ou ignorar tão facilmente um grande amor.

Obs. 06: “O universo tem fim? Ou é infinito? Se ele tem fim, então ele deve estar contido em alguma coisa, certo? Não podemos estar simplesmente flutuando no nada! Isso não parece fazer muito sentido.... Tem de haver alguma coisa "do outro lado" de onde ele acaba. Por outro lado, se ele não tem fim, como pode ser infinito? Tudo tem de ter um fim, não é verdade?! Só que isso nos leva de volta ao problema inicial” [leia mais aqui].

É possível que haja coisas no universo além do nosso horizonte atual, que não são visíveis hoje, mas se tornarão visíveis em algum futuro remoto, à medida que o universo se expande. Da mesma forma é o momento atual em que personagem se encontra. No presente, ele não tem as respostas necessárias para compreender o fim do seu relacionamento, mas à medida que passe o tempo, é possível que ele abra seu olhar para "novos horizontes" e suas dúvidas possam ser cessadas.

Raul Seixas um dia já disse:
 "cada um de nós é um universo".

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