A LETRA DA MÚSICA: NOVOS HORIZONTES - ENGENHEIROS DO HAWAII


Por: Djane Assunção - @mestre_djane

Novos Horizontes é a 18º faixa do álbum 10.000 destinos, que é o terceiro álbum ao vivo dos Engenheiros do Hawaii, lançado em CD e DVD no ano de 2000.

Nesta análise iremos partir de uma visão que traz o término de um relacionamento amoroso, na qual um indivíduo está em estado de melancolia e reflexão. Junto a este ponto de vista, unimos as referências ligadas a princípios da física, da astronomia e do budismo, especificamente o conceito de impermanência.

Corpos em movimento, universo em expansão

Nessa primeira parte o indivíduo está tentando assimilar a situação que lhe ocorre. Estamos falando em estar distante da pessoa que ele possivelmente ama. O trecho traz a ideia de mudança, de que o mundo gira, a vida dá voltas e as coisas mudam (movimento/expansão).

Universo em expansão - segundo a famosa lei de Hubble o universo está em expansão. Essa lei diz que é possível medir as velocidades relativas de afastamento ou de aproximação das galáxias através do deslocamento Doppler da luz que elas emitem. Pela observação das galáxias distantes percebemos que elas estão se afastando de nós. [1]

Atualmente o chamado “horizonte do universo visível” fica a aproximadamente 13,5 bilhões de anos-luz da terra. Em outras palavras, o ponto mais distante de onde a luz pôde ser observada pelos astrônomos.  Este horizonte está em constante expansão, já que se sabe que desde que o universo "explodiu", há 13,5 bilhões de anos, ele nunca parou de crescer. “Se você olhar para qualquer outra galáxia a nossa volta, todas estão se distanciando de nós e também umas das outras, como se fossem azeitonas dentro de uma massa que está crescendo no forno. O horizonte do universo visível, portanto, está se expandindo”. [2]

Trazendo para o contexto de análise da letra da música, podemos entender que assim como a lei de Hubble, que faz uma relação entre a velocidade de afastamento de uma galáxia e sua distância em relação à Terra, a pessoa que o indivíduo ama está se afastando dele. Isto o coloca em aflição, efeito causado pelas mudanças que estão acontecendo em sua vida.

O apartamento que era tão pequeno, não acaba mais

Neste trecho sugerimos que o locutor do texto (personagem falante, o indivíduo em questão) explicita a ausência da pessoa que ele ama. Percebemos que quando junto dela seu lar se tornava pequeno para os momentos de paixão. Depois que esta pessoa amada se afastou, seu cotidiano passou a ser solitário, ou seja, aquele espaço que parecia minúsculo (apartamento) agora parece não ter fim (continua se expandindo - relação com o trecho anterior).

Vamos dar um tempo, não sei quem deu a sugestão

Aqui, o indivíduo possivelmente se mostra arrependido dos motivos que levaram ao fim do seu relacionamento (não sei quem deu a sugestão). Seria como se ele levantasse uma questão para si: como as coisas puderam acontecer desta forma? Talvez ele pense que poderia ter evitado estar passando por esse embaraço (vamos dar um tempo). Provavelmente ele acredita que se tivesse tomado controle da situação isso não estaria acontecendo. 

A impermanência (Annica) - Este conceito é encontrado no budismo e segundo esta doutrina é essencial para a descrição do universo e trata-se da constante mutação dos elementos que o compõe. Dessa forma, nada neste mundo é permanente, assim, “causas e condições variam constantemente e o seu resultado, portanto, também varia”. [3]

Trazendo para o contexto da análise, entendemos que ninguém é capaz de controlar o estado das coisas, ou seja, somos seres “líquidos” e em contínuo processo de renovação. O que, portanto, inclui as idas e vindas, começos e términos dos relacionamentos. Quando entendermos isto poderemos alcançar a compreensão da impermanência, aceitando de maneira racional o desapego.

Aquele sentimento que era passageiro não acaba mais

Aqui, o “sentimento” que a letra se refere é o de saudade. Para entendermos isto aplicaremos a seguinte suposição: o casal imaginado na análise se via frequentemente, sendo assim, o sentimento de saudade era algo passageiro. Com o afastamento, estar junto agora é algo restrito as lembranças do locutor do texto, portanto, a saudade é algo que está o atormentando (não acaba mais).

Quero explodir as grades e voar. Não tenho pra onde ir, mas não quero ficar

Por ainda sentir muito amor por uma pessoa que está distante, o indivíduo se mostra abalado e nitidamente consumido por um sentimento de insegurança, de não querer estar em um lugar com tantas lembranças de um alguém de que ainda se gosta muito.

Não tenho pra onde ir, mas não quero ficar - acredito que este trecho também faça menção a um dos maiores mistérios da história da humanidade: será que estamos sozinhos no Universo? Será que realmente não temos para onde ir?

Novos horizontes se não for isso, o que será?

Partindo do princípio que estabelecemos para essa análise, imaginemos que esse questionamento levantado pelo locutor do texto se baseia na tentativa de achar uma resposta imediata para sua angústia. É bem comum supormos motivos para compreender o fim de um relacionamento que não pôde ser explicado de uma maneira satisfatória. Sendo assim, talvez ele ache que seu amor só o deixou por que estava desgastado e precisava buscar novos rumos, ou seja, novos horizontes.

Em uma entrevista para o jornalista Fabricio Mazocco realizada em 07/08/2013, que falava do disco solo do Humberto Gessinger (compositor e líder dos Engenheiros do Hawaii) denominado Insular (2003), ele fala sobre impermanência ao se referir a canção Tudo Está Parado. Cabe aqui colocar este trecho da entrevista e também citar uma parte da letra de Tudo Está Parado, esta que por sua vez provavelmente tem uma conexão ideológica com a letra que estamos analisando, mais precisamente este trecho. [4]


Tudo Está Parado (Insular - 2013) - Tudo está parado por aí esperando uma palavra [...]. Fiz uma pergunta no escuro deste quarto. Tudo está parado esperando por você. A noite que caía, o ciclo das marés. A fumaça que subia pelas chaminés

Novos horizontes - "Diversas descobertas na Física abriram novos horizontes para a ciência, mesmo sendo duras para os físicos, porque derrubavam conceitos considerados fundamentais e universais que haviam sido acariciados por milênios. O estudo do Universo e seus componentes nos permite ir muito além das limitações do ambiente humano e explorar novos horizontes, circunstâncias que esclarecem detalhes da realidade que não podemos observar na Terra por causa das circunstâncias limitadas”, afirma o físico doutor Eduardo Lütz. [5]

Quem constrói a ponte não conhece o lado de lá

Nessa parte, para compreendermos melhor vamos primeiro dar uma explicação sob a ótica de princípios da física, depois fazemos a analogia com as teorias sobre o possível término de relação do personagem principal.

Ponte de Einstein-Rosen - "O nosso universo pode estar situado no interior de um buraco de minhoca (wormhole) - também conhecido como Ponte de Einstein-Rosen - uma espécie de 'cano' hipotético que une dois universos. O próprio buraco de minhoca seria parte de um buraco negro que ficaria dentro de um universo muito maior, que contém o nosso como um traço dificilmente detectável por algum cientista 'extra-universal'." [6]

Fazendo a analogia com a teoria sobre relacionamentos - Quando estamos conhecendo uma pessoa vamos construindo uma ponte para chegara até ela (unindo dois universos), nos envolvemos em sentimentos, palavras, ações, e no caso de uma paixão, entregamo-nos de forma intensa. No entanto, nunca somos capazes de conhecer verdadeiramente alguém (traço dificilmente detectável), por isso precisamos criar meios para compreender as pessoas da melhor maneira possível. Então, construímos uma ponte sem conhecer de verdade o lado de lá! Pois sem as "pontes" não podemos chegar ao outro lado.

Suspender a queda livre, libertar

Suspender a queda livre seria dizer que o indivíduo quer solucionar seus problemas o mais rápido possível e não se aprofundar cada vez mais em um estado de aflição. Ele deseja se libertar desse desconforto que o atinge.

Campo gravitacional e Queda livre - "Os corpos físicos são atraídos pela Terra porque em torno dela há uma região chamada campo gravitacional exercendo atração sobre eles. Se não houvesse a resistência do ar, todos os corpos, de qualquer peso ou forma, abandonados da mesma altura, nas proximidades da superfície da Terra, levariam o mesmo tempo para atingir o solo. Esse movimento é conhecido como queda livre". [7]

Partindo desse princípio, o personagem principal ainda se ente atraído por seu amor, assim como um corpo é atraído pelo campo gravitacional da terra. Contudo, ele não quer perder o controle de sua vida e se deixar cair em queda livre, ao encontro de um estado emocional de fragilidade que possa se tornar constante. Daí é preciso assimilar que somos seres em estado de impermanência para então suspender a queda, libertar-se.

O que não tem fim sempre acaba assim

Especificamente falando sobre a teoria base imposta na análise, neste trecho final o locutor do texto admite que ainda acredita na possibilidade de uma reconciliação, que o que não tem fim não acaba dessa forma, ou seja, se ainda existe amor não há um final completo. (lembre-se da impermanência, tudo se transforma constantemente).

Desta maneira, quando o fim é certo o coração aceita, simplesmente segue em frente sem hesitar, o que não aconteceu nesse caso. Não se pode esquecer ou ignorar tão facilmente um grande amor.

Para ilustrar melhor, voltamos ao que o Humberto fala na entrevista citada acima - “É um mundo que está se formando. As coisas ainda não estão definidas e não sei se um dia estarão ou se daqui para frente vagaremos para sempre na impermanência”.

Limites do universo - “O universo tem fim? Ou é infinito? Se ele tem fim, então ele deve estar contido em alguma coisa, certo? Não podemos estar simplesmente flutuando no nada! Isso não parece fazer muito sentido.... Tem de haver alguma coisa "do outro lado" de onde ele acaba. Por outro lado, se ele não tem fim, como pode ser infinito? Tudo tem de ter um fim, não é verdade?! Só que isso nos leva de volta ao problema inicial”. [2]

É possível que haja coisas no universo além do nosso horizonte atual, que não são visíveis hoje, mas se tornarão visíveis em algum futuro remoto, à medida que o universo se expande. Da mesma forma é o momento atual em que personagem se encontra. No presente, ele não tem as respostas necessárias para compreender o fim do seu relacionamento, mas à medida que passe o tempo, é possível que ele abra seu olhar para "novos horizontes" e suas dúvidas possam ser cessadas.

Raul Seixas um dia já disse: "cada um de nós é um universo".


Referências:

2 comentários:

  1. Respostas
    1. Análise atualizada! Graças a você Giana pudemos ter novas visões sobre esta letra. A citei nos agradecimentos em postagens nas nossas redes sociais. Novamente, muito obrigado pela sua contribuição.

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